sábado, 31 de dezembro de 2022

O que mais gostei de ler em 2022


 FICÇÃO:

- "A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro
- "Canção Doce" de Leila Slimani
- "Depois da Chuva" de William Trevor
- "Histórias de Mulheres" de José Régio
- "Obras Completas de Maria Judite de Carvalho - Vol II: Paisagem sem Barcos + Os Armários Vazios + O Seu Amor por Etel"
- "Olive Kitteridge" de Elizabeth Strout
- "Shuggie Bain" de Douglas Stuart
- "Um cão deitado à fossa" de Carla Pais
- "Uma Solidão Demasiado Ruidosa" de Bohumil Hrabal




NÃO FICÇÃO:

- "A Chanceler: A Notável Odisseia de Angela Merkel" de Kati Marton
- "A Montanha Viva" de Nan Shepherd
- "A Religião dos Livros - Alfarrabistas, Livrarias e Livreiros" de Carlos Maria Bobone
- "As Invisíveis - Histórias Sobre O Trabalho De Limpeza" de Rita Pereira Carvalho
- "Não É Só Sangue - Uma Conversa Sobre O Ciclo Menstrual" de Patrícia Lemos
- "O Negócio da Saúde" de Bruno Maia
- "O Vegetariano" de Sandra Gomes Silva




POESIA E OUTROS GÉNEROS:

- "A Margem De Um Livro" de Rui Nunes
- "Arte Nenhuma" de Carlos Poças Falcão
- "Aves dormindo enquanto flutuam [haikus]" de Masaoka Shiki
- "Elogio da sombra" de Junichiro Tanizaki
- "Grand Herbier D'Ombres" de Lourdes Castro
- "Karl Blossfeldt - The complete published work" de Karl Blossfeldt
- "O Homem que Passeia" de Jirõ Taniguchi
- "Sob a Pele - conversas com Sara Antónia Matos" de Rui Chafes
- "Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética" de Friedrich Hölderlin

Arte & Cultura: o que mais gostei em 2022


- "Abstracto, Branco, Tóxico e Volátil" de Julião Sarmento @ Museu Coleção Berardo

- "Animal Farm" de Chou Ching-Hui @ Museu do Oriente

- "Be Fu**ing Perfect - the pursuit of excellence" @ Galeria Óriq

- "Black Light" de Margaret Watkins @ Centro Cultural de Cascais

- "Echoes of Nature" de Manuela Marques @ MNAC

- "Hugo Canoilas. Moldada na Escuridão" @ Fundação Calouste Gulbenkian

- "Last Folio" de Yuri Dojc & Katya Krausova @ Museu Coleção Berardo

- "Mirages and Deep Time" de Mónica de Miranda @ Galeria Avenida da Índia

- "Movimento Contínuo" de Filipe Romão @ MU.SA - Museu das Artes de Sintra

- "Traverser la nuit" @ MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia

Ecrãs: o que mais gostei em 2022

  • "À Procura de Vivian Maier" @ RTP2
  • "António Coimbra de Matos: O Olhar nos Outros" @ RTP2
  • "Filhos do Caos" @ RTP2
  • "Indo em Círculo" @ RTP1
  • "Na Ilha dos Gigantes" de Nuno Sá @ RTP1
  • "Os Segredos dos Chefs: A Ciência da Culinária" @ RTP1
  • "Parques Naturais de Portugal" @ Canal Odisseia
  • "Terra: Histórias da Cerâmica" @ RTP2

Filmes: o que mais gostei em 2022

  • "A Coleccionadora" de Éric Rohmer @ RTP1
  • "A Metamorfose dos Pássaros" de Catarina Vasconcelos @ RTP2
  • "Armários Vazios" de Cristina Carvalhal @ RTP1
  • "Lourdes Castro: Pelas Sombras" de Catarina Mourão
  • "O Botão de Nácar" de Patricio Guzmán
  • "O Sacrifício" de Andrei Tarkovsky
  • "Ossos" de Pedro Costa @ RTP2
  • "Poeta" de Darezhan Omirbayev @ Cinema Medeia Nimas
  • "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões" de Hirokazu Koreeda @ RTP2

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Fotografando Palavras (V)

 

Adormecia a procurar no sonho a certeza da vida.
[She fell asleep looking for the certainty of life in her dreams]



Texto: Catarina Vale
Fotografia: Paula Abreu Silva

Do projecto de Paulo Kellerman, fotografar palavras, aqui 😊

domingo, 4 de dezembro de 2022

Mais apontamentos de um Dia de Outono



Silenciosos dias, em que só estas imagens estão presentes.
- Maria Gabriela Llansol

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (I)

 "Os ramos incendeiam-se, recolhem os verdes na chama, o fogo não tem fumo."

