sexta-feira, 8 de março de 2019

"Não que as palavras tivessem para ele um significado por aí além. Por vezes, se ligasse ao sentido de cada uma delas e seus conjuntos nas frases, achava até que contradiriam o que ele próprio queria e pensava, mas elas surgiam como o suporte necessário para que os seus lábios se movessem e uma música avassaladora o impelisse para diante, para a escrita futura do seu próprio livro."

Lídia Jorge em "Estuário"

sexta-feira, 1 de março de 2019

Hang Massive - End of Sky


Emoção e Dor

"Siddhartha também tentava cortar o sofrimento pela raiz. Mas não inventava soluções como desencadear uma revolução política, emigrar para outro planeta ou criar uma nova economia mundial.
Não pensava sequer em criar uma religião ou desenvolver códigos de conduta que trouxessem paz e harmonia. Investigou o sofrimento com um espírito aberto e, mediante a sua contemplação infatigável, descobriu que, na raiz, são as nossas emoções que conduzem ao sofrimento. Na verdade, elas são sofrimento. De um modo ou de outro, directa ou indirectamente, todas as emoções nascem do egoísmo, no sentido em que implicam apego ao eu. Além disso, ele descobriu que, por mais reais que pareçam ser, as emoções não são uma parte inerente do nosso ser. Não são inatas, nem são alguma espécie de maldição ou implante que alguém ou algum deus tenha introduzido em nós. As emoções surgem quando determinadas causas e condições se reúnem, como quando nos precipitamos pensando que alguém nos critica, ignora ou despoja de algum ganho. Surgem então as emoções correspondentes. No momento em que aceitamos essas emoções, no momento em que as adquirimos, perdemos a consciência e a sanidade. Ficamos em efervescência. Deste modo, Siddhartha encontrou a sua solução: consciência. Se desejamos eliminar verdadeiramente o sofrimento, devemos desenvolver a consciência, vigiar as nossas emoções e aprender como evitar entrar em efervescência.
Se examinarmos as emoções como fez Siddhartha, se tentarmos identificar a sua origem, descobriremos que se enraízam num equívoco e estão, portanto, viciadas. Todas as emoções são uma forma de preconceito; em cada emoção há sempre um elemento de juízo.
(...)
Enquanto acreditarmos que tais coisas existem verdadeiramente - momentaneamente ou para toda a eternidade -,  a nossa crença enraíza-se numa má compreensão. Esta má compreensão nada mais é do que ausência de consciência. E quando não há essa consciência, os budistas chamam a isso ignorância. É desta ignorância que emergem as nossas emoções.
(...)
Uma insondável variedade de emoções existe neste reino mundano. A cada momento, inumeráveis emoções são geradas com base nos nossos juízos falsos, preconceitos e ignorância. Estamos familiarizados com amor e ódio, culpa e inocência, devoção, pessimismo, ciúme e orgulho, medo, vergonha, tristeza e alegria, mas há muito mais. Algumas culturas têm palavras para emoções que noutras culturas são indefinidas e portanto não existem. Em algumas partes da Ásia, não há uma palavra para o amor romântico, ao passo que os espanhóis possuem numerosas palavras para diferentes tipos de amor. Segundo os budistas, há inúmeras emoções que não estão ainda definidas em nenhuma língua e mais ainda que estão para além da lógica capacidade de definição do nosso mundo. Algumas emoções são aparentemente racionais, mas a maioria é irracional. Algumas emoções aparentemente pacíficas enraízam-se na agressão. Algumas são quase imperceptíveis. Podemos pensar que alguém é completamente impassível ou desapegado, mas isso é em si mesmo uma emoção.
(...)
A ignorância consiste simplesmente em não conhecer os factos, conhecer os factos de modo erróneo ou conhecê-los de forma incompleta. Todas estas formas de ignorância conduzem a incompreensão e má interpretação, a sobrestimar e subestimar."

