segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

" ... a inteligência, no entanto, tem pouco que ver com a poesia. A poesia brota de algo mais profundo; é anterior à inteligência. Talvez nem sequer esteja ligada à sabedoria. É algo em si mesma; tem a sua própria natureza. Indefinível."
 
Jorge Luis Borges

domingo, 18 de janeiro de 2015

Entrevista a William Faulkner (1897-1962)

 
"Como é que um escritor se torna um romancista sério?
Noventa e nove por cento de talento ... noventa e nove por cento de disciplina ...  noventa e nove por cento de trabalho. Nunca nos podemos dar por satisfeitos com aquilo que fazemos. Nunca nada é tão bom como aquilo de que somos capazes. É preciso sonhar e apontar sempre para mais alto do que aquilo que sabemos poder fazer. Não nos devemos preocupar a tentar ser melhores do que os nossos contemporâneos ou os nossos antecessores. Temos de tentar ser melhores do que nós próprios. Um artista é uma criatura conduzida por demónios. Não sabe porque é escolhida por eles e em geral está demasiado ocupada para se preocupar com isso. É completamente amoral, no sentido em que assalta, pede emprestado, mendiga ou rouba, seja quem for, para conseguir fazer o seu trabalho.
 
 
Então qual será o melhor ambiente para um escritor?
A arte também não se preocupa com o ambiente circundante; não lhe interessa onde está. Se está a referir-se a mim, o melhor emprego que já me ofereceram foi o de gerente de um bordel. Na minha opinião é o ambiente perfeito para um artista poder trabalhar. Dá-lhe a liberdade económica ideal; liberta-o do medo e da fome; ele tem um tecto sobre a cabeça e nada para fazer excepto manter em dia uma contabilidade simples e ir uma vez por mês fazer o pagamento à polícia. O lugar é tranquilo durante a manhã, que é o melhor momento do dia para trabalhar. Há bastante vida social ao fim do dia, se ele quiser participar nela, o que lhe permite não se aborrecer; dá-lhe um certo estatuto social; ele não tem nada para fazer porque a madame trata da escrita da casa; todos os habitantes da casa são mulheres e tratam-no com deferência, chamando-lhe «senhor». Todos os contrabandistas do bairro lhe chamam «senhor». E ele pode tratar os polícias pelo nome próprio.
Portanto, o único ambiente de que o artista precisa é um ambiente com tanta paz, tanto isolamento e tanto prazer quanto o que lhe for possível encontrar a um preço não demasiado alto. Aquilo que um ambiente errado lhe provocará é um aumento da tensão arterial; fá-lo-á perder mais tempo com frustrações e irritações. Por experiência própria percebi que aquilo de que preciso para o meu ofício é papel, tabaco, comida e um pouco de uísque."
 
 
Conversa com Jean Stein (1956)
"Entrevistas da Paris Review" - Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

"Shambhala - A misteriosa civilização tibetana"

"Qual é o segredo desta comunidade de cultura cósmica?
Bondade, respeito mútuo, um modo de vida razoável, planeamento cuidadoso, disciplina hierarquizada, abnegação e aspiração comuns em colaborar com a Mãe Natureza. Esta irmandade de eruditos interessa-se pela ciência, pela filosofia, pela religião, pela arte e pela música, e trabalha, no sentido mais largo, para o aperfeiçoamento cultural. Não é um paraíso de indolência, nem um sonolento Shangri-La. É um centro vital da humanidade que, no decorrer dos séculos, combatem a ignorância com coragem, sacrificando muitos dos seus membros mais nobres. Nunca foi escrita a autêntica história destes mártires da Verdade.
Num grupo que se funda na cooperação, na disciplina, no amor fraternal e num idealismo filosófico, se algumas divergências de opinião podem existir, não pode haver dissensões, porque Shambhala é sinónimo de harmonia."
 
