domingo, 15 de fevereiro de 2026

"Rumor Branco" de Almeida Faria

 "uma voz existe intersticial. há trevas à tua volta e tu não és. serás um dia. por sobre este vazio orbe a luz pesa milénios em sua ansiada ausência e à superfície dos rios invisíveis o presente galopa arrepiadamente. se fosses verias que sem ti o globo é cego minha desde já assemelhada imagem. fazes falta. o mundo não está ainda completado. para ele serás demasiado alto. a escuridão é aterradora fria sem fim é desolada assim sem ti. neste hoje do princípio dos séculos não farei mais nada. o futuro continuará ao rés das águas que não são vogando. amanhã daqui a muita espera quando a claridade brotar já sobre a crosta da terra convulsiva criarei um firmamento para o qual possas olhar constantemente sua altura aspirando e as fontes serão vistas que eram por cima do firmamento do céu e pelo solo em volta separá-las-ei com grave gesto. nesses mares que durante séculos de séculos tombarão da névoa imóvel te poderás lavar purificar-te conhecer a tua face. depois haverá cores e uma tarde virá e a manhã e tudo é bom. logo ao seguinte dia o húmus se tornará das ervas que dão semente e de árvores verdes com frutos. se fosses tinhas frutos e sementes para comer. poderias sentir no ar o cheiro deles. podias. mas não chegou a tua hora ainda. haverá dia e noite quando estrelas e luzeiros houver o grande e o pequeno. depois os animais. pelas águas os peixes e répteis das águas começarão de se mover e aves nascerão que voem sobre o espaço debaixo do claro da tarde. ruídos formas e volumes novos. eis que é chegado o sexto dia há sonhos aguardado o sexto dia. é dos selváticos e domésticos animais a vez e répteis hão de iniciar o seu tremendo rastejar na terra já semelhantes teus que nascerás varão e fêmea para uma longa vida de tão breve. não desesperes porém porque serei contigo. eu te abençoo debaixo deste sol te ordeno que cresças te multipliques e as galáxias habites sujeitando-as. contempla a natureza que boa ou má para ti foi inventada e vive nela. sê. agora uns seculares instantes vou descansar quase secreto."



Almeida Faria em "Rumor Branco"
Assírio & Alvim
5ª edição, Outubro de 2012
Páginas 21 e 22