segunda-feira, 10 de agosto de 2015
A Criação do Mundo
"Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas - um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.
Abriu-as devagar e deixou cair as trevas como sementes,
para que então servissem unicamente de sombras
e prolongassem a memória das coisas por vir. Foi assim
que inventou a luz e separou um dia do seguinte.
Depois afastou o céu daquilo que viria a ser o mar,
como quem divide um lenço azul em dois e limpa
as lágrimas apenas a metade. No meio, deixou que
crescesse tudo quanto do chão quisesse escapar-se
para traçar a primeira geografia dos caminhos. E assim
descobriu a cor e encheu a sua paleta de animais
que rasgariam os céus, cruzariam os oceanos e
revolveriam as entranhas da terra na estação
das chuvas. Por fim, semeou pequenas clareiras
nas florestas, pedras nas vertentes das cordilheiras,
cristais de neve no contorno dos lagos, estrelas cadentes
na vizinhança do desespero e rios serpenteantes
entre as searas louras, mordidas por um sol que lhe caiu
quase sem querer dos dedos, mas lhes aproveitou o calor.
E, apesar da alegria que experimentou, sentiu que o seu
mundo era tão frágil que, se desviasse os olhos, tudo acabaria
por regressar ao pó, às trevas e ao verbo. Só por isso criou alguém
que também o visse e lhe dissesse todos os dias como era belo."
Maria do Rosário Pedreira em "O Canto do Vento nos Ciprestes"
Maria do Rosário Pedreira em "O Canto do Vento nos Ciprestes"
quarta-feira, 29 de julho de 2015
"Não voltei a esse corpo; e não sei
se aqueles que o vestiram antes e depois
de mim souberam nele o verdadeiro calor
se aqueles que o vestiram antes e depois
de mim souberam nele o verdadeiro calor
e lhe conheceram os perigos, os labirintos,
as pequenas feridas escondidas. Não voltarei
provavelmente a sentir a respiração
palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas
rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito,
também, às vezes.
também, às vezes.
Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia,
o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.
E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me
recolheu,
porque os cheiros tornam os lugares parecidos, confundíveis.
Quando a manhã me deixar de novo sozinha no meu quarto
trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos."
Maria do Rosário Pedreira em "A Casa e o Cheiro dos Livros"
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Ilha dos Abençoados
"Ilha dos Abençoados, com cerca de 800 quilómetros de comprimento, no Oceano Atlântico. Terra de um povo que se veste de cor púrpura com belas teias de aranha.
(...)
A ilha é comprida e plana, governada por Radamantus, natural de Creta. A capital da ilha, também chamada Abençoada, foi construída em ouro com muralhas de esmeralda. Tem sete portas fabricadas a partir de uma única peça de canela, e as estradas que atravessam a cidade são de marfim. Há templos a todo o tipo de deuses, feitos de berilo e contendo altares elevados de ametista (...). Em torno da cidade corre um rio de um perfume requintado, com 15 metros de profundidade e facilmente navegável, sete rios de leite e oito de vinho, e há fontes de água, mel e perfume. Os banhos públicos da cidade são grandes edifícios de cristal, aquecidos com canela; as banheiras contêm água e orvalho quente.
Os viajantes não encontrarão na Ilha dos Abençoados a escuridão da noite ou a luz do dia a que estão habituados. A ilha está permanentemente imersa na penumbra, como se o sol ainda não tivesse nascido. Aqui é sempre Primavera e só sopra um vento, o zéfiro. O país é rico em todo o tipo de flores e todo o tipo de plantas; as videiras produzem cachos de uvas 12 vezes por ano; as macieiras, as romãzeiras e outras árvores dão frutos 13 vezes por ano, porque no mês de Minossa produzem duas vezes. O trigo produz não só feixes já prontos, mas também belíssimos pães, que crescem nas extremidades da planta como cogumelos."
Luciano de Samósata, História Verdadeira, séc II
Luciano de Samósata, História Verdadeira, séc II
sábado, 25 de julho de 2015
Nómada
"Sentou-se no porto e abriu aos que o escutavam
o seu livro de viagens.
