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sábado, 20 de julho de 2013

"Saturno é um símbolo vivo de tristeza, de morbidez, de desgraça, de fatalidade. A sua tonalidade branco-leitosa desperta inevitavelmente associações com tripas, matéria cinzenta morta, órgãos vulneráveis escondidos da vista, doenças repulsivas, tubos de ensaio, espécimes de laboratório, muco, ectoplasma, sombras melancólicas, fenómenos mórbidos, guerra de íncubos e súcubos, esterilidade, anemia, indecisão, derrotismo, obstipação, antitoxinas, romances medíocres, hérnias, meningite, leis de letra morta, burocracia, condições da classe trabalhadora, oficinas que pagam salários de fome, Y.M.C.A., reuniões de Christian Endeavor, sessões espíritas, poetas como T.S. Eliot, fanáticos como Alexander Dowie, curandeiras como Mary Baker Eddy, estadistas como Chamberlain, fatalidades triviais como escorregar numa casca de banana e partir a cabeça, sonhar com melhores dias e ficar entalado entre dois camiões, afogar-se na própria banheira, matar acidentalmente o melhor amigo, morrer de soluços em vez de no campo de batalha, etc, ad infinitum. Saturno é maléfico pela força da inércia. O seu anel, que é apenas peso-leve em espessura, de acordo com os sábios, é a aliança de casamento que significa morte ou infortúnio desprovidos de todo o significado. Saturno, seja lá o que possa ser para o astrónomo, é o sinal da fatalidade sem sentido para o homem da rua. Ele transporta-o no coração porque toda a sua vida, vazia de significado como é, está envolvida por este supremo símbolo com o qual poderá contar para o liquidar se tudo o mais falhar. Saturno é vida em suspenso, menos morto do que imortal, ou seja, incapaz de morrer. Saturno é como osso morto no ouvido - mastóide duplo para a alma. Saturno é como um rolo de papel de parede, virado do avesso e lambuzado com aquela pasta catarral que os forradores de paredes acham tão indispensável para a sua profissão. Saturno é uma imensa aglomeração daquelas partículas de aspecto horroroso que uma pessoa expectora de manhã depois de ter fumado vários maços de cigarros inspiradores, revigorantes e que não causam tosse. Saturno é o adiamento manifestando-se como uma realização em si mesmo. Saturno é dúvida, perplexidade, cepticismo, factos por amor dos factos e nada de melodrama, nada de misticismo, compreende? Saturno é o suor diabólico de aprender por aprender, o nevoeiro congelado da incessante perseguição monomaníaca do que está sempre logo adiante do seu nariz. Saturno é deliciosamente melancólico porque não conhece nem reconhece nada para além da melancolia; nada na sua própria gordura. Saturno é o símbolo de todos os presságios e superstições, a prova falsa da entropia divina, falsa porque, se fosse verdade que o Universo está a diminuir, Saturno ter-se-ia derretido há muito tempo. Saturno é tão eterno como o medo e a irresolução e torna-se mais leitoso, mais turvo, a cada transigência, a cada capitulação. As almas tímidas clamam por Saturno da mesma maneira que se diz clamarem as crianças pela Lua. Saturno dá-nos apenas aquilo que pedimos, nem um grama mais. Saturno é a esperança branca da raça branca que tagarela interminavelmente sobre as maravilhas da natureza e passa o seu tempo a aniquilar a maior maravilha de todas: o Homem. Saturno é o impostor estelar fazendo-se passar pelo grande cosmocrator do Destino. Monsieur le Paris, o magarefe automático de um mundo atingido por ataraxia. Que os céus cantem a sua glória: este globo linfático de dúvida e tédio jamais cessará de projectar os seus raios branco-leitosos de melancolia exânime.
Esta é a fotografia emocional de um planeta cuja influência heterodoxa ainda se faz sentir pesadamente sobre a consciência quase extinta do homem. O espectáculo mais desanimador do firmamento. Corresponde a todas as imagens medrosas concebidas no coração do homem, é o repositório único de todo o desespero e derrota a que a espécie humana tem sucumbido desde tempos imemoriais. Tornar-se-á invisível só quando o homem o tiver expurgado da sua consciência."
 
Henry Miller em "O Colosso de Maroussi"

quarta-feira, 17 de julho de 2013

 
"Creta é outra coisa. Creta é um berço, um instrumento, um tubo de ensaio vibrante no qual foi efectuada uma experiência vulcânica. Creta pode silenciar a mente, aquietar o tumultuar do pensamento."
 
