sexta-feira, 23 de março de 2018

"Ainda no século dezassete eram usados métodos xamânicos para procurar a inspiração (ligar-se aos outros mundos). As casas de escuridão, sem janelas para deixar entrar a luz do sol, onde o poeta se deitava de costas, tendo por companhia algumas pedras, e ficava durante um dia inteiro; a uma certa hora da noite acendiam-se umas velas e ele começava a escrever. Mas ninguém sabia o que se passara no escuro e no silêncio, o que vira, para onde viajara.
Escrever poemas era um acto mágico ...
A poesia estava muito próxima da linguagem dos pássaros, da linguagem dos anjos. E dos demónios."

Ana Teresa Pereira  em "O Rosto de Deus"

Raised by Swans - Still Inside You


"E no fim do Verão comecei a afastar-me um pouco. Saía de casa de madrugada, antes que os outros se levantassem, vestia uma camisola velha sobre o fato de banho e ia para as rochas apanhar conchas e pedras. Havia umas muito bonitas, mas o importante era que eu aprendera a senti-las, segurava-as na mão durante algum tempo até ficarmos ligadas.
Uma manhã encontrei uma pedra polida pelas águas, misteriosa, que trouxe para casa. Tinha muitas cores, azul, verde, vermelho; na sua superfície estendiam-se prados com flores campestres, talvez papoilas, e pedaços de céu. Pensei que Tom saberia o seu nome.
Claro que Tom saberia o seu nome. Conservá-la-ia na mão durante uma eternidade, sentindo-a, escutando-a ... tornando-a dele.
E ouvi-me dizer baixinho, quase sem querer:
- Meu amor.
(...)
Ele gostou da pedra (disse-me que se chamava unakite), colocou-a no velho armário do estúdio, entre os livros e as maçãs esverdeadas. Também tinha algumas para mim, águas marinhas de um azul muito suave, pedras da lua quase brancas."

Ana Teresa Pereira  em "O Rosto de Deus"

sábado, 17 de março de 2018

Villeneuve - The Sun (feat Nili)


"Todos trouxeram um presente. Muitos de vós se negaram algum conforto para que as necessidades dos outros pudessem ser satisfeitas. Todos vós contribuíram com algo de acordo com as vossas possibilidades, sem pensarem no valor do presente que irão receber em troca. Para nós, é perfeitamente natural partilharmos com os outros. Há muito que percebemos que é mais importante dar do que receber."

Carson McCullers  em "O Coração É Um Caçador Solitário"

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Vashti Bunyan - I'd Like To Walk Around in Your Mind


"Escrever era como mergulhar as mãos em argila (algo de sensual e assustador), criar formas que depois voltavam à massa amorfa, ao caos, ao início; e surgiam de novo, durante algum tempo, revelavam-se e desapareciam ..."


"À noite ia para o jardim das traseiras estudar os astros, ou pelo menos era isso que parecia, ficava a observá-los durante horas e depois fazia desenhos complicados num caderno.
Marisa levou algum tempo a perceber que o jardim não era selvagem mas que nele nada estava feito por acaso, o homem conhecia intimamente as plantas, as que se davam bem umas com as outras, as que deviam ficar separadas. Quando enxertava os arbustos, consultava antes os astros, a posição dos astros.
E numa manhã em que cruzou duas árvores diferentes, fez sexo com ela, na terra, por trás, como se fosse um ritual; tapou-lhe a boca com a mão para a impedir de gritar e depois beijou-a com ternura, como se a sua dor tivesse sido necessária para fins que ela ignorava.
Um dia descobriu que estava grávida.
E então, vindo de fora, veio o medo.
Algo desconhecido crescia dentro de si, algo que fora engendrado naquele lugar estranho, talvez de acordo com determinada posição dos astros, na fase certa da Lua, segundo leis de que ela não sabia nada."
 
 
"Gostava da sua companhia, de mergulhar naqueles olhos cinzentos, de deixá-la revelar-lhe os segredos das plantas (as que se podiam comer, as que eram venenosas; as que pertenciam a determinado signo do Zodíaco - «as plantas de Gémeos são quentes e ligeiramente húmidas, as suas flores são brancas ou muito pálidas, as folhas têm sete pontas» ...), de vê-la fazer desenhos com as pedras, silenciosa, grave."

