Largo do Lilau. Igreja da Sé. Fortaleza do Monte. Casa de Lou Ka. Templo de Kuan Tai. Quartel dos Mouros. Largo do Senado. Igreja de Santo António.
Selos do centro histórico de Macau espalhados sobre a mesa e que vão além do significado que encerram em si.
Pequenas janelas para aquele que foi o teu mundo.
Recordo-me de ti.
E recordar-me de ti é lembrar-me dos Verões quando observava-te a jogar Mah - Jong. Mah - Jong é um jogo secular de combinações de pedras que influenciou as regras do dominó e do rummy.
Curiosa, sempre curiosa, perguntava qual a origem, como se jogava. Tu explicavas. Explicavas com a paciência que sempre te caracterizou. Explicavas a construção da muralha, a distribuição das pedras, as combinações expostas, a contagem dos pontos, as penalidades. Falavas dos jogos especiais. Do jogo das nove lanternas, dos quatro amigos, dos dragões, do céu, da terra, dos três grandes sábios, da lua pescada no fundo do mar, do vento dominante ou mareante.
Era uma linguagem estranha. Mágica.
Ainda hoje conservo as 144 pedras que foram tuas. E tantas vezes dou por mim a admirar os motivos inscritos nas faces de cada uma daquelas pequenas placas rectangulares. As rodas, os caracteres, os ventos, as flores, as estações.
Recordo-me de ti quando hesito sobre qual o próximo modelo origami a dobrar. Um poliedro modular de Tomoko Fuse? O K2 de Robert Lang? E são nestes momentos de indecisão que lembro-me das pequenas mesas, cadeiras e flores de papel que nasciam das tuas mãos. Sem regras ou técnicas. Diagramas ou símbolos. Preocupações ou cuidados quanto ao tipo de papel, medidas ou gramagens. Desconhecias as bases e dobras mais importantes. Desconhecias a existência de um padrão de linhas e símbolos aceite internacionalmente o qual permite a concepção dos diagramas de origami. Desconhecias tudo o que não fosse simples. Espontâneo. Genuíno. Porque assim eras e não conhecias outra forma de ser.
Na cozinha, naquele que foi um dos espaços para todos os nossos instantes, e em noite de lua cheia, lembro-me dos teus ensinamentos. Contavas que os chineses divinizavam a lua e que nas festividades de 15 da oitava lua, em todas as famílias, as mulheres estavam incumbidas da construção de um altar ao ar livre, onde, para simbolizar a unidade do lar, dispunham cinco pratos cheios de frutas esféricas, porque esférica é a lua. E por entre as maçãs, pêssegos, uvas, toranjas, melões e romãs sobressaía uma pirâmide de treze bolos lunares, representativos das treze luas que formam o ano lunar chinês.
Recordo-me das tuas mãos, que tinham na pele os estigmas de Agosto, a manipular com farinha acinzentada, da cor da lua, os bolos lunares que depois recheavas com uma estranha miscelânea de pevides, amêndoas, pinhões, cascas de tangerina e açúcar ou com uma pasta amarelada de sementes de lótus.
O ar que se respirava ali tinha o cheiro dos cereais acabados de debulhar nas eiras de pedra antiga.
Davas-me a provar um enquanto dizias que aqueles pequenos bolos simbolizavam a liberdade. Eu sorria, abraçava-te com força e, de certo modo, já compreendia o que querias dizer. Ou não fosse a tua neta uma mulher de Abril.
A tua memória é tudo aquilo que ficou em mim depois do nosso tempo de afectos se ter cumprido.
Recordo-me de ti e guardo-te em mim, sempre. Pois o amor existe na proximidade e na longitude.
O teu olhar antigo e tudo o que dizias quando nada dizias.
E nisso ainda tenho tanto a aprender com o que foste pois continuo a dever às palavras o meu desassossego, a minha inquietação, apesar de saber que não é nestas que o que se perde regressa alguma vez.
As lembranças e a saudade não são pontos onde se cruzam os atalhos.