sábado, 5 de janeiro de 2019

" ... (escrevo, paro, volto a escrever, intermitência que me cansa e obriga a prosseguir. Sou movido pelo silêncio que há entre as palavras, bruscas zonas de suspensão, para um futuro próximo e múltiplo: o da palavra seguinte. Daí, serem as minhas frases uma espécie de respiração de asmático."

Rui Nunes  em "Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?"

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Handel - Harp Concerto in B flat Major


"Fatigados de esperar o previsto,
um desejo, o outono, a morte,
passamos a aguardar o imprevisto.
 
E assim como nunca importou demasiado
que o previsto chegasse ou não chegasse,
agora também não importa demasiado
que o imprevisto venha ou não venha.
 
Muito mais que o objecto
ou a ansiedade da nossa espera,
o que importa é a mudança
do nosso sentido de esperar,
essa mudança que pouco a pouco leva a outra espera,
para além do previsto e do imprevisto,
a espera desinteressada de toda a forma de espera."

Roberto Juarroz  em "Poesia Vertical"

Balanço Literário de 2018


2018 ... 76 livros num total de 12.483 páginas lidas
Curiosidade: média de 164 páginas por livro

 

 Os 10 livros que mais gostei de ler em 2018:

- "A Linguagem dos Pássaros" de Ana Teresa Pereira
- "China: 3000 Years of Art and Literature" by Jason Steuber
- "Impunidade" de H.G.Cancela
- "Lincoln no Bardo" de George Saunders
- "Mulheres Condenadas - Histórias de Dentro da Prisão" de Catarina Frois
- "O Quarto de Marte" de Rachel Kushner
- "O Retiro pelo Risco - Antologia da Poética de Henri Michaux"
- "Os Devaneios do Caminhante Solitário" de Jean-Jacques Rosseau
- "Poesia Completa 1979-1994" de Luís Miguel Nava
- "Poesia Vertical" de Roberto Juarroz

A Respiração

"No retorno dos poemas, no grande arco,
vê-se a física do peito, a metáfora
dos ritmos. É do silêncio que se expande a voz,
é da inspiração. Doar o sopro à morte,
o som que se dispersa, esse esvaziamento
do pneuma - eis a melancolia
das palavras todas. Mas a dilatação,
o tempo do silêncio quando inspira,
essa é a matriz onde a voz fecunda o ar
entre os cordões de sangue, as redes
de vapor. Por isso o mundo arqueia:
desejo de conter, instinto de expirar."

Carlos Poças Falcão  em "Movimento e Repouso"

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Somos Natal

Dele se diz que é luz que o tempo dispara enquanto espera sem ansiedade por um milagre. Ou até gratidão por promessas cumpridas. E gratos somos melhores, somos Natal.
Somos Natal naquele eterno instante em que prolongamos um abraço.
Somos Natal quando reencontramos a beleza que há em sermos pastores, pais ou carpinteiros, em sermos de longe ou até vizinhos, em sentirmos frio ou termos pouco. Somos Natal quando pousamos e pegamos e pousamos e trazemos enquanto o tempo lá fora pára a observar.
Somos Natal quando nos comovemos por encontrar pessoas de antigamente, que agarramos pela mão e aquecemos do relento em que vivem.
Somos Natal quando perdemos as queixas do ano numa qualquer esquina da memória. Somos Natal quando qualquer canção é Natal e qualquer poema é oração.
Somos Natal quando nos desprendemos e compreendemos que somos só nascer, amar muito e ir. Somos Natal quando somos calados, mas felizes desejamos Feliz Natal. Somos Natal quando somos faladores e paramos para ouvir a noite inteira.
Somos Natal quando os que já não aparecem pelo Natal nos apertam o coração e jamais nos deixam.
Somos Natal quando queremos e por sorte nos acontece. E ficamos gratos, melhores.

domingo, 23 de dezembro de 2018

"Escrever um texto
e deixá-lo abandonado na página.
 
Não voltar a lê-lo,
não o mostrar a ninguém,
não o mandar a nenhum lado.
Que fique no seu repouso de texto.
 
E deixar que aí encontre o seu leitor,
como todos os textos o encontram.
 
Também o que levamos escrito dentro
e nos parece impossível que alguém possa ler."

Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"

Carminho - Estrela 💗


"Um amor que vá além do amor,
por cima do rito do vínculo,
além do jogo sinistro
da solidão e da companhia.
 
Um amor que dispense o regresso,
mas também a partida.
Um amor não submetido
aos fogachos de ir e voltar,
de estar despertos ou adormecidos,
de chamar ou calar.
 
Um amor para estar juntos
ou para não estar,
mas também para todas as posições intermédias.
 
Um amor como abrir os olhos.
E talvez também como fechá-los."

Roberto Juarroz  em "Poesia Vertical"

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

"Não creio que ela se importasse. É demasiado ... inteira, para se sentir sozinha."
 
Ana Teresa Pereira  em "Karen"
"Seja qual for o meio pelo qual o homem ocidental procure aceder à compreensão da vida espiritual do Oriente, confrontar-se-á sempre com grandes dificuldades. Quase sempre corre o perigo de querer penetrar intelectualmente naquilo que está para lá de toda a razão, no que é directamente transmitido ao oriental e que este vivencia como realidade inquestionável. A dificuldade de chegar a um entendimento profundo é ainda agravada pelo facto de o oriental raramente sentir o desejo de explicar a sua vivência ao nível intelectual. Consequentemente, abre-se uma profunda distância entre aquilo que ele diz em palavras e aquilo que ele realmente quer dizer com elas. Muitas vezes ele tem de se contentar com meras alusões e imagens, se não quiser refugiar-se nos paradoxos. Encontrar o fio condutor e não tomar a compreensão do que o professor diz pela compreensão da coisa em si exige do ocidental muita paciência intuitiva e reiteradas tentativas de pressentir e vivenciar de alguma maneira aquilo que está em causa. Embora no arranjo floral se diga muita coisa, e se deixe entrever algo, por detrás de tudo o que é visivelmente representável e vivenciável por todo o ser humano existe o mistério e o fundamento primordial do ser mais profundo."

Gusty L. Herrigel  em "ZEN e a Arte do Caminho das Flores"
"Uma escrita que suporte a intempérie,
que se possa ler sob o sol ou a chuva,
sob o grito ou a noite,
sob o tempo nu.
 
Uma escrita que suporte o infinito,
as gretas que se repartem como o pólen,
a leitura sem piedade dos deuses,
a leitura iletrada do deserto.
 
Uma escrita que resista
à intempérie total.
Uma escrita que se possa ler
até na morte."

Roberto Juarroz  em "Poesia Vertical"

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

"Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.
 
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.
 
Só deus não me dói hoje.
Será porque hoje ele não existe?"

Roberto Juarroz  em "Poesia Vertical"