Dzongsar Jamyang Khyentse  em "O Que Não Faz De Ti Um Budista"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

"Há sítios no mundo que não estão lá. Sitios de paradeiro desconhecido. Não constam, não se sinalizam, não comparecem em compêndios, em almanaques de habitats. São sítios de passagem, de intersegmentação, zonas neutras, não nomeadas. Onde
(se é que é permitida a utilização de um advérbio circunstancial de lugar na presença de um lugar que não o é)
nem a universal erudição de Newtons ou de Arquimedes consegue vigorar, não obstante a unânime submissão a que sujeitam as coisas da física. E estas esferas intermédias, não catalogadas, vingam-se em desacato e desmando por toda a sonegação que se lhes vota. É no que dá o mundo olvidar-se de contemplar todos os não-sítios, suas cercanias e redondezas. É raro, mas por vezes acontece."

Ana Margarida de Carvalho  em "Pequenos Delírios Domésticos"

Valérie Milot - Sonata for Solo Harp: III. Perpetuum Mobile


Construção e Impermanência

"Se não há papel, não há livro. Se não há água, não há gelo. Se não há início, não há fim. A existência de um depende muito do outro, por conseguinte, a verdadeira independência não existe. Devido à interdependência, se um componente - a perna de uma mesa, por exemplo - sofre uma pequena mudança que seja, então a integridade do todo está comprometida e torna-se instável. Ainda que pensemos poder controlar a mudança, a maior parte do tempo isso não é possível por causa das incontáveis influências que desconhecemos e das quais não temos consciência. E, por causa desta interdependência, a desintegração de todas as coisas, no seu estado corrente ou original, é inevitável. Toda a mudança contém em si um elemento de morte. Hoje é a morte de ontem.
(...)
Mantendo a consciência dos fenómenos compostos, tornamo-nos conscientes da interdependência. Reconhecendo a interdependência, reconhecemos a impermanência. E, quando recordamos que as coisas são impermanentes, há menos probabilidades de nos deixarmos escravizar por suposições, crenças rígidas (tanto religiosas como seculares), sistemas de valores ou fé cega. Tal consciência impede-nos de sermos apanhados em todos os tipos de dramas pessoais, políticos e relacionais. Começamos a saber que as coisas não estão e nunca estarão inteiramente sob o nosso controlo e assim não há expectativa de que se passem de acordo com as nossas esperanças e medos. Não há ninguém para acusar quando as coisas correm mal porque existem inúmeras causas e condições a responsabilizar. Podemos dirigir esta tomada de consciência das regiões mais afastadas das nossas imaginações até a níveis subatómicos. Nem nos átomos nos podemos fiar.
(...)
Podemos pensar que os políticos liberais e de esquerda são políticos iluminados, mas eles podem ser de facto a causa do fascismo e dos skinheads, sendo complacentes e promovendo mesmo a tolerância para com os intolerantes, ou protegendo os direitos individuais daqueles cujo único fim é destruir os direitos individuais das outras pessoas. A mesma imprevisibilidade aplica-se a todas as formas, sensações, percepções, tradições, amor, confiança, desconfiança e cepticismo - mesmo às relações entre mestres espirituais e discípulos, e entre os homens e os seus deuses.
Todos estes fenómenos são impermanentes. Consideremos o cepticismo, por exemplo. Houve uma vez um canadiano que incarnava acerrimamente um céptico. Gostava de assistir a ensinamentos budistas, a fim de poder discutir com os mestres. Sendo na verdade bastante versado na filosofia budista, os seus argumentos eram fortes. Deleitava-se com a oportunidade de citar o ensinamento budista de que as palavras de Buda devem ser analisadas e não pressupostas como verdadeiras. Alguns anos mais tarde, tornou-se o devoto seguidor de um famoso médium. O céptico senta-se diante do seu guru, com lágrimas correndo dos olhos como rios, devoto a uma entidade que não tem uma ponta de lógica para oferecer. Fé ou devoção têm a conotação geral de ser inabaláveis, mas, tal como o cepticismo e todos os fenómenos compostos, são impermanentes.
(...)
Reconhecer a instabilidade de causas e condições leva-nos a compreender o nosso próprio poder de transformar obstáculos e tornar possível o impossível. Isto é verdadeiro em todas as áreas da vida. Se não temos um Ferrari, podemos bem criar as condições para ter um. Enquanto houver um Ferrari, há a oportunidade de possuirmos um. De igual modo, se queremos viver mais, podemos escolher parar de fumar e fazer mais exercício. Há uma esperança razoável. O desespero - tal qual, o seu oposto, a esperança cega - é o resultado de uma crença na permanência.
Podemos transformar não apenas o nosso mundo físico, mas também o nosso mundo emocional, convertendo, por exemplo, a agitação em paz mental, mediante o abandono da ambição, ou convertendo um baixo amor-próprio em confiança, mediante uma acção movida pela bondade e pela filantropia. Se todos nos determinarmos a colocar os nossos pés nos sapatos dos outros, cultivaremos a paz nas nossas casas, com os nossos vizinhos e com os outros países."

