quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Hang Massive - Warmth of the Sun's Rays


"O budista é aquele ou aquela que aceita as seguintes quatro verdades:
 
- Todas as coisas compostas são impermanentes
- Todas as emoções são dor
- Nenhuma coisa existe em si e por si
- O nirvana transcende os conceitos
 
Mas o que é que não faz de nós budistas?
 
- Se não podemos aceitar que todas as coisas compostas ou fabricadas são impermanentes, se acreditamos que há alguma substância ou conceito essencial que seja permanente, então não somos budistas.
 
- Se não podemos aceitar que todas as emoções são dor, se acreditamos que efectivamente algumas emoções são puramente agradáveis, então não somos budistas.
 
- Se não podemos aceitar que todos os fenómenos são ilusórios e vazios, se acreditamos que certas coisas existem de modo inerente, então não somos budistas.
 
- E se pensamos que o despertar existe nas dimensões do tempo, espaço e poder, então não somos budistas.
 
Deste modo, o que faz de nós budistas? Podemos não ter nascido num país budista ou numa família budista, podemos não usar túnicas ou rapar a cabeça, podemos comer carne e idolatrar Eminem e Paris Hilton. Isso não significa que não possamos ser budistas. Para sermos budistas, temos de aceitar que todos os fenómenos compostos são impermanentes, que todas as emoções são dor, que todas as coisas não têm existência inerente e que o despertar transcende os conceitos.
Não é necessário estar constante e perpetuamente atento a estas quatro verdades, mas elas devem residir na nossa mente. Não andamos constantemente a recordar o nosso próprio nome, mas, quando alguém nos pergunta, recordamo-lo instantaneamente. Não há dúvida. Qualquer pessoa que aceite estes quatro selos, mesmo independentemente dos ensinamentos do Buda, mesmo nunca tendo ouvido o nome do Buda Shakyamuni, pode considerar que está no mesmo caminho que ele."

Dzongsar Jamyang Khyentse  em "O Que Não Faz De Ti Um Budista"

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Evocação Das Ilhas Mais Remotas

"É bom pensar nas ilhas remotas, pedir que sejam fortes
perante as tempestades e as belezas adversas.
Auguremos a chegada dos bandos de albatrozes
que coroam seus rochedos em voos circulares.
 
É preciso pedir que as ilhas sejam fortes
para que lá estejam enquanto nos perdemos
para que em silêncio permaneçam mesmo quando
alguém procura um canto no meio da multidão.
 
É bom pensar nas ilhas remotas
no que as ondas lhes levam, no que os céus lhes dizem
repetidamente e para sempre. Elas são as guardiãs
de uma porta para nós talvez inexistente."

Carlos Poças Falcão  em "A Nuvem"

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

"Os homens olham-se de demasiado perto para se verem tal como são. Como percebem as suas virtudes e os seus vícios através somente do amor-próprio que tudo embeleza, são sempre testemunhos infiéis e juízes corruptos de si mesmos."

Montesquieu  em "Elogio Da Sinceridade"

