quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
Recordo-me de ti
Largo do Lilau. Igreja da Sé. Fortaleza do Monte. Casa de Lou Ka. Templo de Kuan Tai. Quartel dos Mouros. Largo do Senado. Igreja de Santo António.
Selos do centro histórico de Macau espalhados sobre a mesa e que vão além do significado que encerram em si.
Pequenas janelas para aquele que foi o teu mundo.
Recordo-me de ti.
E recordar-me de ti é lembrar-me dos Verões quando observava-te a jogar Mah - Jong. Mah - Jong é um jogo secular de combinações de pedras que influenciou as regras do dominó e do rummy.
E recordar-me de ti é lembrar-me dos Verões quando observava-te a jogar Mah - Jong. Mah - Jong é um jogo secular de combinações de pedras que influenciou as regras do dominó e do rummy.
Curiosa, sempre curiosa, perguntava qual a origem, como se jogava. Tu explicavas. Explicavas com a paciência que sempre te caracterizou. Explicavas a construção da muralha, a distribuição das pedras, as combinações expostas, a contagem dos pontos, as penalidades. Falavas dos jogos especiais. Do jogo das nove lanternas, dos quatro amigos, dos dragões, do céu, da terra, dos três grandes sábios, da lua pescada no fundo do mar, do vento dominante ou mareante.
Era uma linguagem estranha. Mágica.
Ainda hoje conservo as 144 pedras que foram tuas. E tantas vezes dou por mim a admirar os motivos inscritos nas faces de cada uma daquelas pequenas placas rectangulares. As rodas, os caracteres, os ventos, as flores, as estações.
Recordo-me de ti quando hesito sobre qual o próximo modelo origami a dobrar. Um poliedro modular de Tomoko Fuse? O K2 de Robert Lang? E são nestes momentos de indecisão que lembro-me das pequenas mesas, cadeiras e flores de papel que nasciam das tuas mãos. Sem regras ou técnicas. Diagramas ou símbolos. Preocupações ou cuidados quanto ao tipo de papel, medidas ou gramagens. Desconhecias as bases e dobras mais importantes. Desconhecias a existência de um padrão de linhas e símbolos aceite internacionalmente o qual permite a concepção dos diagramas de origami. Desconhecias tudo o que não fosse simples. Espontâneo. Genuíno. Porque assim eras e não conhecias outra forma de ser.
Recordo-me de ti quando hesito sobre qual o próximo modelo origami a dobrar. Um poliedro modular de Tomoko Fuse? O K2 de Robert Lang? E são nestes momentos de indecisão que lembro-me das pequenas mesas, cadeiras e flores de papel que nasciam das tuas mãos. Sem regras ou técnicas. Diagramas ou símbolos. Preocupações ou cuidados quanto ao tipo de papel, medidas ou gramagens. Desconhecias as bases e dobras mais importantes. Desconhecias a existência de um padrão de linhas e símbolos aceite internacionalmente o qual permite a concepção dos diagramas de origami. Desconhecias tudo o que não fosse simples. Espontâneo. Genuíno. Porque assim eras e não conhecias outra forma de ser.
Na cozinha, naquele que foi um dos espaços para todos os nossos instantes, e em noite de lua cheia, lembro-me dos teus ensinamentos. Contavas que os chineses divinizavam a lua e que nas festividades de 15 da oitava lua, em todas as famílias, as mulheres estavam incumbidas da construção de um altar ao ar livre, onde, para simbolizar a unidade do lar, dispunham cinco pratos cheios de frutas esféricas, porque esférica é a lua. E por entre as maçãs, pêssegos, uvas, toranjas, melões e romãs sobressaía uma pirâmide de treze bolos lunares, representativos das treze luas que formam o ano lunar chinês.
Recordo-me das tuas mãos, que tinham na pele os estigmas de Agosto, a manipular com farinha acinzentada, da cor da lua, os bolos lunares que depois recheavas com uma estranha miscelânea de pevides, amêndoas, pinhões, cascas de tangerina e açúcar ou com uma pasta amarelada de sementes de lótus.
O ar que se respirava ali tinha o cheiro dos cereais acabados de debulhar nas eiras de pedra antiga.
Davas-me a provar um enquanto dizias que aqueles pequenos bolos simbolizavam a liberdade. Eu sorria, abraçava-te com força e, de certo modo, já compreendia o que querias dizer. Ou não fosse a tua neta uma mulher de Abril.