Conhecera as montanhas geladas do norte e atravessara de noite
brancas e densas florestas, acossado pelos ursos. Cruzara
cidades luminosas onde as mulheres tinham cabelos louros,
mas ninguém falava a sua língua; e deixara-se arrastar
o seu livro de viagens.
Conhecera as montanhas geladas do norte e atravessara de noite
brancas e densas florestas, acossado pelos ursos. Cruzara
cidades luminosas onde as mulheres tinham cabelos louros,
mas ninguém falava a sua língua; e deixara-se arrastar
pelos ventos até às praias quentes do sul onde ganhou
pele morena e olhos verdes. Depois
instalou-se provisoriamente nas ruínas de um continente velho
onde foi monge, amante, homem letrado, e ensinou às raparigas
de um claustro branco os rudimentos da leitura. E, por fim,
partiu para um dos derradeiros lugares do mundo,
onde o tomaram pelo último marinheiro e o perseguiram.
Perdera deus no seu caminho e voltara atrás.
Havia, enquanto recordava, uma pequena ferida na sua voz:
em nenhum lugar achara ainda o nome da sua casa."
Maria do Rosário Pedreira em "A Casa e o Cheiro dos Livros"
Maria do Rosário Pedreira em "A Casa e o Cheiro dos Livros"
domingo, 19 de julho de 2015
sábado, 18 de julho de 2015
Heaven is closer than you think
"Heaven is closer than you think" ... uma selecção de fotografias tiradas por Amy Harrity na sua mais recente viagem à Grécia!
"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe.
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única central realidade que não está em nenhum e está em todos.
Como o panteísta se sente onda e astro e flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, individuado por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."
Fernando Pessoa em "Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal"
sexta-feira, 3 de julho de 2015
"Por que é que hás-de pensar que a beleza, que é a coisa mais preciosa do mundo, está por aí, como um seixo na praia, placidamente à espera que algum passante descuidado a apanhe? A beleza é algo de maravilhoso e estranho que o artista molda a partir do caos universal com a sua alma atormentada. E, quando a cria, nem a todos é dado conhecê-la. Para a reconhecermos é preciso repetir a aventura do artista. É uma melodia que ele nos entoa, e, para a ouvirmos outra vez no nosso coração, são precisos conhecimentos, sensibilidade e imaginação."
Somerset Maugham em "A Lua e Cinco Tostões"
domingo, 21 de junho de 2015
Sukhavati Raw Desserts Plant
Stephen McCarty é um chef americano especialista na transformação de ingredientes orgânicos em verdadeiras obras de arte veganas, decoradas com as mais belas mandalas.
A ideia surgiu após ter começado a praticar meditação, sendo que o conceito dos seus bolos tem como intuito levar-nos a reflectir sobre a beleza e impermanência da vida.
Com o aperfeiçoamento dos bolos e das mandalas criou o negócio Sukhavati Raw Desserts Plant.
As cores utilizadas por McCarty são feitas a partir de extractos vegetais e frutas naturais. Com simetria perfeita, encontramos sabores como chocolate branco com frutas silvestres, morango com rosas e cacau ou limão com lavanda e mirtilo.
"O conceito de impermanência não é inerentemente positivo ou negativo, mas simplesmente uma parte do processo de composição das coisas. Habitualmente apreciamos apenas metade do ciclo da impermanência. Podemos aceitar o nascimento mas não a morte, o ganho mas não a perda ou o fim dos exames mas não o início. A verdadeira libertação vem de apreciarmos todo o ciclo e não nos agarrarmos àquelas coisas que achamos agradáveis. Recordando a mutabilidade e impermanência de causas e condições, quer positivas quer negativas, podemos usá-las para nosso proveito. Riqueza, saúde, paz e fama são exactamente tão temporárias como os seus opostos."
