domingo, 3 de julho de 2016
Ítaca
"O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos."
Daniel Faria em "Das Madrugadas"
domingo, 15 de maio de 2016
O olhar descoberto
"Diz-me se
na água reconheces o rumor
adormecido nos búzios
Diz-me se o outono tem
a ver com as algas
com a incerteza das folhas
e se há um sentido oculto
no rodar das estações
Diz-me se
toda a imagem é engano
ou filha enjeitada
do fogo
Diz-me se é certo
que o tempo
é um único olhar
prolongado nos dias
se a vida é o avesso da vida
e se há morte"
José Tolentino Mendonça em "Os Dias Contados"
José Tolentino Mendonça em "Os Dias Contados"
domingo, 1 de maio de 2016
A noite abre meus olhos
"Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só."
José Tolentino Mendonça em "Estrada Branca"
José Tolentino Mendonça em "Estrada Branca"
domingo, 3 de abril de 2016
Sobre um Poema
"Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne."
Herberto Hélder (1930-2015)
Herberto Hélder (1930-2015)
domingo, 27 de março de 2016
Homem
"Eu estou sobre as florestas
verde e brilhante
pairando acima de todas
verde e brilhante
pairando acima de todas
eu, o Homem.
Eu sou órbita no cosmos,
movimento em flor,
sustentáculo sustentado.
Eu sou sol entre os astros que giram,
Eu sou sol entre os astros que giram,
eu, o Homem,
sinto-me profundamente,
sinto-me profundamente,
perto da mais alta mónada do cosmos,
eu, o seu pensamento.
A minha cabeça tem folhagem de estrelas,
de prata é o meu rosto,
eu brilho,
eu,
como Ele,
o cosmos;
o cosmos
como eu!"
Kurt Heynicke
Kurt Heynicke
domingo, 20 de março de 2016
terça-feira, 8 de março de 2016
A Caligrafia das Aves
"As aves marcam o relevo da maré
e a estenografia das horas
Mudam de estação como de idioma
e ondulam pela areia de uma seara
e a estenografia das horas
Mudam de estação como de idioma
e ondulam pela areia de uma seara
Emergem de vírgulas interiores
e anunciam uma ortografia madura
entre as linhas de continentes decalcados
a tinta impermanente
Têm uma caligrafia acidental em frente ao mar
e uma forma nasalada de dizer
meu pé, minha mãe, meu pão
Escrevem uma carta com sotaque de despedida,
uma interrogação quando podia ser a travessia."
Tiago Patrício em "O Livro das Aves"
Viagem
"Se já atingiste o conhecimento não o deixes transparecer
apreende o mundo de novo como um filósofo ioniano
prova o sabor da água e do fogo do ar e da terra
porque só eles permanecerão quando tudo tiver passado
e a viagem permanecerá embora já não seja a tua."
Zbigniew Herbert em "Escolhido pelas Estrelas"
Zbigniew Herbert em "Escolhido pelas Estrelas"
segunda-feira, 7 de março de 2016
O Encontro
"Há um encontro que julgas ter perdido,
mas ninguém te esperava e tu não sabias!"
Luís Filipe Castro Mendes em "A Misericórdia dos Mercados"
mas ninguém te esperava e tu não sabias!"
Luís Filipe Castro Mendes em "A Misericórdia dos Mercados"
sábado, 5 de março de 2016
O Círculo de Giz Caucasiano
"Qualquer poema abre um círculo
à sua volta.
Podemos ser-lhe indiferentes:
Podemos ser-lhe indiferentes:
estamos então para além do círculo.
Ou pode o poema, de algum modo
Ou pode o poema, de algum modo
(até por irritação),
chamar por nós.
Neste caso, enredamo-nos no círculo:
Neste caso, enredamo-nos no círculo:
saltar ou não?
Passar para dentro do poema,
Passar para dentro do poema,
ficar de lado
ou entrar nesse lugar feito de coisa nenhuma
de onde vêm todos os poemas?"
Luís Filipe Castro Mendes em "A Misericórdia dos Mercados"
Luís Filipe Castro Mendes em "A Misericórdia dos Mercados"
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Dentro da Vida
"Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?
Porque ninguém nos salva de não ser
Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer."
Gastão Cruz em "A Moeda do Tempo"
Gastão Cruz em "A Moeda do Tempo"
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