Andrew Tomas  em "Shambhala - A misteriosa civilização tibetana"

Fred Hüning








 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Kalachakra, Ciência dos Bodhisattvas

"O ensino desta ciência hermética tem início ao mesmo tempo que a astronomia, a astrologia e o sânscrito. Para que se preserve o simbolismo, voluntariamente obscuro, da exposição escrita do sistema, cuja chave só pode ser dada por um Adepto, as verdadeiras lições de Kalachakra nunca foram tornadas públicas nem transcritas numa língua ocidental, mesmo sob forma criptográfica.
(...)
Todo este assunto do sistema kalachakriano está intimamente ligado ao problema do Reino de Shambhala, a região mística donde esse sistema foi transmitido à Índia, na segunda metade do século X, e ao problema da origem do ciclo sexagesimal tibetano.
(...)
Na literatura sagrada do Tibete, abundam as narrativas sobre a origem da Kalachakra. Todas as versões estão de acordo ao dizer que a doutrina, foi, em primeiro lugar, ensinada por Buda, depois da sua iluminação no grande stupa de Sri-Dhanyakataka, na província de Madrasta. Nessa época, Suchandra, rei de Shambhala, apareceu subitamente, escoltado por uma multidão de seres divinos.
(...)
Somanatha, um brâmane de Caxemira, introduziu a Kalachakra no Tibete no ano de 1026. Atribuem-lhe igualmente a difusão do sistema cronológico sexagesimal de doze animais e cinco elementos.
O facto de os ciclos sino-tibetanos de doze anos se fundarem cientificamente na revolução do planeta Júpiter em redor do Sol, que dura onze anos e trezentos e treze dias, apresenta um interesse especial. É profundamente significativo que o calendário tibetano comece o ano exactamente quando a Kalachakra foi introduzida no país (1026), o que marcou o princípio da chamada era de Rabjyong. Assim, por exemplo, o ano de 1975 corresponde ao ano 949 da cronologia do Tibete, o que sublinha a extraordinária importância da Kalachakra na cultura tibetana.
O décimo livro dos Anais Azuis, escrito por Gos Lotsaba Gzonnu dpal, entre 1476 e 1478, é inteiramente consagrado à propagação da Kalachakra no Tibete. Enquanto a própria doutrina é muito pouco conhecida, devido ao seu carácter esotérico, os trabalhos históricos, como os Anais Azuis, dão um resumo da composição dos princípios da Kalachakra.
O livro primeiro expõe àqueles que aspiram a ser budistas os elevados objectivos a atingir:

«Eu saúdo o que deve ser intuitivo, transcendental, inconcebível, o que é fonte de alegria para os homens sábios, para responder no meio de uma assembleia resplandecente, serena, manifestada a alguns pela roda da Doutrina da Iluminação Suprema, compreendida pelos iogas dotados da mais elevada serenidade, difícil de perceber, árdua de procurar, omnipotente e sem causas.»
 
O décimo livro dos Anais Azuis dá as seguintes instruções do mestre da Kalachakra ao discípulo: «Agora, tens de adoptar a mesma atitude que eu e ter o espírito livre de qualquer pensamento.» O antigo texto menciona duas fases de meditação: clareza e firmeza. Fala de correspondência entre o Sol, a Lua, as estrelas e os centros nervosos do corpo humano ou chakras. Um outro parágrafo diz que «a sabedoria é concedida àquele que é capaz de controlar a sua respiração» e faz alusão à «casa de Kundala, animada pelo Calor Interno» ou ao Rundalini, à base da espinha dorsal.
(...)
Não se devem identificar todos os actos mágicos com o sistema da Kalachakra, mas unicamente os fenómenos que sugerem a elevada espiritualidade do seu autor, ao usar uma força universal desconhecida do homem: o poder inteligente encerrado no centro do átomo, que os Adeptos só dominam através da sua unidade com a Mãe-Natureza. É esse o segredo da Kalachakra."
 
Andrew Tomas  em "Shambhala - A misteriosa civilização tibetana"

domingo, 4 de janeiro de 2015

Balanço Literário de 2014

 
2014 ... 48 livros lidos num total de 9897 páginas lidas!
 
Curiosidade: média de 206 páginas por livro!
 
