quarta-feira, 28 de agosto de 2013

"Ela não tem os cabelos ruivos, tem-nos da cor das folhas de plátano caídas num jardim de há muito tempo. Não são ruivos os cabelos, são cor disso."
 
Nuno Camarneiro em "No Meu Peito Não Cabem Pássaros"

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Parker Fitzgerald







 
Adoro esta série de fotografias realizada pelo artista Parker Fitzgerald para a publicação Kinfolk!

Fulgores da Noite

"Desce um desses crepúsculos violáceos em que parece errar no espaço a enevoada música das casuarinas ...
Envolvem gradativamente a imensidade os veludos negros da Noite.
Num céu frio d'inverno, que umas mais frias estrelas esmaltam pouco a pouco, começa prodigiosamente a surgir a Lua, alta e misteriosa, lembrando baladas.
Dias d'Ouro, ricos e raros, resplandeceram já com o Sol na luxúria verde da folhagem.
E agora, o luar, que veste as noites de noivas, desdobra suntuosamente as suas tules delicadas e os seus luxuosos cetins brancos, imaculados.
Fecundam-se os grandes campos, quietos na nívea luz da Lua, no clarão que dela jorra, dormente e doce.
E os animais, que repousam na amplidão dos viçosos gramados, gozam tranquilos um sono brando, acariciador, como que produzido pela amorfinada claridade da Lua límpida e profunda.
As águas, as frescas águas das fontes e rios, as largas águas dos mares serenamente adormecem, num esplendor cristalino.
Apenas uma surdina leve que sai delas, como um leve ressonar, lhes denuncia, no silêncio claro da noite, a natureza sonora.
E enquanto a rumorosa paisagem, todos os frementes impulsos do dia calam-se, em redor, na noite, a lua e as estrelas amorosas acordam e brilham, num recolhimento de Santuário, todas de branco, como virgens para a primeira comunhão."
 
Cruz e Sousa (1861-1898), em "Missal"

domingo, 28 de julho de 2013

O Dossel de Titânia

"Conheço um lugar onde floresce o tomilho silvestre,
onde primaveras e violetas pendentes crescem,
coberto por um dossel de madressilvas exuberantes,
com doces rosas almiscaradas e roseiras-bravas;
lá dorme Titânia uma parte da noite,
embalada, nessas flores, com danças e festas;
e lá a serpente troca sua pele esmaltada,
qual larga folha que possa envolver uma fada;
e com o suco disto vou esfregar-lhe os olhos
e deixá-la repleta de odiosas fantasias.
Pega um pouco dele e procura neste bosque:
uma doce dama ateniense está apaixonada
por um desdenhoso jovem; unge os olhos dele;
mas faz isso de modo que a dama seja
a próxima coisa que ele veja. Reconhecerás o homem
pelos trajes atenienses que veste.
Faze-o com algum cuidado, para que ele se mostre
mais apaixonado por ela do que ela por seu amor.
E procura encontrar-me quando o primeiro galo cantar."
 
William Shakespeare (1564-1616),
in "Sonho de uma Noite de Verão", Acto II, Cena I

sábado, 27 de julho de 2013

"Rock it For Me" - Caravan Palace

 
"Caravan Palace, a French Electro swing and Gypsy Jazz band."
Gosto da banda! E este vídeo é uma delícia! :)
Excelente para Lindy Hop!

A Ribeira

"Os rugidos do mar, a cólera das ondas, são as únicas coisas que poderão estar em consonância com os tormentos de uma alma forte, com os sentimentos de um coração generoso que se desespera com as mesquinharias da Terra; o brilho do sol, o único que pode bastar a essas almas altivas que consideram tudo pequeno e de pouco valor para deslumbrá-las; o céu - o maior dos espaços -, o curso dos astros, a eternidade do pensamento humano, esse é o porto de salvação com que sonham os que padecem, a barreira que o incrédulo trata em vão de transpor, a atmosfera, enfim, onde residem todos os ídolos e todas as ilusões do poeta."

Rosalia de Castro (1837-1885), em "A Filha do Mar"

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Odisseia de Lagerfeld




 
Charmosa esta parceria estabelecida entre Karl Lagerfeld e o Chef Joël Robuchon com o objectivo de conceber uma experiência diferente no espaço Odyssey!
De forma criativa e original o famoso estilista criou um mural inspirado nos épicos de Homero (Ilíada e Odisseia), assumindo-se este como cenário de fundo naquele que já é o terceiro restaurante de Robuchon no Hotel Métropole Monte-Carlo!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Brad Kunkle

"The Gilded Wilderness"

"Cocoon"

"Halfway"

"Islands"

"The Bee Healer"

"Reclamation"
As pinturas recentes de Brad Kunkle!
Pesquisem mais
aqui sobre o artista, bem como a técnica que utiliza nos seus trabalhos!

