terça-feira, 14 de julho de 2026

"Presenças Reais" de George Steiner (III)

 "A linguagem não é obrigada a parar em qualquer fronteira, nem sequer, do ponto de vista das construções conceptuais e narrativas, na da morte.
Traduzidos em palavras, os processos conceptuais, o acto da imaginação, podem abolir, inverter ou confundir todas as categorias (elas próprias encarnadas na linguagem) da identidade e da temporalidade. O discurso pode, por exemplo, transformar ao longo do seu funcionamento as regras segundo as quais funciona."


George Steiner em "Presenças Reais"
Editorial Presença,
1ª edição, 1993
Página 58 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

"Presenças Reais" de George Steiner (II)

 
"Mesmo quando não recebe a hospitalidade universitária, o poeta, artista ou compositor de hoje encontra-se, como nunca antes, sob a pressão das atenções e expectativas da universidade. Conscientemente ou não, numerosos poetas - Auden conta-se entre os primeiros a ter intuído e explorado este paradoxo devastador - começam a escrever o tipo de poema que se presta às análises estruturais do college ou da universidade. O romancista introduz ambiguidades, densidades polissémicas do género que o intérprete aprecia e «ensina». Marcados pelo rasto da psicanálise, os departamentos literários e artísticos da universidade procuram os alicerces freudianos ou junguianos do quadro ou do poema. Conscientemente ou não, o criador esforça-se por prestar serviço. Há amabilidades de recepção entre o criador e o intérprete que deformam a obra. Numa medida difícil de determinar, o impulso esotérico da música, arte e literatura do século XX depende de um cálculo. Procura obter a consagração de um estudo hermenêutico universitário, e reciprocamente, a universidade escolhe aquilo que parece solicitar as suas competências exegéticas e criptográficas."


George Steiner em "Presenças Reais"
Editorial Presença
1ª edição, 1993
Páginas 43 e 44

quinta-feira, 9 de julho de 2026

"Presenças Reais" de George Steiner (I)

 "Afirma que qualquer compreensão coerente do que a linguagem é e do modo como funciona, que qualquer exame coerente da capacidade que a linguagem humana possui de comunicar sentido e sentimento assenta, em última análise, na suposição da presença de Deus. Adiante desenvolverei a tese de que a experiência do sentido estético, da literatura, das artes, da música, implica a possibilidade necessária desta «presença real».
(...)
A minha análise sustentará que a aposta no sentido do sentido, o potencial de compreensão e de resposta que existe quando uma voz humana se dirige a outra, quando nos confrontamos com o texto e com a obra de arte ou a forma musical, quer dizer, quando encontramos o outro na sua condição de liberdade, é uma aposta na transcendência."


George Steiner em "Presenças Reais"
Editorial Presença
1ª edição, 1993
Páginas 15 e 16