Dzongsar Jamyang Khyentse  em "O Que Não Faz De Ti Um Budista"

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Hang Massive - Warmth of the Sun's Rays


"O budista é aquele ou aquela que aceita as seguintes quatro verdades:
 
- Todas as coisas compostas são impermanentes
- Todas as emoções são dor
- Nenhuma coisa existe em si e por si
- O nirvana transcende os conceitos
 
Mas o que é que não faz de nós budistas?
 
- Se não podemos aceitar que todas as coisas compostas ou fabricadas são impermanentes, se acreditamos que há alguma substância ou conceito essencial que seja permanente, então não somos budistas.
 
- Se não podemos aceitar que todas as emoções são dor, se acreditamos que efectivamente algumas emoções são puramente agradáveis, então não somos budistas.
 
- Se não podemos aceitar que todos os fenómenos são ilusórios e vazios, se acreditamos que certas coisas existem de modo inerente, então não somos budistas.
 
- E se pensamos que o despertar existe nas dimensões do tempo, espaço e poder, então não somos budistas.
 
Deste modo, o que faz de nós budistas? Podemos não ter nascido num país budista ou numa família budista, podemos não usar túnicas ou rapar a cabeça, podemos comer carne e idolatrar Eminem e Paris Hilton. Isso não significa que não possamos ser budistas. Para sermos budistas, temos de aceitar que todos os fenómenos compostos são impermanentes, que todas as emoções são dor, que todas as coisas não têm existência inerente e que o despertar transcende os conceitos.
Não é necessário estar constante e perpetuamente atento a estas quatro verdades, mas elas devem residir na nossa mente. Não andamos constantemente a recordar o nosso próprio nome, mas, quando alguém nos pergunta, recordamo-lo instantaneamente. Não há dúvida. Qualquer pessoa que aceite estes quatro selos, mesmo independentemente dos ensinamentos do Buda, mesmo nunca tendo ouvido o nome do Buda Shakyamuni, pode considerar que está no mesmo caminho que ele."

Dzongsar Jamyang Khyentse  em "O Que Não Faz De Ti Um Budista"

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Evocação Das Ilhas Mais Remotas

"É bom pensar nas ilhas remotas, pedir que sejam fortes
perante as tempestades e as belezas adversas.
Auguremos a chegada dos bandos de albatrozes
que coroam seus rochedos em voos circulares.
 
É preciso pedir que as ilhas sejam fortes
para que lá estejam enquanto nos perdemos
para que em silêncio permaneçam mesmo quando
alguém procura um canto no meio da multidão.
 
É bom pensar nas ilhas remotas
no que as ondas lhes levam, no que os céus lhes dizem
repetidamente e para sempre. Elas são as guardiãs
de uma porta para nós talvez inexistente."

Carlos Poças Falcão  em "A Nuvem"

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

"Os homens olham-se de demasiado perto para se verem tal como são. Como percebem as suas virtudes e os seus vícios através somente do amor-próprio que tudo embeleza, são sempre testemunhos infiéis e juízes corruptos de si mesmos."