Henry Miller em "O Colosso de Maroussi"

terça-feira, 16 de julho de 2013

" ... na Grécia ... cada paragem é uma pedra ao longo de um caminho assinalado pelos deuses. São estações de descanso, de oração, de meditação, de feito, de sacrifício, de transfiguração. (...) As próprias rochas, e em nenhum outro lugar da Terra foi Deus tão pródigo com elas como na Grécia,
são símbolos de vida eterna. Na Grécia as rochas são eloquentes: os homens podem morrer, mas as rochas nunca. Num lugar como Hidra, por exemplo, sabemos que quando um homem morre se torna parte da sua rocha nativa. Mas esta é uma rocha viva, uma onda de energia divina suspensa no tempo e no espaço, criando uma pausa de longa ou curta duração na infindável melodia. Hidra foi inscrita na partitura musical da criação por um hábil calígrafo. É uma daquelas pausas divinas que permitem ao músico, quando reata a melodia, avançar de novo numa direcção totalmente nova. Nesta altura, podemos muito bem deitar a bússola fora. Para avançar no sentido da criação precisamos de bússola? Depois de tocar nesta rocha perdi todo o sentido de direcção terrena. O que me aconteceu deste ponto em diante inscreve-se na natureza da progressão, não da direcção. Tinha deixado de haver uma meta para além: integrei-me no Caminho. Daí em diante, cada estação assinalava um progresso numa nova latitude e longitude espiritual."

"O Colosso de Maroussi"  de Henry Miller

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Manter a mente vazia é uma proeza, e para mais uma proeza muito saudável. Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso, perfeita e completamente indiferente ao destino do mundo é o mais excelente remédio que um homem pode administrar a si mesmo. A cultura livresca esvai-se gradualmente; os problemas fundem-se e dissolvem-se, os laços são suavemente cortados; pensar, quando nos dignamos dar-nos a esse luxo, torna-se muito primitivo; o corpo transforma-se num instrumento novo e maravilhoso; olhamos para as plantas, pedras ou peixes com olhos diferentes; perguntamo-nos o que pretendem as pessoas realizar com as suas actividades frenéticas ...
(...)
A ausência de jornais, a ausência de notícias acerca do que os homens estão a fazer em diferentes partes do mundo para tornar a vida mais suportável ou insuportável é a maior das dádivas. Se pudéssemos pura e simplesmente eliminar os jornais, estou certo de que isso constituiria um grande avanço. Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade."
 
Henry Miller em "O Colosso de Maroussi"

terça-feira, 9 de julho de 2013

"Para um país de apenas sete milhões de habitantes, a cidade de Atenas tem facetas de fenómeno. Está ainda nas vascas do nascimento: é desgraciosa, confusa, desajeitada, insegura de si mesma; tem todas as doenças da infância e alguma da melancolia e desolação da adolescência. Mas escolheu um sítio magnífico para crescer, fulge ao sol como uma pedra preciosa e à noite cintila com um milhão de luzes tremeluzentes que parecem acender-se e apagar-se com a velocidade do relâmpago. É uma cidade de surpreendentes efeitos atmosféricos: não se enterrou na terra: flutua numa luz que muda constantemente, pulsa com um ritmo cromático."
 
Henry Miller em "O Colosso de Maroussi"

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

"A dignidade do homo sapiens é precisamente essa: a percepção da sabedoria, a demanda do conhecimento desinteressado, a criação de beleza. Fazer dinheiro e inundar as nossas vidas de bens materiais cada vez mais trivializados é uma paixão profundamente vulgar e inane. Pode ser que, de modos agora muito difíceis de discernir, a Europa venha a gerar uma revolução contra-industrial, assim como gerou a própria revolução industrial.
(...)
Tudo isto serão sonhos, talvez imperdoavelmente ingénuos."

George Steiner in "A Ideia de Europa

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O lugar da cultura no projecto europeu

"Reabilitação, relançamento, reconstrução ... O actual momento europeu, marcado pelo cepticismo e pela descrença, suscita ansiedades e reflexões quanto ao «projecto» ou à «grande ideia» que poderá orientar uma (por alguns) desejada regeneração da Europa.
(...)
E neste contexto surge o debate sobre o lugar da cultura no «projecto europeu».
(...)
Ao confrontarmo-nos com a pujança de outros continentes ou das novas economias emergentes vemos que neste território ao fim e ao cabo relativamente pequeno que é a Europa encontramos recursos densamente distribuídos de inteligência, de sensibilidade, de memória, de imaginação e de criatividade. E até o pessimismo melancólico - tão típico de tantos intelectuais europeus - revela um espírito crítico que a Europa deveria provavelmente exportar em maior quantidade para sua vantagem e seguramente de outros.
Quem diz cultura diz liberdade e diz diferença. A Europa tem na liberdade e na diferença - de que o pluralismo linguístico constitui privilegiada expressão - condição e garantia da sua diversidade. Esta, longe de constituir um fardo, representa um trunfo na idade da globalização."

José Manuel Durão Barroso