A tua memória é tudo aquilo que ficou em mim depois do nosso tempo de afectos se ter cumprido.
A tua memória é tudo aquilo que ficou em mim depois do nosso tempo de afectos se ter cumprido.
Recordo-me de ti e guardo-te em mim, sempre. Pois o amor existe na proximidade e na longitude.
O teu olhar antigo e tudo o que dizias quando nada dizias.
O teu olhar antigo e tudo o que dizias quando nada dizias.
E nisso ainda tenho tanto a aprender com o que foste pois continuo a dever às palavras o meu desassossego, a minha inquietação, apesar de saber que não é nestas que o que se perde regressa alguma vez.
As lembranças e a saudade não são pontos onde se cruzam os atalhos.
As lembranças e a saudade não são pontos onde se cruzam os atalhos.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
" ... agora, repito a palavra agora porque só vivo no presente, passado e futuro são ficções do presente, e esta frase é um lugar-comum, como não sou sábio, sinto-me a dizer o que todos dizem, embora sejam os meus lábios que articulam estas palavras e não os lábios de outro, ..."
Rui Nunes em "Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?"
Rui Nunes em "Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?"
sábado, 5 de janeiro de 2019
" ... (escrevo, paro, volto a escrever, intermitência que me cansa e obriga a prosseguir. Sou movido pelo silêncio que há entre as palavras, bruscas zonas de suspensão, para um futuro próximo e múltiplo: o da palavra seguinte. Daí, serem as minhas frases uma espécie de respiração de asmático."
Rui Nunes em "Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?"
Rui Nunes em "Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?"
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
"Fatigados de esperar o previsto,
um desejo, o outono, a morte,
um desejo, o outono, a morte,
passamos a aguardar o imprevisto.
E assim como nunca importou demasiado
que o previsto chegasse ou não chegasse,
agora também não importa demasiado
que o imprevisto venha ou não venha.
Muito mais que o objecto
ou a ansiedade da nossa espera,
o que importa é a mudança
do nosso sentido de esperar,
essa mudança que pouco a pouco leva a outra espera,
para além do previsto e do imprevisto,
a espera desinteressada de toda a forma de espera."
Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"
Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"
Balanço Literário de 2018
Curiosidade: média de 164 páginas por livro
Os 10 livros que mais gostei de ler em 2018:
- "A Linguagem dos Pássaros" de Ana Teresa Pereira
- "China: 3000 Years of Art and Literature" by Jason Steuber
- "Impunidade" de H.G.Cancela
- "Lincoln no Bardo" de George Saunders
- "Mulheres Condenadas - Histórias de Dentro da Prisão" de Catarina Frois
- "O Quarto de Marte" de Rachel Kushner
- "O Retiro pelo Risco - Antologia da Poética de Henri Michaux"
- "Os Devaneios do Caminhante Solitário" de Jean-Jacques Rosseau
- "Poesia Completa 1979-1994" de Luís Miguel Nava
- "Poesia Vertical" de Roberto Juarroz
A Respiração
"No retorno dos poemas, no grande arco,
vê-se a física do peito, a metáfora
dos ritmos. É do silêncio que se expande a voz,
é da inspiração. Doar o sopro à morte,
o som que se dispersa, esse esvaziamento
do pneuma - eis a melancolia
das palavras todas. Mas a dilatação,
o tempo do silêncio quando inspira,
essa é a matriz onde a voz fecunda o ar
entre os cordões de sangue, as redes
de vapor. Por isso o mundo arqueia:
desejo de conter, instinto de expirar."
Carlos Poças Falcão em "Movimento e Repouso"
Carlos Poças Falcão em "Movimento e Repouso"
terça-feira, 25 de dezembro de 2018
Somos Natal
Dele se diz que é luz que o tempo dispara enquanto espera sem ansiedade por um milagre. Ou até gratidão por promessas cumpridas. E gratos somos melhores, somos Natal.
Somos Natal naquele eterno instante em que prolongamos um abraço.
Somos Natal quando reencontramos a beleza que há em sermos pastores, pais ou carpinteiros, em sermos de longe ou até vizinhos, em sentirmos frio ou termos pouco. Somos Natal quando pousamos e pegamos e pousamos e trazemos enquanto o tempo lá fora pára a observar.
Somos Natal quando nos comovemos por encontrar pessoas de antigamente, que agarramos pela mão e aquecemos do relento em que vivem.
