terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Fragilidade

"Da lágrima onde habita essa ausência
tua, o vento do norte íntimo tem
lembrança até ao mar e, com violência,
vira as mesas do bar já sem ninguém.

Fica a angústia como uma presença:
sete anos sem ti, só nestas paragens
de sempre, de ti compuseram épica
de dor pura, sozinha personagem.
 
Uma dor pura com a qual, sorrindo,
um dia hei-de eu até morrer de pena.
Muito tempo tentei imaginar
 
que estavas só longe. Volto a tentar.
Tomo um café, e vou polindo o sonho
como o vento o enorme azul do mar."

Joan Margarit  em "Misteriosament Feliç" (2008)

"Não pretendo mais do que o limite,
que para além do limite
já se entrega
 
Eu cumpro os meus
limites,
não cumprindo as regras."

Maria Teresa Horta em "Destino"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

The Smiths - Please, please, please let me get what I want


Tantas cidades a que devíamos ter ido

"O nosso sonho é feito de cidades cultas,
com música e cafés familiares,
a majestade de um porto e estações
de ferro e de vidro com comboios brunidos pela noite
e pela chuva, a mesma chuva
que nos acompanha num pequeno hotel
ou nas janelas de um museu.
Há recantos ao abrigo de grandes árvores,
gente calada, educada e bem vestida
e as silenciosas livrarias
onde os olhos vagueiam enquanto cai a tarde.
 
Tantas cidades a que devíamos ter ido, meu amor.
A lua emerge para lá daquelas pontes de ferro
dos anos que mudaram a nossa lei.
Desde então o tempo é uma chuva
que nos inunda como inunda os telhados.
Mas na luz do pátio vemos os templos
de mármore branco e dourado travertino.
Encontramos, nas ruas de pequenas aldeias,
faustosos estuques cor de terra
esgrafiados pelo vento. Esta casa
da varanda e do pátio tem uma luz
de conversas e conforto. De nós,
aquele que ficar terá por companhia
a memória do cipreste e das heras
até nos reencontrarmos nas cidades do sonho."

Joan Margarit  em "L'Ordre Del Temps" (1975-1986)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017


Almoço No Los Pinos

"Quanta alegria, ao domingo, ao acordar
com a luz que era uma irmã mais velha
e os teus braços, a cruz do meu desejo.
Foram manhãs que não deixaram nunca
de entrar pela janela. Barcelona,
quando era pobre, humilde, acolhedora
como são as cidades que estiveram sozinhas,
sorria através dos vidros.
Ficávamos na cama até tarde
e íamos comer àquele restaurante
do pinhal, ao pé do Tibidabo.
Então ainda não precisávamos
de dar um nome ao que fazíamos.
Quando dormíamos juntos, amor, sexo e dor
eram apenas uma coisa: o que éramos.
 
O tempo uiva, mas em silêncio,
como um lobo com cancro na garganta.
Nada me pertence. De súbito,
nesta cidade desconhecida,
posso defender apenas o quarto onde agora,
misteriosamente feliz, escuto o som
do saxofone paciente de Ben Webster.
Embrulhada num jornal velho,
ainda guardo a rosa de há tantos anos:
aquela Barcelona mais difícil
onde procurava o seu lugar a minha vida."

Joan Margarit  em "Misteriosamente Feliç" (2008)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Nick Drake - Place to be


Fulgores

Ninguém é a pátria.
J.L. Borges

 
"Nada nem ninguém é a poesia.
Nem a personagem solitária numa rocha
vendo como investe o mar. Nem o mar, que é o único
sobrevivente da mitologia.
Poesia não és tu. Nem os crepúsculos,
nem o velho prestígio inútil da rosa,
nem escrever o verso mais triste esta noite.
Nada nem ninguém é a poesia.
Nem cinza nem mármore, acumulados pelos clássicos,
nem os cais de madrugada, nem as folhas mortas,
nem escutar a canção Les Feuilles mortes.
Nada nem ninguém é a poesia.
Nem as cartas de Rilke, nem Veneza,
nem a bala na têmpora de Maiakóvski,
nem a luz do farol por entre a névoa
onde sempre esperará Lili Marlene.
Nada nem ninguém é a poesia,
mas é ela quem me salva deste monstro
que está à espreita num lugar dentro de mim,
a minha besta de companhia.

Joan Margarit  em "De Aiguaforts (1998)"

sábado, 28 de janeiro de 2017

"Isto filhos, a poesia e a cozinha são irmãs" (II)

 
Pimento recheado com legumes à moda malaia, manteiga de amendoim e coentros; arroz de alecrim e sementes; puré de beterraba e crocante de pera ao vinho com queijo vegano, flores e rebentos. 🌺
Almoço de hoje. A sentir-se inspirada. 😋💗😋

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Cerco de Lisboa

"Pela madrugada
tece o Tejo a
água
 
Lisboa a dormir
sobre as suas
casas
 
Não vem pelo
Tejo
este odor a casas
 
Vem antes das casas
este odor
a armas
 
Lisboa a dormir
sobre as suas
casas
 
O Tejo a tecer
as armas nas
águas."

Maria Teresa Horta  em "Cronista não é Recado"