Nas ciências humanas, há dois axiomas esperançosos para o tempo de reconstrução que se reabrirá. O primeiro é o «axioma de Quarantelli». Enrico Quarantelli (1924-2017) foi um importante sociólogo norte-americano, que se especializou no estudo de reação aos desastres. As suas conclusões sublinham que as catástrofes geram mais cooperação do que conflito, avizinham as pessoas como nunca, democratizam a vida social e fortalecem a identidade comum. Há novas organizações (ad hoc ou mais estáveis) que se criam, reforçando a coesão da sociedade para uma resposta concreta e eticamente qualificada. O segundo é o «axioma de Cyrulnik». Boris Cyrulnik é um neuropsiquiatra francês, do origem judaica, que viu os pais morrer em Auschwitz e tem hoje mais de oitenta anos. A sua tese sobre o trauma é que ele, se não é certamente reversível, pode ser, no entanto, reparável. Tal implica não pretender regressar ao estado precedente, mas pacientemente passar para uma etapa nova. A ferramenta que Cyrulnik propõe é a resiliência, uma categoria que ele recupera da física. Trata-se ali da capacidade de um metal resistir a choques sem se despedaçar. Também nós humanos precisamos de resiliência para que, uma vez feridos, isso não nos retire completamente a confiança na vida, nem obstaculize para sempre a alegria de que somos herdeiros."
"O Que É Amar Um País" de José Tolentino Mendonça
Quetzal Editores
1ª edição, Agosto de 2020
Páginas 76 e 77
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