 
 E os 10 livros que mais gostei de ler em 2014 foram:
 
  • "Antologia Mar" de Sophia de Mello Breyner Andresen
  • "A volta ao Dia em 80 Mundos" de Julio Cortázar
  • "As vinhas da ira" de John Steinbeck
  • "Correspondência Amorosa" de Rainer Maria Rilke & Lou Andreas-Salomé
  • "Fome" de Knut Hamsun
  • "Heliogabalo ou O Anarquista Coroado" de Antonin Artaud
  • "O Nadador" de Joakim Zander
  • "O Quarto Azul" de Georges Simenon
  • "Os Tempos Hipermodernos" de Gilles Lipovetsky & Sébastien Charles
  • "Ter e não ter" de Ernest Hemingway

Balanço Cinematográfico de 2014

Cinema ... o que mais gostei de ver em 2014:
  • "Ciúme" de Philippe Garrel
  • "Magia ao Luar" de Woody Allen
  • "Night Moves" de Kelly Reichardt
  • "Violette" de Martin Provost
 
 
 
Cinema@home ... o que mais gostei de (re)ver em 2014:
 
 "Amor" de Michael Hanek
"A Grande Beleza" de Paolo Sorrentino
"Fome" de Steve McQueen
"O Passado" de Asghar Farhadi

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Morango

"Cardápio organizado de múltiplas receitas, escolhidas sabiamente e sugeridas pelos inúmeros versos gastronómicos, onde se evocam ingredientes culinários ou mesmo pratos, triviais ou exóticos."





VÍCIO DO TEU DESERTO
 
"Vício de minha
evidência
morangos de sua cor
os frutos do teu
deserto
como animais de calor
 
ou cactos de tua
paz
 
ou rosas de teu
silêncio
 
ou cravos de teu
sorriso
 
ou girassóis de meus
seios
com raízes nos teus dedos."

Maria Teresa Horta, in "Minha Senhora de Mim"



 
 
 
Mousse de Morangos com Queijo Branco
 
Ingredientes:
 
  • 250 gr de morangos
  • 600 gr de coulis de morangos*
  • 500 gr de queijo branco
  • Sumo de 2 limões
  • 6 folhas de gelatina
  • 2 ovos
  • 100 gr de açúcar em pó
 
Preparação:
 
  • Demolha-se a gelatina e derrete-se no sumo dos limões.
  • Mistura-se o queijo, o açúcar, as gemas e a gelatina.
  • Acrescente 500 gr de coulis de morango, e incorpore tudo nas claras batidas em castelo.
  • Vai ao frigorífico mais ou menos 3 horas.
  • Desenforme, e enfeite com os morangos inteiros; polvilhe com açúcar em pó.
  • Sirva à parte o restante coulis.
 
* Xarope feito de fruta com açúcar em ponto, batido na varinha mágica e depois passado por um passador de rede fina.
 
 
 