sábado, 20 de julho de 2013

Olive Tomato

 
Após a publicação de diversos excertos retirados de "O Colosso de Maroussi", um livro de Henry Miller dedicado à Grécia, lembrei-me de partilhar uma página que descobri recentemente!
Um projecto interessante de Helena Paravantes sobre a cozinha grega, e não só!
Deliciem-se com Olive Tomato! :)

Saturno, o "impostor estelar"

O excerto publicado no post anterior é uma autêntica pérola! Não pude deixar de sorrir perante algumas linhas deste humor saturnino, particularmente quando refere-se a Saturno como "o impostor estelar"! :))
Porque teria Henry Miller tanta aversão a este grande maléfico?
Por curiosidade, fui ver o seu mapa astrológico (podem também ver aqui) e o escritor tinha um Saturno a 29º de Virgem e 58' na casa 6! Ora, estava essencialmente peregrino!
Esta repulsa deixa-me tentada a investigar ... :)
"Saturno é um símbolo vivo de tristeza, de morbidez, de desgraça, de fatalidade. A sua tonalidade branco-leitosa desperta inevitavelmente associações com tripas, matéria cinzenta morta, órgãos vulneráveis escondidos da vista, doenças repulsivas, tubos de ensaio, espécimes de laboratório, muco, ectoplasma, sombras melancólicas, fenómenos mórbidos, guerra de íncubos e súcubos, esterilidade, anemia, indecisão, derrotismo, obstipação, antitoxinas, romances medíocres, hérnias, meningite, leis de letra morta, burocracia, condições da classe trabalhadora, oficinas que pagam salários de fome, Y.M.C.A., reuniões de Christian Endeavor, sessões espíritas, poetas como T.S. Eliot, fanáticos como Alexander Dowie, curandeiras como Mary Baker Eddy, estadistas como Chamberlain, fatalidades triviais como escorregar numa casca de banana e partir a cabeça, sonhar com melhores dias e ficar entalado entre dois camiões, afogar-se na própria banheira, matar acidentalmente o melhor amigo, morrer de soluços em vez de no campo de batalha, etc, ad infinitum. Saturno é maléfico pela força da inércia. O seu anel, que é apenas peso-leve em espessura, de acordo com os sábios, é a aliança de casamento que significa morte ou infortúnio desprovidos de todo o significado. Saturno, seja lá o que possa ser para o astrónomo, é o sinal da fatalidade sem sentido para o homem da rua. Ele transporta-o no coração porque toda a sua vida, vazia de significado como é, está envolvida por este supremo símbolo com o qual poderá contar para o liquidar se tudo o mais falhar. Saturno é vida em suspenso, menos morto do que imortal, ou seja, incapaz de morrer. Saturno é como osso morto no ouvido - mastóide duplo para a alma. Saturno é como um rolo de papel de parede, virado do avesso e lambuzado com aquela pasta catarral que os forradores de paredes acham tão indispensável para a sua profissão. Saturno é uma imensa aglomeração daquelas partículas de aspecto horroroso que uma pessoa expectora de manhã depois de ter fumado vários maços de cigarros inspiradores, revigorantes e que não causam tosse. Saturno é o adiamento manifestando-se como uma realização em si mesmo. Saturno é dúvida, perplexidade, cepticismo, factos por amor dos factos e nada de melodrama, nada de misticismo, compreende? Saturno é o suor diabólico de aprender por aprender, o nevoeiro congelado da incessante perseguição monomaníaca do que está sempre logo adiante do seu nariz. Saturno é deliciosamente melancólico porque não conhece nem reconhece nada para além da melancolia; nada na sua própria gordura. Saturno é o símbolo de todos os presságios e superstições, a prova falsa da entropia divina, falsa porque, se fosse verdade que o Universo está a diminuir, Saturno ter-se-ia derretido há muito tempo. Saturno é tão eterno como o medo e a irresolução e torna-se mais leitoso, mais turvo, a cada transigência, a cada capitulação. As almas tímidas clamam por Saturno da mesma maneira que se diz clamarem as crianças pela Lua. Saturno dá-nos apenas aquilo que pedimos, nem um grama mais. Saturno é a esperança branca da raça branca que tagarela interminavelmente sobre as maravilhas da natureza e passa o seu tempo a aniquilar a maior maravilha de todas: o Homem. Saturno é o impostor estelar fazendo-se passar pelo grande cosmocrator do Destino. Monsieur le Paris, o magarefe automático de um mundo atingido por ataraxia. Que os céus cantem a sua glória: este globo linfático de dúvida e tédio jamais cessará de projectar os seus raios branco-leitosos de melancolia exânime.
Esta é a fotografia emocional de um planeta cuja influência heterodoxa ainda se faz sentir pesadamente sobre a consciência quase extinta do homem. O espectáculo mais desanimador do firmamento. Corresponde a todas as imagens medrosas concebidas no coração do homem, é o repositório único de todo o desespero e derrota a que a espécie humana tem sucumbido desde tempos imemoriais. Tornar-se-á invisível só quando o homem o tiver expurgado da sua consciência."
 
Henry Miller em "O Colosso de Maroussi"

quinta-feira, 18 de julho de 2013