quarta-feira, 26 de maio de 2021

 
"Sintra, terra de encanto e de beleza, com picos altos de montanhas coroados por castelos fantásticos, a perderem-se entre as nuvens num decorativismo cenográfico; terra de fraguedos e serranias, onde a suavidade das penumbras se concerta com a alma líquida das fontes para tocar as almas da graça mística do sonho; terra de parques e jardins onde o perfume do passado se confunde com a riqueza exótica da vegetação para dar a tudo uma aparência poética de irrealidade que faz sonhar com regiões distantes e civilizações antigas; paisagem espiritual onde se ergue o perfil lendário do velho alcaçar lusitano e mouro, dentro de cujas salas, pátios e jardins há páginas de história esfumadas pela lenda que parecem surgir para nós do esmalte gritante dos azulejos, do lavrado gracioso dos pórticos, das pinturas desbotadas dos tetos.
(...)
Os penhascos verdes sobre que ela airosamente assenta são o espelho fiel da tua paisagem cujo encanto, feito de graça e de rudeza, é extraído assim da aliança caprichosa do aveludado macio dos musgos e dos arvoredos com a agressividade hirsuta dos granitos."



"Roteiro Lírico de Sintra" de Oliva Guerra
Escola Tipográfica das Oficinas de S. José de Lisboa, 1940
Página 07

quarta-feira, 5 de maio de 2021

 
"Creio, entretanto,
que não existe um final perfeito.
Na verdade, existem finais infinitos.
Ou talvez, uma vez que se começa,
só existam finais."


"os seus silêncios de palavras afiadas que me avisavam e
fustigavam -"


"O pó ainda não viera à superfície das coisas."



"Noite Virtuosa e Fiel" de Louise Glück
Relógio D´Água Editores, Janeiro de 2021
Páginas 35, 43 e 129

terça-feira, 4 de maio de 2021

Minhoca

 
"Não é triste não ser humano,
nem viver inteiramente dentro da terra é
aviltante ou vazio: é da natureza da mente
defender a sua eminência, tal como é da natureza daqueles
que caminham à superfície temer as profundidades - 
a nossa posição determina os nossos sentimentos. Ainda assim,
caminhar sobre alguma coisa não significa prevalecer sobre ela -
é mais o oposto, uma dependência dissimulada
mediante a qual o escravo completa o amo. Do mesmo modo,
a mente menospreza o que não pode controlar
e que por isso irá destruí-la. Não é doloroso regressar
desprovido de linguagem ou de visão: se, como os budistas,
recusamos deixar
inventários do ser, emergimos num espaço
que a mente não pode conceber, sendo totalmente físico, não
metafórico. Qual é a vossa palavra? Infinidade, que significa
aquilo que não se pode medir."



"Uma Vida de Aldeia" de Louise Glück
Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2021
Página 119

Março

 "O mar fustiga a costa, a marca deixada por
cada onda
varrida pela onda seguinte.
Nunca acumulação, nunca uma onda a tentar erguer-se sobre outra,
nunca a promessa de abrigo -
O mar não muda como a terra muda;
não mente.
Perguntamos ao mar o que é que me podes prometer,
e ele diz a verdade; diz apagamento."



"Uma Vida de Aldeia" de Louise Glück
Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2021
Páginas 85 e 87

segunda-feira, 3 de maio de 2021

 
"Nas mensagens atuais associadas ao usufruto da Natureza, de publicidade ou de atividades desportivas e culturais, quase sempre é transmitida uma ideia de tranquilidade, de harmonia, de paz, de felicidade. Como se a realidade fosse simples ou apenas tivesse uma face. Parece habitarmos uma realidade de fantasia, de falsidade. Um mundo amputado. Ignora-se o lado sombrio, doloroso. Poderá ser essa dimensão oculta que nos transporta para outras dimensões da condição humana, da descoberta da liberdade, do desprendimento, do despojamento."



"Caminhar oblíquo" de Duarte Belo
Museu da Paisagem
1ª edição, Março de 2020
Páginas 293 e 294
 
"O nevoeiro confere àquela paisagem uma realidade singular, apelativa. Como se o observável se transformasse em desenho, numa representação de si próprio. Há suavidade nos contornos, a visibilidade perde-se gradualmente. Vão-se revelando, a cada passo do caminhar, novos aspetos da paisagem. O silêncio parece acentuar-se. Há alguma inquietude nos lugares ocultos. A floresta é um desenho novo e complexo."



"Caminhar oblíquo" de Duarte Belo
Museu da Paisagem
1ª edição, Março de 2020
Página 211

segunda-feira, 26 de abril de 2021

 
" ... certas perguntas são feitas apenas para tornar mais explícita a ausência de resposta ..."


" Não se pergunte portanto ao poeta o que pensou ou sentiu, precisamente para não ter de o dizer é que ele faz versos."


" ... a sensibilidade das pessoas tem recônditos tão profundos que, se por eles nos aventurarmos com ânimo de tudo examinar, há grande perigo de não sairmos de lá tão cedo."