"Procurou a sombra e encontrou quem a projectava. Procurou a luz e encontrou quem a ocupava."

"Silenciosos dias, em que só estas imagens estão presentes."

" ... queria tornar-se silêncio ... "

"Quantos fragmentos de tempo passaram neste êxtase do jardim?"

"Do interior de si à palavra não há um espaço mínimo."

"Hoje, onde quer que o silêncio me acompanhe, as diversas fases da reflexão fundem o que resta dos dias presos aos hábitos ..."



Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 29, 30, 34, 39, 54, 56, 63 e 64

sábado, 3 de dezembro de 2022

 
"É sempre a partir de dentro
que se fende a terra,

é a sede das raízes
que a abre
às chuvas."



Hugo Mujica em "Tudo o que arde morre iluminando [antologia]
Officium Lectionis Edições
1ª edição, Abril de 2022
Página 183
 
"É o vento,
sopro a sopro,
o que transfigura
as nuvens,
dá a cada uma sua forma
e a cada forma
seu instante;

sopro a sopro
esboça-se e apaga:
é o outro em cada outro
para ser ele mesmo em tudo."



Hugo Mujica em "Tudo o que arde morre iluminando [antologia]
Officium Lectionis Edições
1ª edição, Abril de 2022
Página 181

Crer

 
"Impercetível,

o vento
acaricia o arvoredo que roça,
desprende as folhas em que se solta.

Crer, orar, é palpitar o nascer
em cada filamento que vai morrendo."



Hugo Mujica em "Tudo o que arde morre iluminando [antologia]
Officium Lectionis Edições
1ª edição, Abril de 2022
Página 137

Resplendor

 "Já noite,
caminhando,

vi o instante de um relâmpago
sobre a poça de uma rua,

cerrei os olhos
e, branca e imensa, e ao mesmo tempo serena,
incendiava-se uma alba."



Hugo Mujica em "Tudo o que arde morre iluminando [antologia]
Officium Lectionis Edições
1ª edição, Abril de 2022
Página 127

Poética

 
"Um relâmpago,
na noite que dilata,
alumbra o seu próprio apagar-se"



Hugo Mujica em "Tudo o que arde morre iluminando [antologia]
Officium Lectionis Edições
1ª edição, Abril de 2022
Página 125

Leitos

 "Sopra o vento
sobre o escuro
deste inverno;

sopra e passa como um rio
que passando criara
ele próprio as suas margens.

Sempre há alguém que
se ajoelha
na noite,

alguém em quem a espera
se lhe abre alma na carne."



Hugo Mujica em "Tudo o que arde morre iluminando [antologia]"
Officium Lectionis Edições
1ª edição, Abril de 2022
Página 121

O que o abraço abarca

 "goteja o grifo
e algo da pedra vai-se na água,

morre
como se fosse humana.

procuramos reter o que no outro
se vai indo,
o que às vezes se desmorona

mas é apenas a despedida
o que o abraço abarca."



Hugo Mujica em "Tudo o que arde morre iluminando [antologia]"
Officium Lectionis Edições
1ª edição, Abril de 2022
Página 91

sábado, 26 de novembro de 2022

A Água Absorta

 
"A água absorta
pensa ou sonha?
A árvore que se inclina buscando
as suas raízes,
o horizonte,
esse fogo intocado,
pensam-se ou sonham-se?
O mármore já foi ave,
o ouro, lama,
o cristal, ar ou lágrima.
Choram o seu fôlego perdido?
Serão uma memória de si mesmos
e presos contemplam-se para sempre?
Se tu te observas, o que resta?"



María Zambrano em "Poemas"
Sr Teste Edições, Junho de 2020
Página 29

"Poemas" de María Zambrano

 
"Nem brisa, nem sombra.
Morte, porque te escondes assim?
Sai, salta, solta-te do teu abismo,
escapa-te, quem te detém?
Porque não apagas o universo com o teu
olhar?
Porque não desfazes as pedras
com a tua sombra, morte, só com a tua 
sombra,
com a tua mão nua,
com o teu rosto de estátua,
presença nua a quem nada resiste?
Ensina, mostra o teu rosto aos mundos,
que não haja mais espaço,
nem céus, nem vento, nem palavras.
Quero afundar-me no silêncio."