Montesquieu  em "Elogio Da Sinceridade"

Recordo-me de ti

Largo do Lilau. Igreja da Sé. Fortaleza do Monte. Casa de Lou Ka. Templo de Kuan Tai. Quartel dos Mouros. Largo do Senado. Igreja de Santo António.
Selos do centro histórico de Macau espalhados sobre a mesa e que vão além do significado que encerram em si.
Pequenas janelas para aquele que foi o teu mundo.
Recordo-me de ti.
E recordar-me de ti é lembrar-me dos Verões quando observava-te a jogar Mah - Jong. Mah - Jong é um jogo secular de combinações de pedras que influenciou as regras do dominó e do rummy.
Curiosa, sempre curiosa, perguntava qual a origem, como se jogava. Tu explicavas. Explicavas com a paciência que sempre te caracterizou. Explicavas a construção da muralha, a distribuição das pedras, as combinações expostas, a contagem dos pontos, as penalidades. Falavas dos jogos especiais. Do jogo das nove lanternas, dos quatro amigos, dos dragões, do céu, da terra, dos três grandes sábios, da lua pescada no fundo do mar, do vento dominante ou mareante.
Era uma linguagem estranha. Mágica.
Ainda hoje conservo as 144 pedras que foram tuas. E tantas vezes dou por mim a admirar os motivos inscritos nas faces de cada uma daquelas pequenas placas rectangulares. As rodas, os caracteres, os ventos, as flores, as estações.
Recordo-me de ti quando hesito sobre qual o próximo modelo origami a dobrar. Um poliedro modular de Tomoko Fuse? O K2 de Robert Lang? E são nestes momentos de indecisão que lembro-me das pequenas mesas, cadeiras e flores de papel que nasciam das tuas mãos. Sem regras ou técnicas. Diagramas ou símbolos. Preocupações ou cuidados quanto ao tipo de papel, medidas ou gramagens. Desconhecias as bases e dobras mais importantes. Desconhecias a existência de um padrão de linhas e símbolos aceite internacionalmente o qual permite a concepção dos diagramas de origami. Desconhecias tudo o que não fosse simples. Espontâneo. Genuíno. Porque assim eras e não conhecias outra forma de ser.
Na cozinha, naquele que foi um dos espaços para todos os nossos instantes, e em noite de lua cheia, lembro-me dos teus ensinamentos. Contavas que os chineses divinizavam a lua e que nas festividades de 15 da oitava lua, em todas as famílias, as mulheres estavam incumbidas da construção de um altar ao ar livre, onde, para simbolizar a unidade do lar, dispunham cinco pratos cheios de frutas esféricas, porque esférica é a lua. E por entre as maçãs, pêssegos, uvas, toranjas, melões e romãs sobressaía uma pirâmide de treze bolos lunares, representativos das treze luas que formam o ano lunar chinês.
Recordo-me das tuas mãos, que tinham na pele os estigmas de Agosto, a manipular com farinha acinzentada, da cor da lua, os bolos lunares que depois recheavas com uma estranha miscelânea de pevides, amêndoas, pinhões, cascas de tangerina e açúcar ou com uma pasta amarelada de sementes de lótus.
O ar que se respirava ali tinha o cheiro dos cereais acabados de debulhar nas eiras de pedra antiga.
Davas-me a provar um enquanto dizias que aqueles pequenos bolos simbolizavam a liberdade. Eu sorria, abraçava-te com força e, de certo modo, já compreendia o que querias dizer. Ou não fosse a tua neta uma mulher de Abril.
A tua memória é tudo aquilo que ficou em mim depois do nosso tempo de afectos se ter cumprido.
Recordo-me de ti e guardo-te em mim, sempre. Pois o amor existe na proximidade e na longitude.
O teu olhar antigo e tudo o que dizias quando nada dizias.
E nisso ainda tenho tanto a aprender com o que foste pois continuo a dever às palavras o meu desassossego, a minha inquietação, apesar de saber que não é nestas que o que se perde regressa alguma vez.
As lembranças e a saudade não são pontos onde se cruzam os atalhos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

" ... agora, repito a palavra agora porque só vivo no presente, passado e futuro são ficções do presente, e esta frase é um lugar-comum, como não sou sábio, sinto-me a dizer o que todos dizem, embora sejam os meus lábios que articulam estas palavras e não os lábios de outro, ..."

Rui Nunes  em "Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?"