Somos Natal quando perdemos as queixas do ano numa qualquer esquina da memória. Somos Natal quando qualquer canção é Natal e qualquer poema é oração.
Somos Natal quando nos desprendemos e compreendemos que somos só nascer, amar muito e ir. Somos Natal quando somos calados, mas felizes desejamos Feliz Natal. Somos Natal quando somos faladores e paramos para ouvir a noite inteira.
Somos Natal quando os que já não aparecem pelo Natal nos apertam o coração e jamais nos deixam.
Somos Natal quando queremos e por sorte nos acontece. E ficamos gratos, melhores.
Somos Natal naquele eterno instante em que prolongamos um abraço.
Somos Natal quando reencontramos a beleza que há em sermos pastores, pais ou carpinteiros, em sermos de longe ou até vizinhos, em sentirmos frio ou termos pouco. Somos Natal quando pousamos e pegamos e pousamos e trazemos enquanto o tempo lá fora pára a observar.
Somos Natal quando nos comovemos por encontrar pessoas de antigamente, que agarramos pela mão e aquecemos do relento em que vivem.
Somos Natal quando perdemos as queixas do ano numa qualquer esquina da memória. Somos Natal quando qualquer canção é Natal e qualquer poema é oração.
Somos Natal quando nos desprendemos e compreendemos que somos só nascer, amar muito e ir. Somos Natal quando somos calados, mas felizes desejamos Feliz Natal. Somos Natal quando somos faladores e paramos para ouvir a noite inteira.
Somos Natal quando os que já não aparecem pelo Natal nos apertam o coração e jamais nos deixam.
Somos Natal quando queremos e por sorte nos acontece. E ficamos gratos, melhores.
domingo, 23 de dezembro de 2018
"Escrever um texto
e deixá-lo abandonado na página.
Não voltar a lê-lo,
não o mostrar a ninguém,
não o mandar a nenhum lado.
Que fique no seu repouso de texto.
E deixar que aí encontre o seu leitor,
como todos os textos o encontram.
Também o que levamos escrito dentro
e nos parece impossível que alguém possa ler."
Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"
Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"
"Um amor que vá além do amor,
por cima do rito do vínculo,
além do jogo sinistro
da solidão e da companhia.
Um amor que dispense o regresso,
mas também a partida.
Um amor não submetido
aos fogachos de ir e voltar,
de estar despertos ou adormecidos,
de chamar ou calar.
Um amor para estar juntos
ou para não estar,
mas também para todas as posições intermédias.
Um amor como abrir os olhos.
E talvez também como fechá-los."
Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"
Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
"Seja qual for o meio pelo qual o homem ocidental procure aceder à compreensão da vida espiritual do Oriente, confrontar-se-á sempre com grandes dificuldades. Quase sempre corre o perigo de querer penetrar intelectualmente naquilo que está para lá de toda a razão, no que é directamente transmitido ao oriental e que este vivencia como realidade inquestionável. A dificuldade de chegar a um entendimento profundo é ainda agravada pelo facto de o oriental raramente sentir o desejo de explicar a sua vivência ao nível intelectual. Consequentemente, abre-se uma profunda distância entre aquilo que ele diz em palavras e aquilo que ele realmente quer dizer com elas. Muitas vezes ele tem de se contentar com meras alusões e imagens, se não quiser refugiar-se nos paradoxos. Encontrar o fio condutor e não tomar a compreensão do que o professor diz pela compreensão da coisa em si exige do ocidental muita paciência intuitiva e reiteradas tentativas de pressentir e vivenciar de alguma maneira aquilo que está em causa. Embora no arranjo floral se diga muita coisa, e se deixe entrever algo, por detrás de tudo o que é visivelmente representável e vivenciável por todo o ser humano existe o mistério e o fundamento primordial do ser mais profundo."
Gusty L. Herrigel em "ZEN e a Arte do Caminho das Flores"
Gusty L. Herrigel em "ZEN e a Arte do Caminho das Flores"
"Uma escrita que suporte a intempérie,
que se possa ler sob o sol ou a chuva,
sob o grito ou a noite,
sob o tempo nu.
Uma escrita que suporte o infinito,
as gretas que se repartem como o pólen,
a leitura sem piedade dos deuses,
a leitura iletrada do deserto.
Uma escrita que resista
à intempérie total.
Uma escrita que se possa ler
até na morte."
Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"
Roberto Juarroz em "Poesia Vertical"
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
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