quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Ausência

"Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
 
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Mar Novo"

domingo, 13 de setembro de 2015

Mongolian Book of Astrology, 19th century


Fernando Pessoa

"Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo
 
Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas."
 
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Livro Sexto"

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

"Não me custa deitar tarde, o que me custa é não levantar cedo. Perder a manhã, desperdiçar um terço do dia, faltar ao encontro com o sol. Tem que ver com a índole, mas também com uma noção da existência que vê a vida como uma ampulheta - mas das que não se podem virar do avesso. A areia só passa uma vez."
 
Gonçalo Cadilhe em "Encontros Marcados"

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Personificações femininas da astronomia e geografia

 
Personificações femininas da astronomia e geografia, de Leonardus Valck
Amesterdão, 1706-30 (The Rijksmuseum, Amsterdam).

"Eu e a minha mulher tínhamos visitado Miss Stein e tanto ela como a amiga com quem vivia se tinham mostrado extremamente cordiais e afetuosas. Apreciáramos devidamente o grande estúdio povoado de grandes quadros. Aquilo era como estar numa das melhores salas de um dos mais belos museus, com a seguinte diferença porém: é que ali, além de desfrutarmos de uma vasta lareira que irradiava calor, proporcionando conforto, ofereciam-nos boas coisas de comer, chá e licores de destilação natural, feitos de ameixas escuras, de ameixas amarelas e de amoras silvestres. Essas bebidas, perfumadas e incolores, guardadas em garrafas de vidro lapidado, eram-nos servidas em cálices e, quer fossem de quetsche, de ameixazinhas amarelas ou de framboesas, todas elas sabiam aos frutos de que provinham, e, convertendo-se em fogo concentrado na nossa língua, aqueciam-nos e tornavam-nos comunicativos."
 
"Paris é uma Festa" de Ernest Hemingway

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Core Yoga para a corrida


Excelente sequência de Core Yoga para as corridas! :)
"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
 
A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
 
A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas."
 
Sophia de Mello Breyner  em "Poesia"

domingo, 16 de agosto de 2015

De regresso às corridas! :)))



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Portugal Night Skies


"Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses
 
tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.
 
Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo
 
dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos."
 
Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Paperholm


 
Paperholm ... projecto de Charles Young que consiste numa ideia simples: "construção" de uma estrutura de papel por dia durante um ano!
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O Jardim e a Casa

"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."
 
Sophia de Mello Breyner  em "Poesia"

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

"Book of Astrology", Nepal, 14th-16th century. (LACMA Collections)


A Criação do Mundo

"Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas - um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.
 
Abriu-as devagar e deixou cair as trevas como sementes,
para que então servissem unicamente de sombras
e prolongassem a memória das coisas por vir. Foi assim
que inventou a luz e separou um dia do seguinte.
 
Depois afastou o céu daquilo que viria a ser o mar,
como quem divide um lenço azul em dois e limpa
as lágrimas apenas a metade. No meio, deixou que
crescesse tudo quanto do chão quisesse escapar-se
para traçar a primeira geografia dos caminhos. E assim
 
descobriu a cor e encheu a sua paleta de animais
que rasgariam os céus, cruzariam os oceanos e
revolveriam as entranhas da terra na estação
das chuvas. Por fim, semeou pequenas clareiras
 
nas florestas, pedras nas vertentes das cordilheiras,
cristais de neve no contorno dos lagos, estrelas cadentes
na vizinhança do desespero e rios serpenteantes
entre as searas louras, mordidas por um sol que lhe caiu
quase sem querer dos dedos, mas lhes aproveitou o calor.
 
E, apesar da alegria que experimentou, sentiu que o seu
mundo era tão frágil que, se desviasse os olhos, tudo acabaria
por regressar ao pó, às trevas e ao verbo. Só por isso criou alguém
que também o visse e lhe dissesse todos os dias como era belo."

Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"