"A Poesia é para Comer" - Selecção de poemas de Ana Vidal

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Os antigos mistérios

 
"Existe no Extremo Oriente uma crença antiga, e largamente difundida, numa galáxia de espíritos esclarecidos que vivem à parte nas regiões inacessíveis da Ásia.
(...)
Note-se o facto de que Pitágoras e Apolónio estiveram em contacto com um sistema muito velho de instrução iniciática conhecido sob o nome de Grandes Mistérios. Enquanto os Mistérios Menores eram simplesmente os cultos populares, os Grandes Mistérios eram reservados a um círculo restrito de espíritos cultos capazes de se elevarem acima do nível médio das massas.
(...)
No Egipto, na Grécia, na Babilónia ou na Índia, aquele que aspirasse à iniciação esperava revelações contemplando o infinito durante as noites consteladas de estrelas. Assim, Pitágoras encontrou as sete notas da escala e a «música das esferas», o sentido filosófico dos números e a forma redonda da Terra. De uma maneira idêntica, Platão descobriu que as ideias abstractas formavam, por si mesmas, um mundo invisível. A natureza eterna do universo foi revelada a Heraclito do Ponto. A maior parte da filosofia grega teve a sua origem nos Mistérios do Egipto. Pitágoras e Platão foram instruídos pelos Grandes Sacerdotes do vale do Nilo.
(...)
Os Mistérios usaram sempre uma linguagem hermética para salvaguardar os conhecimentos secretos.
(...)
Desde os tempos mais remotos existe um código internacional secreto de símbolos de uso comum dos iniciados, que dá a chave da significação dessas doutrinas secretas, símbolos que ainda são ciosamente guardados pelas confrarias religiosas da Índia, do Tibete, da China, da Mongólia e do Japão, diz um professor de Oxford, o doutor Evans-Wentz.
(...)
"A admissão aos Grandes Mistérios exigia complicadas cerimónias, chamadas iniciações. Através das obras dos autores clássicos, parece evidente que se manifestavam fenómenos extraordinários enquanto esses ritos se realizavam.
(...)
Os Mistérios receberam os maiores elogios de uma grande parte dos espíritos esclarecidos dos tempos antigos: Píndaro, Platão, Plutarco, Eurípides, Aristófanes, Cícero, Epicteto, Marco Aurélio e muitos outros. As narrativas desses grandes pensadores mostram o respeito que tinham pelos Mistérios. É uma verdade histórica que a grande ciência, o imenso saber e a alta filosofia das Escolas dos Mistérios Egípcios estimularam os homens mais eminentes da idade clássica.
Os mais difundidos desses Mistérios eram os de Ísis, de Orfeu, de Elêusis, de Ceres, de Mitra. As cerimónias de iniciação desenrolavam-se de noite, geralmente em grutas, labirintos ou pirâmides. O carácter cósmico e significativo dos Grandes Mistérios torna-se aparente, partindo da doutrina fundamental de que a Terra é para o homem, simplesmente, um lugar de exílio e de que o espaço sideral é a sua verdadeira morada.
Assim, uma associação de Homens Sábios, mundialmente disseminada, foi criada na aurora da civilização e conseguiu conservar a Antiga Sabedoria durante milhares de anos. Existia uma íntima relação entre a Ciência - especialmente a astronomia - e os Grandes Mistérios. Esta conclusão ressalta do simbolismo astronómico empregado nos Mistérios.
(...)
É evidente, através dos documentos históricos precedentes, que as Escolas do Mistério não só abriam os olhos para o Eu subliminar e elevavam o homem a um plano cósmico de consciência, como também lhe davam uma instrução científica e dados precisos sobre a história desconhecida da humanidade."

"Shambhala - A misteriosa civilização tibetana"  de Andrew Thomas

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Harley Weir








 

Laranja

"Cardápio organizado de múltiplas receitas, escolhidas sabiamente e sugeridas pelos inúmeros versos gastronómicos, onde se evocam ingredientes culinários ou mesmo pratos, triviais ou exóticos."




PARAÍSO
 
"Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do sol não me constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
 
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota ...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto ...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
 
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito ...
 
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso."
 
David Mourão-Ferreira in Obra Poética


 
 
 
Compota de Cebola com Vinho Tinto e Laranja
 
Ingredientes:
 
  • 3 colheres de sopa de óleo
  • 400 gr de cebolas finamente cortadas
  • 3,5 dl de bom vinho tinto
  • 6 dl de sumo de laranja
  • 1 colher de café de concentrado de tomate
  • 1 colher de sopa de mel
  • 2 grãos de cardamomo esmagados
  • Sal e pimenta q.b.
 
Preparação:
  • Aqueça o óleo numa frigideira que possa ir ao forno e junte-lhe a cebola, deixando cozer mais ou menos 10 minutos.
  • Entretanto, leve o vinho a ferver e flameje.
  • Deite-o, junto com o sumo das laranjas, sobre as cebolas, junte-lhe o cardamomo esmagado, o sal e a pimenta.
  • Tape e leve ao forno entre 60 a 90 minutos, até o vinho estar completamente absorvido. Junte-lhe o mel e deixe ferver entre 5 a 10 minutos.
  • Deixe arrefecer, e conserve em frascos no frigorífico.
 
"A Poesia é para Comer" - Selecção de poemas de Ana Vidal