quinta-feira, 20 de outubro de 2016

" ... sinto que as minhas ambições de fraternidade se adequam mais a amar a humanidade, a tornar-me irmão da massa, do que a amar o indivíduo, mesmo que esse indivíduo seja de facto meu irmão."

Afonso Reis Cabral  em "O Meu Irmão"

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

 
"Eleva-te acima de qualquer altura;
desce mais fundo que qualquer profundidade;
concentra em ti todas as sensações das coisas criadas;
da Água, do Fogo, do Seco e do Húmido.
Pensa que te encontras simultaneamente em toda a parte:

na terra, no mar e no céu;
pensa que não nasceste nunca, que és ainda embrião:
jovem e velho, morto e além da morte.
Compreende tudo ao mesmo tempo
- os tempos, os lugares, as coisas:
as qualidades e as quantidades."
 
Hermes Trismegistos

domingo, 16 de outubro de 2016

Um Dia de Sol

 
"Eu amo as coisas que as crianças amam,
Mas em compreensão funda, acrescida,
Que eleva a minha alma, de anelante,
Sobre aqueles onde inda dorme a vida
 
Tudo o que é simples e é brilhante,
Despercebido à mais aguda mente,
Com infantil e natural prazer
Faz-me chorar, orgulhosamente.
 
Eu amo o sol com o seu brilho intenso,
O ar, como se pudesse abraçar
Com minha alma sua vastidão,
Embriagado de tanto o olhar.
 
E amo os céus com tal alegria
Que me faz de minha alma admirar,
Uma alegria que nada detém,
Uma emoção que não sei controlar.
 
Aqui estendido deixem-me ficar
Diante do sol, da luz absorvida,
E em glória deixem-me morrer
Bebendo fundo da taça da vida;
 
Absorvido no sol e espalhado
Por sobre o infinito firmamento
Como gotas de orvalho, dissolvido,
Perdido num louco arrebatamento;
 
Misturado em fusão com toda a vida,
Perdido em consciência, impessoal,
Fico parte da força e da tensão,
Pertença duma pátria universal;
 
E, de modo estranho e indefinido,
Perdidos no Todo, um só vivente,
Essa prisão a que eu chamo a alma
E esse limite a que chamo mente."
 
 
Alexander Search
In 'Poesia' , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999

sábado, 24 de setembro de 2016

"As montanhas, como deuses, bebem água directamente das nuvens. E molham-se como deuses. Mas nada interessa, ainda que à nossa volta as nuvens entreguem um abraço ao cume dos montes."

Afonso Reis Cabral  em "O Meu Irmão"

domingo, 3 de julho de 2016

Il Poeta - Harp & Hang Duo


Ítaca

"O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos
 
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos
 
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos."

Daniel Faria em "Das Madrugadas"

domingo, 15 de maio de 2016

"Banda Sonora" para a corrida de amanhã :))


O olhar descoberto

"Diz-me se
na água reconheces o rumor
adormecido nos búzios
 
Diz-me se o outono tem
a ver com as algas
com a incerteza das folhas
 
e se há um sentido oculto
no rodar das estações
 
Diz-me se
toda a imagem é engano
ou filha enjeitada
do fogo
 
Diz-me se é certo
que o tempo
é um único olhar
prolongado nos dias
 
se a vida é o avesso da vida
e se há morte"

José Tolentino Mendonça  em "Os Dias Contados"

domingo, 1 de maio de 2016

A noite abre meus olhos

"Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
 
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
 
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
 
o amor é uma noite a que se chega só."

José Tolentino Mendonça  em "Estrada Branca"

domingo, 3 de abril de 2016

Sobre um Poema

"Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
 
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
 
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
 
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne."

Herberto Hélder (1930-2015)

Da Lua e suas fases