Ana Teresa Pereira  em "A Coisa Que Eu Sou"
"A noite foi espessando aos poucos,
por cima de nós um punhado de astros
alinha-se lá no seu acaso
e tu apontas logo uma constelação,
contas-me sobre um mito qualquer
e eu com o melhor sorriso que sei
agradeço tudo."

Diogo Vaz Pinto  em "Nervo"

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"O problema do indivíduo que cria, problema situado por debaixo do problema da obra, é talvez - quer o autor tenha orgulho nela ou sinta uma secreta vergonha - o do renascimento, do perpétuo nascimento, ave fénix renascendo periodicamente, espantosamente, das suas cinzas e do seu vazio."

Henri Michaux  em "O Retiro Pelo Risco"
"Como noutros tempos dispunha as cartas do Tarot (eram sempre as mesmas, o Louco, a Papisa, a Morte, a Lua) agora escrevia versos soltos no caderno branco tentando ler nas palavras obscuros sinais.
«God knows I know the faces I shall see.»
Era uma frase terrível, por vezes acordava com ela nos lábios e uma sensação de medo difícil de definir.
«I do not know what it is about you that closes and opens ...»
Esta era mais como uma canção, apetecia-lhe cantá-la baixinho quando passeava pelas ruas da cidade próxima ou pelos bosques que rodeavam a quinta.
Levantou-se da secretária e meteu o caderno na gaveta. O caderno que abria de vez em quando com a esperança de que surgisse uma história ...
Talvez não voltasse a escrever."
 
Ana Teresa Pereira em "A Coisa Que Eu Sou"

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

"É como se eu fosse duas pessoas diferentes. Uma delas é um homem culto. Já estive nas maiores bibliotecas deste país. Leio. Estou sempre a ler. Leio livros que falam sobre a mais pura das verdades. Ali, na minha mala de viagem, tenho livros de Karl Marx, de Thorstein Veblen e de outros autores parecidos. Leio-os vezes sem conta e, quanto mais estudo, mais enlouqueço. Conheço-os todos de cor. Acima de tudo, gosto das palavras. Materialismo dialético. Prevaricação jesuítica.
- Jake rolava as sílabas na boca com uma solenidade apaixonada. - Propensão teleológica."

Carson McCullers  em "O Coração é um Caçador Solitário"
"Mal me ponho a escrever, é para começar a inventar. Logo que o texto sai, ponho-me de todos os lados a apresentar-lhe gradeamentos de realidade, e uma vez obtido este novo conjunto, apresento-lhe novos conjuntos ainda mais reais, e assim, de compromisso em compromisso, chego, ora vejamos, chego àquilo que escrevo, que é invenção apanhada pelo pescoço e a quem não foi atribuída a bela existência que parecia estar-lhe destinada.
É no entanto nesta honestidade tardia, mas rigorosa e por graus, e depois mais rigorosa ainda mas sempre mais tardia, que eu encontro uma das alegrias e um dos suplícios de escrever."

"O Retiro Pelo Risco - Antologia da Poética de Henri Michaux"

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

"Por nascimento ou por conquista, o poder e a propriedade são sempre arbitrários. Encontrar causas não é reconhecer legitimidade, tal como conhecer a lei não é obedecer-lhe. Fundada na força, na memória ou na fé, a proibição não delimita mais do que o espaço da própria infracção. Condiciona o conflito, não o resolve. É o traço comum ao livro, à lei e à transgressão. Dizer que não, primeiro, por hábito ou por estratégia, continuar depois, já sem critério nem objectivo, demarcando na língua um estado negativo, o necessário apenas para impor a ordem ou prolongar as proibições, e obedecendo tanto ao propósito de modelação do mundo quanto a um desejo de ocupação do espaço e da consciência."
 
H.G. Cancela  em "Impunidade"

Xavier de Maistre - Hommage à Haydn