quinta-feira, 2 de abril de 2026

"O Fulgor Instável das Magnólias" de Ivone Mendes da Silva (II)

 "91.
Eu sou uma criatura muito mais satisfeita do que habitualmente me descrevo. Hoje de manhã pelas sete horas havia já um sol vivo sobre os telhados vermelhos que vejo da janela da sala e eu pensei ah que beleza. A aproximação do tempo mais quente não me alegra porque não sou conforme ao calor desenfreado mas a mutabilidade visível e perceptível dos ciclos da natureza a passagem dos dias a grande luz que cresce sobre todas as coisas à minha volta trazem-me uma paz serena. Com ela me contento."


Ivone Mendes da Silva em "O Fulgor Instável Das Magnólias"
Língua Morta, Janeiro de 2021
Página 59

terça-feira, 31 de março de 2026

"O Fulgor Instável Das Magnólias" de Ivone Mendes Da Silva (I)

 "73.
Hoje de manhã cedo - era ainda de noite - vi os troncos das árvores recortados sobre o céu onde brilhava o aro fino da Lua. Só faltava uma abadia em ruínas para parecer um quadro de Caspar David Friedrich. Parei o carro e disse-me: olha que bonito. O facto é que Fevereiro já começou. Disponho-me a encontrar ainda que esquivas todas as formas de perfeição."



Ivone Mendes da Silva em "O Fulgor Instável das Magnólias"
Língua Morta, Janeiro de 2021
Página 48

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"Rumor Branco" de Almeida Faria

 "uma voz existe intersticial. há trevas à tua volta e tu não és. serás um dia. por sobre este vazio orbe a luz pesa milénios em sua ansiada ausência e à superfície dos rios invisíveis o presente galopa arrepiadamente. se fosses verias que sem ti o globo é cego minha desde já assemelhada imagem. fazes falta. o mundo não está ainda completado. para ele serás demasiado alto. a escuridão é aterradora fria sem fim é desolada assim sem ti. neste hoje do princípio dos séculos não farei mais nada. o futuro continuará ao rés das águas que não são vogando. amanhã daqui a muita espera quando a claridade brotar já sobre a crosta da terra convulsiva criarei um firmamento para o qual possas olhar constantemente sua altura aspirando e as fontes serão vistas que eram por cima do firmamento do céu e pelo solo em volta separá-las-ei com grave gesto. nesses mares que durante séculos de séculos tombarão da névoa imóvel te poderás lavar purificar-te conhecer a tua face. depois haverá cores e uma tarde virá e a manhã e tudo é bom. logo ao seguinte dia o húmus se tornará das ervas que dão semente e de árvores verdes com frutos. se fosses tinhas frutos e sementes para comer. poderias sentir no ar o cheiro deles. podias. mas não chegou a tua hora ainda. haverá dia e noite quando estrelas e luzeiros houver o grande e o pequeno. depois os animais. pelas águas os peixes e répteis das águas começarão de se mover e aves nascerão que voem sobre o espaço debaixo do claro da tarde. ruídos formas e volumes novos. eis que é chegado o sexto dia há sonhos aguardado o sexto dia. é dos selváticos e domésticos animais a vez e répteis hão de iniciar o seu tremendo rastejar na terra já semelhantes teus que nascerás varão e fêmea para uma longa vida de tão breve. não desesperes porém porque serei contigo. eu te abençoo debaixo deste sol te ordeno que cresças te multipliques e as galáxias habites sujeitando-as. contempla a natureza que boa ou má para ti foi inventada e vive nela. sê. agora uns seculares instantes vou descansar quase secreto."



Almeida Faria em "Rumor Branco"
Assírio & Alvim
5ª edição, Outubro de 2012
Páginas 21 e 22

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

"A Floresta Das Intensidades - Livro de Horas X" de M. G. Llansol

 

4 de Janeiro de 1991

"Faz-me sofrer não ter senão poucos iguais, nesta perspicácia inocente de ver o real sem metáfora, tal como ele é."


25 de Novembro de 1991

"Olho para um lado e para o outro, vou deslizando sobre a curva dos afectos, e apreendo as tonalidades particulares a cada encontro. Sempre o afecto me pareceu o caminho que me levaria ao íntimo do mundo ______ "



21 de Julho de 1995

" _________ hoje acordei sem saber se a Poesia tem ou não uma grande capacidade abrangente. Estou no meu convento, e sinto perfeitamente o vento. Vento puro, sem rima, pousado em cada voz: o sossego é interior, uma máquina de criar imagens a partir da luz está em movimento, e as folhas caem impressas constituindo a primeira imagem. O livro antigo, ainda com força suficiente para abrir as folhas e explodir, explode, deixando na sala, próximo da janela, uma pequena paisagem que anda pelo seu pé, e onde corre um rio."




