sábado, 2 de maio de 2015

Casarão Antigo

"Macau de janelas verdes,
persianas de tábua delgada;
Macau de chão sobradado,
com barrotes metidos nas paredes
para susterem o solho;
Logradoiro onde se lava a roupa,
Terraço com chão de ladrilho,
lugar para se pôr a roupa ao sol.
 
Macau de casarão muito antigo
Coberto com telhas vermelhas,
paredes caiadas,
varandas vistosas.
 
Onde estás?
 
Macau de quintal com poço,
corda atada ao balde,
balde trazendo água para cima.
Pomar de árvores de fruto,
plantadas aqui, ali;
Porta traseira para a saída do lixo,
para a criada que vai ao mercado,
para a aguadeira de água potável
entrar e sair do domicílio."

José dos Santos Ferreira. "Poema na Língua Maquista." 1992

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Macau em Maio

"Tens a alma cheia de ipomeas
e de acácias rubras
e chagas de melancolia nos muros velhos.
 
Teus longos braços novos de betão e vidro
rompem a bruma matinal
por sobre os restos da antiga beleza."

Fernanda Dias. "Horas de Papel". 1992

quinta-feira, 30 de abril de 2015


Macau

"Vejo a cidade pela porta da baía
refulgindo na noite morna
sobre uma ilha de flores de lótus.
Num lago de espelho reflectem-se
as copas frondosas
dos guardiões de Nam Van,
com os cabelos soltos
em longas tranças que balançam
ao vento forte das monções.
 
Ao longe, as ilhas são
um dragão adormecido
sobre um leito de seda escura
que o nevoeiro cobre lentamente
com franjas de pérola rosa ...
 
No mar do Sul da China
Tchang Ku Tang amaciou o musgo
por onde passeiam as concubinas do céu
sulcando com o seu pincel de bambu
o rosto da montanha verde-jade.
 
A terra perfumou-se
com o aroma celestial da A-Má
e a poesia ficou para sempre
naquele lugar ..."
 
Jorge Arrimar. "Fonte do Lilau". 1990

quarta-feira, 29 de abril de 2015


"Eu estou cativo deste Oriente mágico
à espera de vento de feição
que me leve a outro porto, a outro rumo.
A navegação fez de mim prisioneiro de ventos,
de naus e de marés, e as minhas grilhetas
são invisíveis como os fios do destino
que me amarra aos cais da lonjura
como se fosse pecado querer voltar,
como se fosse vileza ter saudades."

José Jorge Letria, "Oriente da Mágoa", 1992

sábado, 25 de abril de 2015

"De manhã à noite brilha lá fora a luz sem se dar conta de que é luz.
As grandes árvores aspiram o silêncio e precisam de descobrir a essência inerente à floresta. As estepes desertas estendem-se indefinidamente de costas sem reflectir sobre a tristeza do seu vazio.
As areias movediças movem-se e não perguntam até quando
ou para quê ou para onde. Todas estas maravilhas são maravilhosas
mas não se maravilham. A lua vermelha que emerge,
semelhante a um olho exorbitado
que abrasa a escuridão do céu, não se surpreende com a sua desolação."

Amos Oz em "O Mesmo Mar"

domingo, 19 de abril de 2015

"Porque o sabor forte daquelas azeitonas longamente marinadas em azeite e dentes de alho, sal, limão, pimenta e folhas de louro, exala por vezes uma aragem do passado: barrancos de pedra, um rebanho, sombras e o som de uma flauta, um sopro melodioso do fundo dos tempos. A frescura de uma gruta, uma cabana escondida no fundo da vinha, um abrigo na horta, uma fatia de pão de cevada e água da fonte."

Amos Oz  em "O Mesmo Mar"

terça-feira, 7 de abril de 2015

"Em Abril de 1934, oito anos depois da morte de Rilke, Lou Andreas-Salomé escreve um apêndice à sua autobiografia, que é uma última «carta» de amor dirigida a Rilke.

Abril o nosso mês, Rainer, o mês anterior àquele que nos uniu. Quantas vezes Abril me faz, e não certamente por acaso, pensar em ti. Porque em Abril se encontram contidas as quatro estações, com as suas horas de uma atmosfera de neve e quase de Inverno, ao lado de outras horas de um esplendor escaldante, e de outras ainda de tempestades quase de Outono, semeando o chão húmido não de folhas desmaiadas, mas de invólucros de flores em botão - e não é verdade que nesse chão habita, a qualquer hora, a Primavera, que reconhecemos antes ainda de qualquer primeiro olhar? Daí o silêncio e a naturalidade que nos uniram, como algo que tivesse existido sempre."

"Correspondência Amorosa" de Rainer Maria Rilke & Lou Andreas-Salomé

segunda-feira, 23 de março de 2015

Eu era um poeta

"Eu era um poeta inspirado pela filosofia, não um filósofo com faculdades poéticas. Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível e através do muito pequeno a alma poética do universo.
A poesia da Terra nunca está morta.
Há poesia em tudo - na terra e no mar, nos lagos e margens dos rios. Também a há na cidade - não o neguem - é evidente para mim aqui onde me sento: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas ruas, em cada movimento ínfimo, trivial, ridículo de um operário que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho.
O meu sentido interno predomina de tal modo sobre os meus cinco sentidos que vejo as coisas desta vida - estou convencido disso - de modo diferente dos outros homens. Existe - existia - para mim um significado riquíssimo em algo tão ridículo como a chave de uma porta, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há, para mim, toda uma plenitude de sugestão espiritual numa galinha com os seus pintos a atravessarem a estrada com ar pimpão. Há para mim um significado mais profundo do que os medos humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas deitadas num monturo, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rodopiam e se perseguem pela rua abaixo.
Pois a poesia é assombro, admiração, como de um ser caído dos céus que toma plena consciência da sua queda, espantado com o que vê. Como alguém que conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por recordar esse conhecimento, lembrando-se que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas não se lembrando de mais nada."

Fernando Pessoa  em "Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal"

Retratos de um velho pincel de tinta










 
Visto aqui ! :)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Da poética das montanhas

"Considero que os maiores objectos da Natureza são os mais agradáveis de se olhar e, depois, a ampla abóbada do céu e as ilimitadas regiões povoadas pelas estrelas; não há nada que eu contemple com tanto prazer quanto o vasto mar e as montanhas. Há qualquer coisa de augusto e de majestoso no seu aspecto, algo que inspira à mente grandes pensamentos e paixões. Nessas circunstâncias, o pensamento eleva-se naturalmente para Deus e para a Sua grandeza e para tudo o que tenha, nem que seja apenas, a sombra ou a aparência do INFINITO, como têm todas as coisas que excedem a compreensão, enchem e dominam com o seu excesso a mente, projectando-a numa espécie de agradável espanto e admiração."
 
Thomas Burnet  em "Telluris theoria sacra, IX, 1681