domingo, 20 de setembro de 2015

Arte Poética II

"A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida."

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Artes Poéticas"

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Peanut Oak




 
"Envie mensagens inspiradoras aos que mais gosta, dê cor à sua casa, passeie-se com uma capa para o telemóvel de fazer inveja ou faça da sua T-shirt uma peça única."

Conheça
aqui o trabalho desta criativa designer portuguesa, Patrícia Salazar Pino! :)

Ausência

"Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
 
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Mar Novo"

domingo, 13 de setembro de 2015

Mongolian Book of Astrology, 19th century


Fernando Pessoa

"Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo
 
Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas."
 
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Livro Sexto"

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

"Não me custa deitar tarde, o que me custa é não levantar cedo. Perder a manhã, desperdiçar um terço do dia, faltar ao encontro com o sol. Tem que ver com a índole, mas também com uma noção da existência que vê a vida como uma ampulheta - mas das que não se podem virar do avesso. A areia só passa uma vez."
 
Gonçalo Cadilhe em "Encontros Marcados"

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Personificações femininas da astronomia e geografia

 
Personificações femininas da astronomia e geografia, de Leonardus Valck
Amesterdão, 1706-30 (The Rijksmuseum, Amsterdam).

"Eu e a minha mulher tínhamos visitado Miss Stein e tanto ela como a amiga com quem vivia se tinham mostrado extremamente cordiais e afetuosas. Apreciáramos devidamente o grande estúdio povoado de grandes quadros. Aquilo era como estar numa das melhores salas de um dos mais belos museus, com a seguinte diferença porém: é que ali, além de desfrutarmos de uma vasta lareira que irradiava calor, proporcionando conforto, ofereciam-nos boas coisas de comer, chá e licores de destilação natural, feitos de ameixas escuras, de ameixas amarelas e de amoras silvestres. Essas bebidas, perfumadas e incolores, guardadas em garrafas de vidro lapidado, eram-nos servidas em cálices e, quer fossem de quetsche, de ameixazinhas amarelas ou de framboesas, todas elas sabiam aos frutos de que provinham, e, convertendo-se em fogo concentrado na nossa língua, aqueciam-nos e tornavam-nos comunicativos."
 
"Paris é uma Festa" de Ernest Hemingway

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Core Yoga para a corrida


Excelente sequência de Core Yoga para as corridas! :)
"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
 
A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
 
A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas."
 
Sophia de Mello Breyner  em "Poesia"

domingo, 16 de agosto de 2015

De regresso às corridas! :)))



Inscreva-se também aqui! :)

Portugal Night Skies


"Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses
 
tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.
 
Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo
 
dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos."
 
Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Paperholm


 
Paperholm ... projecto de Charles Young que consiste numa ideia simples: "construção" de uma estrutura de papel por dia durante um ano!
Pesquise mais
aqui!

O Jardim e a Casa

"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."
 
Sophia de Mello Breyner  em "Poesia"