Maria Gabriela Llansol em "A Floresta Das Intensidades - Livro de Horas X"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2025
Páginas 21, 57 e 187

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Ecrãs, Filmes & Docs: o que mais gostei em 2025

 - "24 Frames" de Abbas Kiarostami @ TvCine Edition

- "Ainda Estou Aqui" de Walter Salles @ TvCine Top

- "Ana" de António Reis e Margarida Cordeiro @ RTP2

- "Chef's Table Noodles" @ Netflix

- "Conto de Outono" de Eric Rohmer @ RTP1

- "O Desprezo" de Jean-Luc Godard @ RTP2

- "O Sul" de Victor Erice @ RTP2

- "Quatro Quartetos de T.S. Eliot" de Sophie Fiennes @ TvCine Edition

- "Uma Luz nas Trevas" de Ingmar Bergman @ TvCine Edition

Dos Dias: o que mais gostei em 2025

- Convento de Cristo (Tomar)

- Jardim das Casas Pintadas + Paço de São Miguel (Évora)

- Jardim do Paço Episcopal (Castelo Branco)

- Museu Nacional Ferroviário (Entroncamento)

- Parque do Barrocal (Castelo Branco)

- Que Livro Levarei para Pasárgada - A escolha de Maria Filomena Molder (Livro: "Finisterra" de Carlos de Oliveira) @ Livraria Linha de Sombra

- Visita guiada à colecção de monólitos do Instituto Superior de Agronomia

domingo, 11 de janeiro de 2026

Arte & Cultura: o que mais gostei em 2025

 - "A Alquimia da Luz" de Rodney Smith @ Centro Cultural de Cascais


- "Antares" de Adriana Molder @ Torreão Nascente da Cordoaria Nacional


- "Hosoe Eikoh - Order by Roses (Ba-Ra-Kei) com Yukio Mishima" @ Ochre Space


- "Mily Possoz. Uma Poética do Espaço" @ MU.SA - Museu das Artes de Sintra e MNAC


- @ Museu Cargaleiro


- "Reluctant Gardener" @ Fidelidade Arte

O que mais gostei de ler em 2025

 FICÇÃO

- "As Coisas" de Georges Perec
- "Como Animais" de Violaine  Bérot
- "Fanny Owen" de Agustina Bessa-Luís
- "Jezabel" de Irène Némirovsky
- "O Templo Dourado" de Yukio Mishima
- "O Vale da Paixão" de Lídia Jorge
- "Poética dos Cinco Sentidos - La Dame à la Licorne" de Ana Hatherly, Augusto Abelaira, Isabel da Nóbrega, José Saramago, Maria Velho da Costa e Nuno Bragança
- "Todas as manhãs do mundo" de Pascal Quignard
- "Um Artista do Mundo Flutuante" de Kazuo Ishiguro



NÃO FICÇÃO

- "As Bacantes" de Eurípides
- "Ferreira de Castro - Uma Biografia (1898-1919)" de Ricardo António Alves
- "Litoral e Planície Saloia" de José Alfredo da Costa Azevedo
- "O Género Intranquilo - anatomia do ensaio e do fragmento" de João Barrento
- "Se Eu Quisesse, Enlouquecia - Biografia de Herberto Helder" de João Pedro George



POESIA E OUTROS GÉNEROS

- "Adeus, Campos Felizes" de Rui Lage
- "Assombração [antologia]" de Jaime Rocha
- "Novas Cartas Portuguesas" de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa
- "Os Rostos do Tempo" de Maria Gabriela Llansol
- "Tal como És" de Ryokan 



BANDA DESENHADA

- "Aqui" de Richard McGuire
- "Erva" de Keum Suk Gendry-Kim
- "O Fotógrafo de Mauthausen" de Salva Rubio e Pedro J. Colombo



FOTOGRAFIA E ARTES

- "Aspectos azulejares na arquitectura ferroviária portuguesa" de Rafael Salinas Calado e Pedro Vieira de Almeida
- "Da Luz à Lucidez" de Rui Nunes e Paulo Nozolino
- "Ph. 13 - Manuela Marques"