segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

"Para o poeta não há factos contrários; não há mentira, não há erro. Todos os poemas são o contrário da mentira e do erro: aquilo que pode não ser explicável mas que acontece no mundo.
(...)
O facto do poema é um facto fátuo, um facto muito mais próximo da própria existência humana. Não é que a lógica seja de todo arrancada, o poema é acompanhado pela sua sombra. Pois, o verso é a sombra da palavra, um prego no coração da memória. A metafísica tenta elevar o homem a uma pura espiritualidade, a moral esforça-se por impedir o romance entre o homem e a natureza; e a poesia mostra o bem da metafísica, o mal necessário da moral e cai apaixonadamente nos braços da natureza."

Paulo José Miranda  em "Um prego no coração"

Ellen & The Escapades - Run


"Alguém descrevera Deus como um fervilhar nas trevas, o vasto fervilhar sombrio do ser que está perpetuamente a recriar-se. Algo que Keats vira também. O Cristo místico a caminhar sobre as ondas fervilhantes. Cristo no Limbo. Anjos a abraçar pecadores arrependidos num quadro de Botticelli."

Iris Murdoch  em "O Bom Aprendiz"

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

David Sylvian - Orpheus


"A morte de um livro, por exemplo. Ao chegar ao fim de um livro, que ao longo das suas páginas me deu tanto prazer, tanta reflexão, tanta vida, invade-me um sentimento que não sei precisar. A morte é sempre uma falta.
(...)
Mas o que é que morre, o que é que me falta quando chego ao fim de um livro? O livro jaz diante de mim como sempre esteve antes de iniciar a sua leitura, contudo já não é o mesmo livro anónimo, já não é um livro, mas aquele livro determinado, e determinado pelo meu tempo de leitura. O livro já não é a lombada, a encadernação, o volume de folhas, a gramagem do papel, os caracteres e a sua composição página a página. O livro deixou de ser um mero objecto. O livro é uma amálgama de coisa e eu-mesmo. Este eu-mesmo é duas mortes: a minha e a do autor. O fim do tempo que demorei a ler o livro, o fim do tempo que ele demorou a escrevê-lo."
 
Paulo José Miranda  em "Um prego no coração"

domingo, 26 de novembro de 2017

"Há, de facto, uma proporção ideal entre a quantidade de clareza e a quantidade de obscuridade que um verso deverá ter para manter a ligação aos homens. Se esta proporção não for atingida, o verso desliga-se dos homens (como o barco se desliga do cais quando o marinheiro corta a corda que o amarra). Se um verso não se liga a pelo menos um homem, ficará apenas nas mãos de quem o escreveu, o que poderá não ser suficiente.
Claro está que na poesia não se trata de falar com a velha avó sobre o frio que faz de noite. Como dissemos, há uma clareza exigida ao verso, mas também se exige uma certa obscuridade."

Gonçalo M. Tavares  em "O Senhor Eliot e as conferências"

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Adília Lopes 💗

Thomas Feiner & Anywhen - All that Numbs You


"Chuvosa tarde, eléctricos me doem.
O céu um só, por toldo sobre o mundo,
Aviões o cortam, facas sobre chumbo;
Postais lacrimejantes me comovem.
 
Além, do vinte e oito, descem duas
Colinas de um sagrado coração
Vindo da Graça, pela Sé, visão
Do céu caída, a Virgem pelas ruas.
 
Convalescendo os lábios de batom,
Agulhas na calçada me apontou
E sobre os seus dois círios caminhou
E a graça ao vir a mim me deu frisson.
 
Fugi-lhe. Acoitei-me num café.
Fiquei, invés, a ideá-la, anti-Tomé."
 
 
Daniel Jonas em "Canícula"

sábado, 18 de novembro de 2017

"Há quem diga que as palavras são coisas mastigáveis como os alimentos, e há ainda quem entre em pormenores como quem entra numa sala, dizendo que se todas as palavras são mastigáveis e transportáveis pela língua de um lado para o outro da boca, nem todas alimentam os homens; só certos versos o farão.
Poderão os versos de grandes poetas alimentar um homem durante alguns dias, senhor Breton? Eis uma pergunta. Possuirão os versos, questiono, qualidades de energia surpreendentes, como se tivessem componentes semelhantes a proteínas e glícidos?
Sabe-se já, há muitos anos, que certos produtos se decompõem em outros produtos mais pequenos, libertando energia nesse processo. Resta saber o que sucede quando um verso se decompõe nos seus constituintes; quando depois de balançar na boca que o diz, desce ao estômago e se divide.
(...)
Em que se dividirá o verso? Em letras? Em outra coisa? E o que resultará dessa decomposição? Que energia será aí libertada? Será uma energia inútil, ou, pelo contrário, será algo capaz de influenciar os nossos actos? A energia de decomposição de um verso será capaz de fortalecer o estômago e a vontade?"
 
Gonçalo M. Tavares  em "O Senhor Breton e a entrevista"

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ainda Não Foi Hoje Que Choveu

"I
A chuva anda por longe, entretida
a causar inundações na Indonésia.

A chuva dir-se-ia que por estes lados
deixou de ser possível
e que a morte à míngua de água
traz debaixo de olho a Terra Quente.
 
 
II
Hoje acumularam-se umas quantas nuvens
e chegou a parecer que choveria.
As pessoas punham, desassossegadas,
olhos e rogos no céu.
 
Mas logo o vento mudou
e dispersou a esperança, enxotou-a
como se enxota um velho cão vadio
que vem coçar as pulgas para junto de nós.
 
 
III
Um velho de sacho ao ombro
segue cismando em direcção à horta
- lugar onde pertencem os dias que lhe restam - ,
cruza-se comigo no caminho.
 
Com modos que já só a aldeia sabe,
levanta o chapéu e diz com desalento:
ainda não foi hoje que choveu.
 
E é o seu próprio olhar que vai chovendo
conformação sobre a pesada, opaca
poeira do caminho."


A.M. Pires Cabral  em "Gaveta do Fundo"