María Zambrano em "Poemas"
Sr Teste Edições, Junho de 2020
Página 05

domingo, 13 de novembro de 2022

"Sob a Pele" de Rui Chafes (III)

 
" Sara Antónia Matos: A propósito de proximidade, de amizade, o que é para si a intimidade?
Rui Chafes: É um espaço impartilhável. De qualquer modo, para além do espaço íntimo individual, há o espaço íntimo entre algumas pessoas. Sobre isso, penso sempre que o que se passa entre duas pessoas só a elas diz respeito; tudo o resto são opiniões, nada mais do que opiniões, e as opiniões não têm importância.
É preciso dizer que as pessoas com quem partilho valores, empatias, princípios, modos de estar e preocupações também preservam a sua intimidade. E, portanto, não só não invadem o meu espaço privado, emocional e de trabalho, como são solidárias com ele. Digamos que, sem precisar de se falar nisso, reconhecem esse impartilhável como sendo fundamental manter, por questões de dignidade, moral, ética. Além de amigas, são todas elas pessoas raras, de um mundo antigo e longínquo."


"Sara Antónia Matos: O Tolentino de Mendonça expressa essa ideia de forma muito bela: «Na verdadeira amizade estamos uns com os outros e somos uns para os outros, mantendo porém uma exterioridade: os amigos não se diluem, não se justapõem, não se substituem. [...] [A amizade] é uma forma de exposição ao outro, mas uma exposição que não quebra a reserva, que não invade a solidão.»
Rui Chafes: Considero a invasão do meu espaço insuportável e, portanto, aquilo que eu partilho com quem escolho (e que me escolhe) é tudo o resto, é esse tal mundo silencioso onde as formas se encontram, se confrontam umas às outras e fazem emergir inquietações."


"Sara Antónia Matos: A propósito de intimidade, disse que há um reduto último que não se partilha. Nem com quem se ama?
Rui Chafes: Khalil Gibran dizia: «a pessoa casa-se, partilha tudo mas não partilha o prato». É a tal barreira de que falámos anteriormente. Há limites que não podem ser ultrapassados, para que as relações entre as pessoas se mantenham, mesmo as mais próximas. A distância que assegura a intimidade tem de ser incondicionalmente preservada. Cada pessoa tem de ter o seu espaço, há sempre uma parte íntima, sua e secreta, que deve ser absolutamente protegida mesmo que partilhes a vida com alguém. Claro que deves também respeitar a parte privada da outra pessoa, não a invadindo ou devassando, mantendo uma certa distância. Quando se quebram todas as barreiras é o fim. As pessoas deviam ter isso sempre presente."


"Sara Antónia Matos: Quebrar todas as barreiras é obsceno?
Rui Chafes: Obsceno, sim. Como disse, manter as barreiras de um espaço intactas, não romper, não forçar a entrada, é de uma sabedoria imensa. Não mexer nos papéis pessoais do outro, não querer saber tudo, não exigir o significado de tudo ... Nem tudo tem de ter uma resposta e nem todas as perguntas têm de ser feitas - perguntar tudo também é obsceno. Há perguntas que não se fazem mas, para o saber, é preciso ser-se muito sábio. Isto é sabedoria e, ao mesmo tempo, a maior prova de confiança. Sabedoria e confiança andam juntas, uma leva à outra."



Rui Chafes em "Sob a Pele - conversas com Sara Antónia Matos"
Sistema Solar
1ª edição, Dezembro de 2015
Páginas 68, 69, 81 e 82

sábado, 12 de novembro de 2022

Fotografando Palavras (IV)



Toda a milésima vez é a primeira vez



Texto: Andreia Monteiro
Fotografia: Paula Abreu Silva

Do projecto de Paulo Kellerman, fotografar palavras, aqui 😊

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Apontamentos de um dia de Outono

 

"Sob a Pele" de Rui Chafes (II)

 
" Sara Antónia Matos: Isolamento que o Rui preserva e pratica acerrimamente ...
Rui Chafes: Defendo que os artistas têm de ser egoístas. Têm de criar um espaço (seja físico ou mental) de onde expulsam os outros, numa atitude quase hostil. Talvez esse esforço para criar e conservar um espaço de solidão possa ser demasiado brutal e hostil para os outros, os que rodeiam o artista, mas é desesperadamente essencial para ele. Trata-se da criação de uma «cabana» para conseguir estar isolado, ainda que umbilicalmente esteja ligado ao mundo. Outros há que o fazem através da forma mais radical, a perda, afastando-se literalmente da família e dos amigos: perdendo-os, perdendo-se no mundo ... encontrando-se na sua arte, na sua música, na sua escrita. Noutra ocasião falei-te do Glenn Gould, que se isolou completamente, num esforço radical de puritanismo, para conseguir executar as composições musicais daquela forma genial. É um caso clássico. Mas também há o caso do J.S. Bach, que tinha nove filhos ..."



Rui Chafes em "Sob a Pele - conversas com Sara Antónia Matos"
Sistema Solar
1ª edição, Dezembro de 2015
Páginas 63 e 64