sábado, 5 de março de 2016

Moon, from the series "Astronomical observations" by Donato Creti, 1711

O Círculo de Giz Caucasiano

"Qualquer poema abre um círculo
à sua volta.
Podemos ser-lhe indiferentes:
estamos então para além do círculo.
Ou pode o poema, de algum modo
(até por irritação),
chamar por nós.
Neste caso, enredamo-nos no círculo:
saltar ou não?
Passar para dentro do poema,
ficar de lado
ou entrar nesse lugar feito de coisa nenhuma
de onde vêm todos os poemas?"

Luís Filipe Castro Mendes  em "A Misericórdia dos Mercados"

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Dentro da Vida

"Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
 
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer."

Gastão Cruz  em "A Moeda do Tempo"
"Há momentos em que somos obrigados a conviver com pessoas de natureza tão distinta da nossa que bastam cinco minutos de contacto para percebermos que, cedo ou tarde, os diques que sustêm a hostilidade latente acabarão por ceder e quanto mais pressão pusermos sobre eles maior será a catástrofe. A questão que nos colocamos é a de saber se o ideal é passar de imediato para a fase de conflito declarado ou aguardar diplomaticamente que, como dizem alguns entendidos nas matérias, as coisas sigam ao seu ritmo, na vã esperança de que uma relação franca e honesta, ainda que difícil, seja possível. A diplomacia, sabe quem já esteve na guerra, é um exercício de grande violência interior."

Bruno Vieira Amaral  em "As primeiras coisas"

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Mistério da Poesia

"Como o pai do poeta Yeats dizia,
misticismo é um meio para a poesia.
Porque insistir então em conceber
a poesia como atalho para o Ser?"

Luís Filipe Castro Mendes

Do Nepal ao Tibete: a viagem de todos os sonhos

"Patan ou Bhaktapur, nem sempre nos mostra as cidades verdadeiras daquele vale - mas tem a ver com a nossa mitologia. A mesma que leva o personagem de O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, a percorrer os caminhos da neve e das montanhas para se reencontrar consigo mesmo, descobrindo noutro lugar (aí, no Oriente) aquilo que perdeu entre nós.
Somos distraídos, os ocidentais, os europeus, os que vivem longe de Katmandu, mesmo se não precisamos de ir a Katmandu para descobrir o que se encontra em Katmandu, como concluíram os que fizeram essa peregrinação. Katmandu, com a sua altitude, a sua cor, além dos seus sons e, sobretudo, da sua aparente inacessibilidade, é uma metáfora perfeita para o espírito da viagem.
Todas as viagens podiam ser encaradas como uma visita a Katmandu, uma reaprendizagem de todas as culturas e a demonstração da nossa disponibilidade para conhecer aquilo que é o nosso contrário, o que nos é mais diferente e mais provocatório. Hoje, não nos basta que o mundo seja conhecido. Precisamos de experimentá-lo, de encontrar as vozes que vêm do fundo do deserto e do interior das montanhas, do labirinto das cidades e das suas casas.
Deve existir, algures entre os restos da neve dos altíssimos trilhos das montanhas mais altas da Terra, um mistério guardado para as gerações que hão-de vir, ou que hão-de nascer - esse segredo é o da resistência do Tibete. Antigamente, falava-se do «povo das alturas», habituado à contemplação e ao silêncio, a admirar a beleza intacta das ravinas e das estradas de pó que confinam com os lagos azul-turquesa ou que correm ao longo dos rios que nascem no Tibete (entre eles o Yang-Tsé, o Amarelo, o Brahmaputra ou o Ganges, que percorrem os caminhos da liberdade e se expandem para lá das suas fronteiras naturais).
Montanhas sagradas, rios sagrados, pássaros que desenham riscos brancos no céu, cores dos vestidos sacudidos pelo vento, dos animais que resistem às intempéries, às estações frias do tempo.
Deve existir um segredo que explique a nossa necessidade de paz, ou de contemplação, ou de isolamento, ou de serenidade, como uma música soprada do coração da terra e das coisas elementares. Deve existir um segredo, um antigo mistério que explique a capacidade de sobrevivência do Tibete (e do seu exílio) e o facto de o sagrado se estender sobre o mapa da terra e estar aqui mais ao alcance da mão do que em qualquer outro lugar."