Dzongsar Jamyang Khyentse em "O que não faz de ti um budista"
Dzongsar Jamyang Khyentse em "O que não faz de ti um budista"
quarta-feira, 17 de junho de 2015
sábado, 13 de junho de 2015
Via Láctea na Primavera
(Clique na imagem para ampliar)
“Com a chegada da Primavera, a Via Láctea começa a ser visível nos céus de Portugal de madrugada, nesta imagem, captada em Monsaraz, na Reserva Dark Sky Alqueva, é possível observá-la em pleno, graças a este mosaico de 21 imagens que permite um grande campo de visão, revelando este “braço” da nossa galáxia acima do Convento da Orada (datado de 1670). Logo ao centro e à direita das palmeiras, a Lua brilha intensamente, não interferindo no gigante arco da Via Láctea onde é possível distinguir constelações como a Ursa Menor, com a estrela polar à esquerda da imagem, até ao Cisne, com a sua nebulosa Norte da América NGC7000 bem visível, descendo mais à direita, encontramos ainda as constelações de sagitário e escorpião, com a brilhante estrelas super gigante, Antares.”
Texto e fotografias de Miguel Claro
Texto e fotografias de Miguel Claro
sábado, 6 de junho de 2015
A Luta pela Terra
"Existem dezenas de milhares de famílias brasileiras que vivem em acampamentos à beira das estradas em vários pontos do país. São famílias de sem-terra que aos poucos vão-se juntando e formando verdadeiras cidades, às vezes com uma população de mais de 10 mil habitantes.
As condições de vida são as mais rudimentares; falta tudo: água, alimentação, instalações sanitárias, escola para as crianças, assistência médica, etc. Além disso, essas pessoas vivem em grande insegurança, sujeitas às provocações e violências por parte dos jagunços e outras forças de repressão organizadas pelos latifundiários, que temem a ocupação de suas propriedades improdutivas. A situação nessas "cidades" é de facto pior que a dos campos de refugiados na África, pois os sem-terra não contam com a protecção das autoridades, não recebem assistência institucional e nenhuma organização humanitária ou a Organização das Nações Unidas lhes presta socorro.
Seja como for, os deserdados da terra alimentam a esperança de melhores dias. E uma coisa é certa: não querem mais fugir para as cidades, que já não podem absorvê-los, dar-lhes trabalho e condições dignas de vida. Preferem, pois, resguardando-se das ameaças da delinquência e da prostituição dos grandes centros urbanos, permanecer nos acampamentos à margem das estradas e esperar pela oportunidade de ocupar a terra tão sonhada, mesmo correndo risco de vida. Seus projectos são idênticos: lavrar um pedaço de terra finalmente seu, construir uma casa para a família, assegurar o sustento desta e, por meio da cooperativa a ser criada, comercializar os excedentes de sua produção agrícola, garantindo a manutenção de escola para os filhos. É esse, em síntese, o sonho comum dos sem-terra."
"Terra" de Sebastião Salgado
"Terra" de Sebastião Salgado
Brejo da Cruz
"A novidade
que tem no Brejo da Cruz
é a criançada
se alimentar de luz
Alucinados
meninos ficando azuis
e desencarnando
lá no Brejo da Cruz
Eletrizados
cruzam os céus do Brasil
na rodoviária
assumem formas mil
Uns vendem fumo
tem uns que viram Jesus
muito sanfoneiro
cego tocando blues
Uns têm saudade
e dançam maracatus
uns atiram pedra
outros passeiam nus
Mas há milhões desses seres
que se disfarçam tão bem
que ninguém pergunta
de onde essa gente vem
São jardineiros
guardas-noturnos, casais
são passageiros
bombeiros e babás
Já nem se lembram
que existe um Brejo da Cruz
que eram crianças
e que comiam luz
São faxineiros
balançam nas construções
são bilheteiras
baleiros e garçons
Já nem se lembram
que existe um Brejo da Cruz
que eram crianças
e que comiam luz."
Chico Buarque
Fotografia de Sebastião Salgado em "Terra"
Chico Buarque
Fotografia de Sebastião Salgado em "Terra"
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