Recordo-me de ti

Largo do Lilau. Igreja da Sé. Fortaleza do Monte. Casa de Lou Ka. Templo de Kuan Tai. Quartel dos Mouros. Largo do Senado. Igreja de Santo António.
Selos do centro histórico de Macau espalhados sobre a mesa e que vão além do significado que encerram em si.
Pequenas janelas para aquele que foi o teu mundo.
Recordo-me de ti.
E recordar-me de ti é lembrar-me dos Verões quando observava-te a jogar Mah - Jong. Mah - Jong é um jogo secular de combinações de pedras que influenciou as regras do dominó e do rummy.
Curiosa, sempre curiosa, perguntava qual a origem, como se jogava. Tu explicavas. Explicavas com a paciência que sempre te caracterizou. Explicavas a construção da muralha, a distribuição das pedras, as combinações expostas, a contagem dos pontos, as penalidades. Falavas dos jogos especiais. Do jogo das nove lanternas, dos quatro amigos, dos dragões, do céu, da terra, dos três grandes sábios, da lua pescada no fundo do mar, do vento dominante ou mareante.
Era uma linguagem estranha. Mágica.
Ainda hoje conservo as 144 pedras que foram tuas. E tantas vezes dou por mim a admirar os motivos inscritos nas faces de cada uma daquelas pequenas placas rectangulares. As rodas, os caracteres, os ventos, as flores, as estações.
Recordo-me de ti quando hesito sobre qual o próximo modelo origami a dobrar. Um poliedro modular de Tomoko Fuse? O K2 de Robert Lang? E são nestes momentos de indecisão que lembro-me das pequenas mesas, cadeiras e flores de papel que nasciam das tuas mãos. Sem regras ou técnicas. Diagramas ou símbolos. Preocupações ou cuidados quanto ao tipo de papel, medidas ou gramagens. Desconhecias as bases e dobras mais importantes. Desconhecias a existência de um padrão de linhas e símbolos aceite internacionalmente o qual permite a concepção dos diagramas de origami. Desconhecias tudo o que não fosse simples. Espontâneo. Genuíno. Porque assim eras e não conhecias outra forma de ser.
Na cozinha, naquele que foi um dos espaços para todos os nossos instantes, e em noite de lua cheia, lembro-me dos teus ensinamentos. Contavas que os chineses divinizavam a lua e que nas festividades de 15 da oitava lua, em todas as famílias, as mulheres estavam incumbidas da construção de um altar ao ar livre, onde, para simbolizar a unidade do lar, dispunham cinco pratos cheios de frutas esféricas, porque esférica é a lua. E por entre as maçãs, pêssegos, uvas, toranjas, melões e romãs sobressaía uma pirâmide de treze bolos lunares, representativos das treze luas que formam o ano lunar chinês.
Recordo-me das tuas mãos, que tinham na pele os estigmas de Agosto, a manipular com farinha acinzentada, da cor da lua, os bolos lunares que depois recheavas com uma estranha miscelânea de pevides, amêndoas, pinhões, cascas de tangerina e açúcar ou com uma pasta amarelada de sementes de lótus.
O ar que se respirava ali tinha o cheiro dos cereais acabados de debulhar nas eiras de pedra antiga.
Davas-me a provar um enquanto dizias que aqueles pequenos bolos simbolizavam a liberdade. Eu sorria, abraçava-te com força e, de certo modo, já compreendia o que querias dizer. Ou não fosse a tua neta uma mulher de Abril.
A tua memória é tudo aquilo que ficou em mim depois do nosso tempo de afectos se ter cumprido.
Recordo-me de ti e guardo-te em mim, sempre. Pois o amor existe na proximidade e na longitude.
O teu olhar antigo e tudo o que dizias quando nada dizias.
E nisso ainda tenho tanto a aprender com o que foste pois continuo a dever às palavras o meu desassossego, a minha inquietação, apesar de saber que não é nestas que o que se perde regressa alguma vez.
As lembranças e a saudade não são pontos onde se cruzam os atalhos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

" ... agora, repito a palavra agora porque só vivo no presente, passado e futuro são ficções do presente, e esta frase é um lugar-comum, como não sou sábio, sinto-me a dizer o que todos dizem, embora sejam os meus lábios que articulam estas palavras e não os lábios de outro, ..."

Rui Nunes  em "Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?"

Manuel de Falla - Spanish Dance


sábado, 5 de janeiro de 2019

" ... (escrevo, paro, volto a escrever, intermitência que me cansa e obriga a prosseguir. Sou movido pelo silêncio que há entre as palavras, bruscas zonas de suspensão, para um futuro próximo e múltiplo: o da palavra seguinte. Daí, serem as minhas frases uma espécie de respiração de asmático."

Rui Nunes  em "Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?"

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Handel - Harp Concerto in B flat Major


"Fatigados de esperar o previsto,
um desejo, o outono, a morte,
passamos a aguardar o imprevisto.
 
E assim como nunca importou demasiado
que o previsto chegasse ou não chegasse,
agora também não importa demasiado
que o imprevisto venha ou não venha.
 
Muito mais que o objecto
ou a ansiedade da nossa espera,
o que importa é a mudança
do nosso sentido de esperar,
essa mudança que pouco a pouco leva a outra espera,
para além do previsto e do imprevisto,
a espera desinteressada de toda a forma de espera."

Roberto Juarroz  em "Poesia Vertical"

Balanço Literário de 2018


2018 ... 76 livros num total de 12.483 páginas lidas
Curiosidade: média de 164 páginas por livro

 

 Os 10 livros que mais gostei de ler em 2018:

- "A Linguagem dos Pássaros" de Ana Teresa Pereira
- "China: 3000 Years of Art and Literature" by Jason Steuber
- "Impunidade" de H.G.Cancela
- "Lincoln no Bardo" de George Saunders
- "Mulheres Condenadas - Histórias de Dentro da Prisão" de Catarina Frois
- "O Quarto de Marte" de Rachel Kushner
- "O Retiro pelo Risco - Antologia da Poética de Henri Michaux"
- "Os Devaneios do Caminhante Solitário" de Jean-Jacques Rosseau
- "Poesia Completa 1979-1994" de Luís Miguel Nava
- "Poesia Vertical" de Roberto Juarroz

A Respiração

"No retorno dos poemas, no grande arco,
vê-se a física do peito, a metáfora
dos ritmos. É do silêncio que se expande a voz,
é da inspiração. Doar o sopro à morte,
o som que se dispersa, esse esvaziamento
do pneuma - eis a melancolia
das palavras todas. Mas a dilatação,
o tempo do silêncio quando inspira,
essa é a matriz onde a voz fecunda o ar
entre os cordões de sangue, as redes
de vapor. Por isso o mundo arqueia:
desejo de conter, instinto de expirar."

Carlos Poças Falcão  em "Movimento e Repouso"