Francisco José Viegas e Manuel Gomes da Costa  em "Tão Longe Quanto os Homens"

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Folhagem sobre os pés ou sob os pés,
raízes que me cortam a busca
de um corpo que deve estar por perto
a fazer coincidir o céu azul
com a vontade de ter ar para si,
e cinza, e um olhar de amor.
Um peso que não se arrasta, voz
sem tempo nenhum, vem pé
ante pé sobre mim e sobre o livro
que deixou de ter palavras
mal caiu no meio do ar o desejo
de esvoaçar no meio da tarde."

Hélder Moura Pereira  em "Uma Ideia da Coisa"

domingo, 24 de janeiro de 2016

Nevoeiro

"O nevoeiro é a cinza que do alto
cai sobre a terra a atenuar-lhe a cor.
Pó-de-arroz da cidade, que ao sol-pôr,
lembra poeira de oiro no asfalto.
 
O nevoeiro cai sem sobressalto
como lágrima tímida, incolor,
e empresta à voz da rua outro sabor,
dá-lhe cadências graves de contralto.
 
Ao pôr do sol o nevoeiro é espuma,
é volúpia, mistério, lenda, bruma
tão leve como franja de retrós ...
 
Nos candeeiros murcha a claridade ...
A alma da neblina é uma saudade
que vive, oculta, em cada um de nós."

Fernanda de Castro  em "Cidade em Flor"

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Meditação

"Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do poente.

Não quero a luz acesa. Na penumbra
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!
 
Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento,
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.
 
Procuro então aniquilar em mim
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim
Reconheço que amar-te é minha sina.
 
Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta,
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.
 
Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas.
Adivinhas. Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.
 
No entanto - vê lá tu! - eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha ...
Nem me revolto ... cedo ao encantamento ...
Escrava que não soube ser rainha!"

Fernanda de Castro em "Danças de Roda"

sábado, 2 de janeiro de 2016

"Kajurao é o lugar mais belo da Índia, talvez o único lugar que possamos dizer realmente belo, no sentido «ocidental» da palavra. Um imenso relvado-jardim ao gosto inglês, verde, de um viço pungente, com buganvílias esparsas em grandes maciços redondos, diante dos quais os olhos poderiam ficar esquecidos, gozando aquele vermelho paradisíaco durante horas a fio. Filas de raparigas, com os seus sari, muito enfeitadas, tratavam da relva; e, mais adiante fileiras de crianças, sentadas na relva, enquanto, mais longe ainda, jovens que carregavam, pendurados da extremidade de uma vara, baldes cheios de água: tudo isto, numa paz de Primavera infinita. E espalhados pela relva, os pequenos templos, que são tudo o que de mais sublime se pode ver na Índia."

Pier Paolo Pasolini  em "O Cheiro da Índia"

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Balanço Literário de 2015

2015 ... 38 livros lidos num total de 8330 páginas lidas!

Curiosidade: média de 219 páginas por livro!



E os 10 livros que mais gostei de ler em 2015 foram:
 
  • "A Cidade do Sol" de Tomás Campanella
  • "A Harpa de Ervas" de Truman Capote
  • "A Lua e Cinco Tostões" de Somerset Maugham
  • "Encontros Marcados" de Gonçalo Cadilhe
  • "Entrevistas da Paris Review" - Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques
  • "Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal" de Fernando Pessoa
  • "História da Beleza" - Direcção de Umberto Eco
  • "Obra Poética" de Sophia de Mello Breyner Andresen
  • "Saúde Perfeita" de Deepak Chopra
  • "Shambhala - A misteriosa civilização tibetana" de Andrew Tomas

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

"Come walk with me
Along the sea
Where dusk sits on the land
And search with me
For shells are free,

And treasures hide in sand."

 
Author unknown