" ... a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, ..."


" A coisa mais inútil deste mundo é o arrependimento, em geral quem se diz arrependido quer apenas conquistar perdão e esquecimento, no fundo, cada um de nós continua a prezar as suas culpas, ..."




"O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago
Editorial Caminho, 14ª edição
Páginas 51, 102, 118, 220 e 282

domingo, 25 de abril de 2021

Mulheres E Árvores

 
"Quando as árvores começam a vestir-se
as mulheres começam a despir-se
Quando as árvores começam a despir-se
as mulheres começam a vestir-se"



"A Matéria Escura e outros poemas" de Jorge Sousa Braga
Assírio & Alvim
1ª edição, Março de 2020
Página 41

O Cérebro

 
"O cérebro tem dez milhões de células em contacto
umas com as outras e dez triliões de conexões

Tanta conexão
e tanta solidão"




"A Matéria Escura e outros poemas" de Jorge Sousa Braga
Assírio & Alvim
1ª edição, Março de 2020
Página 24

domingo, 18 de abril de 2021

 " Com passeios diários e desiguais, aprendi a contar pequenos
Horizontes de flora e de rua, a partir do zero ___ o início
Da manhã. Deixo uma parte em casa, e meu restante corpo
Sai, levando-me as narinas e a testa. Desce as escadas, levanta
O olhar e bebe o ar urbano ______ uma mistura agitada de estribilhos,
Principalmente. Por exemplo, as conversas repetidas, as marcas
Dos carros, os outdoors da publicidade, os cartazes que anunciam
Espectáculos. Rapidamente, a garganta se irrita, acolhendo-se
Às árvores. No Inverno, fixa-se no tronco e nos ramos. Da
Primavera em diante, as copas dão-lhe ar humano. Respirar
Tem tanto de oxigénio quanto de fotograma."




"O Começo De Um Livro É Precioso" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim, Outubro de 2003
Página 285
 " _____________ Estas árvores balouçam na sua hesitação
Mas prosseguem. Os ramos mais altos precipitam-se,
Abrem no ar pousadas. Os mais baixos ocupam. Sol não
Falta. Há apenas a curva do caminho com incidências
Drásticas na sua respiração. Sim, há ainda as concorrentes,
As sementes ininterruptas, e o incompreensível desprezo
Dos humanos. Parasceve não diz. Se o cortarem, não
Reagirá _________ « Por que não entendeis a leveza de prosseguir?»




"O Começo De Um Livro É Precioso" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim, Outubro de 2003
Página 190
 " ___ Do fim para o princípio lê-se de uma maneira;
Do princípio para o fim lê-se de outra. Se
se ler indiferentemente do princípio para o fim
E do fim para o princípio, resta-nos um imenso
Mar. Não estamos, todavia, a salvo. Apenas
Continuamos a nadar.
___ Que naufrágio é esse?
___ O dos genes, minha senhora."




"O Começo De Um Livro É Precioso" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim, Outubro de 2003
Página 120

sábado, 17 de abril de 2021

 "Mal a manhã arde, nela acendo a minha chama,
Procurando que o sopro da vida a não apague.
Escrever me chama. Por inteiro minha atenção deponho
A vossos pés__ imagens nuas ____, hoje uma casca
De árvore. A intensidade substitui o tempo, a serenidade,
O espaço, pois a luz da chama, minha nova extensão
Espiritual, corre para a casca da árvore Que escreve.
Corre e sinto-me vagabunda, num errático sem qualquer
Relação comigo, somente com a árvore que desperta
Para o profuso florescimento dos seus efeitos. É difícil 
Compreender a simplicidade emocional. A sua cor é
Quase sempre azul (mas nem sempre) e sempre
Sentada aos pés das imagens nuas ________________"




"O Começo De Um Livro É Precioso" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim, Outubro de 2003
Página 40

29 de Setembro de 2016

 
"É esplêndida a floração das anémonas-do-japão, dos cosmos coreanos e dos açafrões outonais. Este ano, eu trouxe comigo da Coreia muitas sementes de plantas para o meu jardim - sobretudo sementes de perilha ou sésamo silvestre Deulkkae, Kkaennip (em japonês, Egoma). As suas folhas têm um sabor delicioso. Envolvo nelas um pouco de arroz com pasta de miso e levo-as à boca. O aroma é magnífico. Aroma a terra, à sua profundidade e à sua ocultação. O quente do arroz combina-se numa harmonia perfeita com o picante da folha de sésamo. Há muitas receitas de Deulkkae. As folhas temperadas com molho de soja sabem muito bem. São um dos meus pratos favoritos.
Muito saborosa é também a tempura com Kkaennip. A fina e estaladiça crosta de polme encerra um aroma inebriante que se desprende na boca. No meu livro Abwesen [Ausência], escrevi:

A tempura obedece igualmente ao princípio do vazio. Não tem essa consistência pesada que é típica dos fritos em óleo da cozinha ocidental. O óleo a ferver tem por única função transformar a finíssima camada de farinha que cobre a verdura ou o marisco numa estaladiça porção de vazio. E o recheio adquire do mesmo modo uma leveza deliciosa. Quando se usa para a tempura uma folha de sésamo, como é costume na Coreia, acrescentada ao óleo a ferver, a folha dissolve-se num verde quase incorpóreo e muito aromático. Com efeito, é lamentável que ainda não tenha ocorrido a algum cozinheiro a ideia de fazer a tempura com uma folha de chá. Surgiria assim uma delícia feita de mágico aroma de chá e de vazio, ou até mesmo um delicioso prato de ausência."




