domingo, 3 de abril de 2016

Sobre um Poema

"Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
 
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
 
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
 
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne."

Herberto Hélder (1930-2015)

Da Lua e suas fases


domingo, 27 de março de 2016

Homem

"Eu estou sobre as florestas
verde e brilhante
pairando acima de todas
eu, o Homem.
Eu sou órbita no cosmos,
movimento em flor,
sustentáculo sustentado.
Eu sou sol entre os astros que giram,
eu, o Homem,
sinto-me profundamente,
perto da mais alta mónada do cosmos,
eu, o seu pensamento.
A minha cabeça tem folhagem de estrelas,
de prata é o meu rosto,
eu brilho,
eu,
como Ele,
o cosmos;
o cosmos
como eu!"

Kurt Heynicke

terça-feira, 8 de março de 2016

A Caligrafia das Aves


"As aves marcam o relevo da maré
e a estenografia das horas
Mudam de estação como de idioma
e ondulam pela areia de uma seara
Emergem de vírgulas interiores
e anunciam uma ortografia madura
entre as linhas de continentes decalcados
a tinta impermanente
 
Têm uma caligrafia acidental em frente ao mar
e uma forma nasalada de dizer
meu pé, minha mãe, meu pão
Escrevem uma carta com sotaque de despedida,
uma interrogação quando podia ser a travessia."
 
Tiago Patrício  em "O Livro das Aves"

Viagem

"Se já atingiste o conhecimento não o deixes transparecer
apreende o mundo de novo como um filósofo ioniano
prova o sabor da água e do fogo do ar e da terra
porque só eles permanecerão quando tudo tiver passado
e a viagem permanecerá embora já não seja a tua."

Zbigniew Herbert  em "Escolhido pelas Estrelas"

sábado, 5 de março de 2016

Moon, from the series "Astronomical observations" by Donato Creti, 1711

O Círculo de Giz Caucasiano

"Qualquer poema abre um círculo
à sua volta.
Podemos ser-lhe indiferentes:
estamos então para além do círculo.
Ou pode o poema, de algum modo
(até por irritação),
chamar por nós.
Neste caso, enredamo-nos no círculo:
saltar ou não?
Passar para dentro do poema,
ficar de lado
ou entrar nesse lugar feito de coisa nenhuma
de onde vêm todos os poemas?"

Luís Filipe Castro Mendes  em "A Misericórdia dos Mercados"

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Dentro da Vida

"Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
 
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer."

Gastão Cruz  em "A Moeda do Tempo"
"Há momentos em que somos obrigados a conviver com pessoas de natureza tão distinta da nossa que bastam cinco minutos de contacto para percebermos que, cedo ou tarde, os diques que sustêm a hostilidade latente acabarão por ceder e quanto mais pressão pusermos sobre eles maior será a catástrofe. A questão que nos colocamos é a de saber se o ideal é passar de imediato para a fase de conflito declarado ou aguardar diplomaticamente que, como dizem alguns entendidos nas matérias, as coisas sigam ao seu ritmo, na vã esperança de que uma relação franca e honesta, ainda que difícil, seja possível. A diplomacia, sabe quem já esteve na guerra, é um exercício de grande violência interior."

Bruno Vieira Amaral  em "As primeiras coisas"

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Mistério da Poesia

"Como o pai do poeta Yeats dizia,
misticismo é um meio para a poesia.
Porque insistir então em conceber
a poesia como atalho para o Ser?"

Luís Filipe Castro Mendes