domingo, 27 de março de 2016
domingo, 20 de março de 2016
terça-feira, 8 de março de 2016
A Caligrafia das Aves
"As aves marcam o relevo da maré
e a estenografia das horas
Mudam de estação como de idioma
e ondulam pela areia de uma seara
e a estenografia das horas
Mudam de estação como de idioma
e ondulam pela areia de uma seara
Emergem de vírgulas interiores
e anunciam uma ortografia madura
entre as linhas de continentes decalcados
a tinta impermanente
Têm uma caligrafia acidental em frente ao mar
e uma forma nasalada de dizer
meu pé, minha mãe, meu pão
Escrevem uma carta com sotaque de despedida,
uma interrogação quando podia ser a travessia."
Tiago Patrício em "O Livro das Aves"
Viagem
"Se já atingiste o conhecimento não o deixes transparecer
apreende o mundo de novo como um filósofo ioniano
prova o sabor da água e do fogo do ar e da terra
porque só eles permanecerão quando tudo tiver passado
e a viagem permanecerá embora já não seja a tua."
Zbigniew Herbert em "Escolhido pelas Estrelas"
Zbigniew Herbert em "Escolhido pelas Estrelas"
segunda-feira, 7 de março de 2016
O Encontro
"Há um encontro que julgas ter perdido,
mas ninguém te esperava e tu não sabias!"
Luís Filipe Castro Mendes em "A Misericórdia dos Mercados"
mas ninguém te esperava e tu não sabias!"
Luís Filipe Castro Mendes em "A Misericórdia dos Mercados"
sábado, 5 de março de 2016
O Círculo de Giz Caucasiano
"Qualquer poema abre um círculo
à sua volta.
Podemos ser-lhe indiferentes:
Podemos ser-lhe indiferentes:
estamos então para além do círculo.
Ou pode o poema, de algum modo
Ou pode o poema, de algum modo
(até por irritação),
chamar por nós.
Neste caso, enredamo-nos no círculo:
Neste caso, enredamo-nos no círculo:
saltar ou não?
Passar para dentro do poema,
Passar para dentro do poema,
ficar de lado
ou entrar nesse lugar feito de coisa nenhuma
de onde vêm todos os poemas?"
Luís Filipe Castro Mendes em "A Misericórdia dos Mercados"
Luís Filipe Castro Mendes em "A Misericórdia dos Mercados"
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Dentro da Vida
"Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?
Porque ninguém nos salva de não ser
Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer."
Gastão Cruz em "A Moeda do Tempo"
Gastão Cruz em "A Moeda do Tempo"

Bruno Vieira Amaral em "As primeiras coisas"
domingo, 7 de fevereiro de 2016
O Mistério da Poesia
"Como o pai do poeta Yeats dizia,
misticismo é um meio para a poesia.
misticismo é um meio para a poesia.
Porque insistir então em conceber
a poesia como atalho para o Ser?"
Luís Filipe Castro Mendes
Luís Filipe Castro Mendes
Do Nepal ao Tibete: a viagem de todos os sonhos
"Patan ou Bhaktapur, nem sempre nos mostra as cidades verdadeiras daquele vale - mas tem a ver com a nossa mitologia. A mesma que leva o personagem de O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, a percorrer os caminhos da neve e das montanhas para se reencontrar consigo mesmo, descobrindo noutro lugar (aí, no Oriente) aquilo que perdeu entre nós.
Somos distraídos, os ocidentais, os europeus, os que vivem longe de Katmandu, mesmo se não precisamos de ir a Katmandu para descobrir o que se encontra em Katmandu, como concluíram os que fizeram essa peregrinação. Katmandu, com a sua altitude, a sua cor, além dos seus sons e, sobretudo, da sua aparente inacessibilidade, é uma metáfora perfeita para o espírito da viagem.
Somos distraídos, os ocidentais, os europeus, os que vivem longe de Katmandu, mesmo se não precisamos de ir a Katmandu para descobrir o que se encontra em Katmandu, como concluíram os que fizeram essa peregrinação. Katmandu, com a sua altitude, a sua cor, além dos seus sons e, sobretudo, da sua aparente inacessibilidade, é uma metáfora perfeita para o espírito da viagem.
Todas as viagens podiam ser encaradas como uma visita a Katmandu, uma reaprendizagem de todas as culturas e a demonstração da nossa disponibilidade para conhecer aquilo que é o nosso contrário, o que nos é mais diferente e mais provocatório. Hoje, não nos basta que o mundo seja conhecido. Precisamos de experimentá-lo, de encontrar as vozes que vêm do fundo do deserto e do interior das montanhas, do labirinto das cidades e das suas casas.
Deve existir, algures entre os restos da neve dos altíssimos trilhos das montanhas mais altas da Terra, um mistério guardado para as gerações que hão-de vir, ou que hão-de nascer - esse segredo é o da resistência do Tibete. Antigamente, falava-se do «povo das alturas», habituado à contemplação e ao silêncio, a admirar a beleza intacta das ravinas e das estradas de pó que confinam com os lagos azul-turquesa ou que correm ao longo dos rios que nascem no Tibete (entre eles o Yang-Tsé, o Amarelo, o Brahmaputra ou o Ganges, que percorrem os caminhos da liberdade e se expandem para lá das suas fronteiras naturais).
Montanhas sagradas, rios sagrados, pássaros que desenham riscos brancos no céu, cores dos vestidos sacudidos pelo vento, dos animais que resistem às intempéries, às estações frias do tempo.
Deve existir um segredo que explique a nossa necessidade de paz, ou de contemplação, ou de isolamento, ou de serenidade, como uma música soprada do coração da terra e das coisas elementares. Deve existir um segredo, um antigo mistério que explique a capacidade de sobrevivência do Tibete (e do seu exílio) e o facto de o sagrado se estender sobre o mapa da terra e estar aqui mais ao alcance da mão do que em qualquer outro lugar."
Francisco José Viegas e Manuel Gomes da Costa em "Tão Longe Quanto os Homens"
Montanhas sagradas, rios sagrados, pássaros que desenham riscos brancos no céu, cores dos vestidos sacudidos pelo vento, dos animais que resistem às intempéries, às estações frias do tempo.
Deve existir um segredo que explique a nossa necessidade de paz, ou de contemplação, ou de isolamento, ou de serenidade, como uma música soprada do coração da terra e das coisas elementares. Deve existir um segredo, um antigo mistério que explique a capacidade de sobrevivência do Tibete (e do seu exílio) e o facto de o sagrado se estender sobre o mapa da terra e estar aqui mais ao alcance da mão do que em qualquer outro lugar."
Francisco José Viegas e Manuel Gomes da Costa em "Tão Longe Quanto os Homens"
sábado, 6 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
"Folhagem sobre os pés ou sob os pés,
raízes que me cortam a busca
de um corpo que deve estar por perto
a fazer coincidir o céu azul
com a vontade de ter ar para si,
e cinza, e um olhar de amor.
Um peso que não se arrasta, voz
sem tempo nenhum, vem pé
ante pé sobre mim e sobre o livro
que deixou de ter palavras
mal caiu no meio do ar o desejo
de esvoaçar no meio da tarde."
Hélder Moura Pereira em "Uma Ideia da Coisa"
Hélder Moura Pereira em "Uma Ideia da Coisa"
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