"Louvor da Terra" de Byung-Chul Han
Relógio D´Água, Janeiro de 2020
Páginas 84 e 85

sexta-feira, 16 de abril de 2021

 
"O digital significa numérico. O numérico desmitifica o mundo e priva-o de poesia e de romantismo. Arrebata-lhe todo o mistério, toda a estranheza, e transforma tudo em conhecido, em banal, em familiar, em like e em idêntico. Tudo se torna comparável e, portanto, identificável. Perante a digitalização do mundo seria necessário devolver ao mundo o seu romantismo, redescobrir a terra e a sua poética, devolver-lhe a dignidade do misterioso, do belo, do sublime.
(...)
O nome latino da dedaleira é Digitalis. A palavra digital refere-se ao dedo - em latim, digitus, termo com o qual se aparenta etimologicamente também a palavra índice, que designa o dedo que se emprega sobretudo para contar. A cultura digital faz com que de certo modo o homem se atrofie até se transformar num pequeno ser com carácter de dedo."




"Louvor da Terra" de Byung-Chul Han
Relógio D'Água, Janeiro de 2020
Páginas 26 e 61
 "O tempo do jardim é um tempo do diferente. O jardim tem o seu próprio tempo, do qual eu não posso dispor. Cada planta tem o seu próprio tempo específico. No jardim cruzam-se muitos tempos específicos. Os açafrões-de-outono e os açafrões-de-primavera parecem semelhantes, mas têm um sentido do tempo completamente diferente. É espantoso como cada planta tem uma consciência do tempo muito marcada, talvez maior do que a do homem, que hoje de certo modo se tornou atemporal, pobre de tempo. O jardim torna possível uma experiência temporal intensa."




"Louvor da Terra" de Byung-Chul Han
Relógio D' Água, Janeiro de 2020
Página 22

quinta-feira, 15 de abril de 2021

 
"O homem vulgar, aquele a quem chamamos o ser humano comum, vive momentos de poesia em cada dia da sua vida; o que acontece é que não se dá conta disso, porque se em alguma ocasião improvável se detém a pensar na poesia é para a considerar pouco menos do que uma absurda piroseira para efeminados, débeis mentais e gentes ociosas incapazes de viver. 
(...)
O que faz falta é uma poesia relevante. Uma poesia intimamente relacionada com a vida real de cada ser humano; uma poesia que "crie dependência"; uma poesia tão necessária como um cigarro, o primeiro café, o jornal de cada manhã. As pessoas não querem paternalismo, nem divagações mentais, nem exibicionismo barato; querem ver a sua própria vida reflectida no que lêem. Se se lhes oferecesse uma poesia que cumprisse esse simples requisito, não só conseguiríamos que se formassem filas diante das livrarias como também algo mais, algo que tantos escritores afirmam desejar: a "humanização" dos nossos semelhantes através da literatura."




Roger Wolfe [Inglaterra/Espanha, 1962-...]
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Páginas 156 e 157

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Sempre Odiei A Subtileza

 "Voltaste a deixar
as minhas malas à porta
como um conselho subtil
de um bom amigo.

Sinceramente,
preferia ver voar
os jarros chineses da tua mãe.
Sempre odiei a subtileza
e tu sabe-lo.

Não sejas tonta.
No fim de contas
se eu me for
quem é que te trará insegurança."




Santiago Núnez Pedregosa [Espanha, ?-?]
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Página 158

Chegada

 "Feliz o homem que chega a um porto
Deixando para trás mares e tempestades,
Cujos sonhos estão mortos ou não nasceram,
E se senta e bebe na cervejaria de Bremen,
Feito o caminho, agora em paz.
Feliz o homem que é apagada chama,
Feliz o homem que é areia no estuário,
Que largou a carga e enxugou a fronte
E descansa à beira do caminho.
Não teme nem deseja nem espera,
Apenas olha fixamente o sol a pôr-se."




Primo Levi [Itália, 1919-1987] 
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Página 146

terça-feira, 13 de abril de 2021

 "Fazer amor contigo
É como beber água do mar.
Quanto mais bebo
Mais sedento fico,
Até que nada pode abrandar a minha sede
A não ser beber o oceano inteiro."




(Este é um dos "poemas de amor de Marichiko", a figura central de uma jovem japonesa que vivia em Kyoto criada por Kenneth Rexroth).
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Página 112