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quarta-feira, 19 de julho de 2023

"Árvores" de António Ramos Rosa

 
"O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1176

quarta-feira, 15 de julho de 2020

"A existir um tema central neste livro, seria o de que os benefícios da natureza funcionam ao longo de uma curva dose/resposta. Tim Beatley, director do Projecto das Cidades Biófilas da Universidade da Virgínia, tem promovido o conceito de «pirâmide da natureza». Trata-se de uma listagem recomendada para suprir as necessidades humanas relativas à natureza, o que me parece uma ideia genial.
(...)
Inspirado pela omnipresente pirâmide alimentar, Beatley coloca na base as interacções diárias com a natureza circundante que nos ajudam a reduzir a ansiedade, encontrar um foco de atenção e aliviar a fadiga mental. Incluem-se aqui os pássaros, as árvores e as fontes dos nossos bairros, os nossos animais de estimação e plantas domésticas, o consumo diário de vegetais, o tratamento paisagístico naturalista e a arquitectura pública e privada que permite obter luz natural, ar fresco e pedaços de céu azul.
(...)
Ao subirmos na pirâmide, encontramos as visitas semanais aos parques naturais e aos cursos de água, ou seja, aos lugares onde os sons e incómodos da cidade diminuem de intensidade e onde deveríamos, de acordo com a recomendação finlandesa, permanecer pelo menos uma hora por semana. Poder-se-ão incluir aqui, se tivermos sorte, as áreas verdes citadinas maiores e mais selvagens ou os parques regionais não muito longínquos.
Mais acima ainda na pirâmide, encontramos os lugares cujo acesso requer mais de nós: as excursões mensais a florestas ou outras áreas naturais que permitam o descanso e o escapismo, na linha do que o japonês Qing Li recomenda - um fim de semana por mês - para o nosso sistema imunitário.
No topo da pirâmide, encontramos as raras, mas essenciais, doses de natureza selvagem, doses essas que, segundo Beatley e cientistas como David Strayer, da Universidade do Utah, nos são necessárias uma ou duas vezes por ano, em intensas interacções de vários dias. Como vimos já, estas viagens podem reorganizar-nos por dentro, catalisando os nossos sonhos e esperanças, enchendo-nos de espanto e espírito de entreajuda e tranquilizando-nos quanto ao lugar que ocupamos no universo. Poderão existir alturas específicas em que a permanência na natureza selvagem nos seja mais benéfica, tal como durante a tumultuosa formação de identidade na adolescência ou a seguir a um luto ou um trauma."



"A Natureza Cura" de Florence Williams
Bertrand Editora
1ª edição, Fevereiro de 2018
Páginas 265 e 266

sábado, 11 de julho de 2020

" ... praticamente qualquer molengão, adepto da vida em frente ao ecrã, pode passar algum tempo algures no meio de umas quantas árvores. Se há um homem que pode mostrar como é que a terapia da floresta funciona, esse homem é Yoshifumi Miyazaki. Este antropólogo biológico, vice-director do Centro do Ambiente, da Saúde e das Ciências de Campo da Universidade de Chiba, na periferia de Tóquio, acredita que, em virtude de os seres humanos terem evoluído na natureza, é nela que nos sentimos mais confortáveis, mesmo que nem sempre tenhamos consciência disso.
Neste ponto, Miyazaki é um proponente da teoria popularizada por E.O.Wilson, o entomologista de Harvard amplamente reverenciado: a hipótese da biofilia. Esta teoria foi, em parte, apropriada pelos psicólogos ambientais naquilo que, por vezes, se designa de Teoria da Redução do Stress ou Teoria da Restauração Psicoevolucionista. Não foi Wilson quem, na realidade, cunhou o termo «biofilia»; essa honra deve ser atribuída ao psicólogo social Erich Fromm, que o descreveu em 1973 como «o amor apaixonado pela vida e por tudo o que está vivo; é o desejo de crescer ainda mais, podendo ser encontrado numa pessoa, numa planta, numa ideia ou num grupo social».
Wilson desenvolve a ideia com maior precisão, situando-a no mundo natural e identificando «a natural ligação emocional dos seres humanos aos outros organismos vivos» como uma adaptação evolutiva que nos ajudou não só a sobreviver, mas também a alargar os limites da realização humana. Apesar de não terem sido encontrados quaisquer genes relacionados com a biofilia, é bem sabido - ironicamente, através de alguns estudos da biofobia - que, mesmo hoje em dia, os nossos cérebros respondem de modo inato e veemente aos estímulos naturais.
(...)
A hipótese da biofilia postula que os elementos pacíficos ou acolhedores da natureza nos ajudaram a recuperar a serenidade de espírito, a clareza cognitiva, a empatia e a esperança. Quando o amor, o riso e a música não estavam por perto, havia sempre um pôr do Sol. Os seres humanos mais sintonizados com os estímulos da natureza eram aqueles que sobreviviam e transmitiam estes traços à geração seguinte.
(...)
O diálogo que se estabelece entre o cérebro e a natureza não é propriamente uma novidade, embora estejamos menos conscientes do crescente fosso entre o mundo em que os nossos sistemas nervosos se desenvolveram e o mundo em que vivem actualmente. Costumamos enaltecer a elasticidade dos nossos cérebros, mas essa elasticidade tem limites. Como Miyazaki explica, «ao longo da nossa evolução, passámos 99,9 por cento do tempo na natureza. A nossa fisiologia ainda está adaptada a esse meio. Durante a vida quotidiana, podemos obter uma sensação de conforto se os nossos ritmos estiverem sincronizados com os ritmos do meio envolvente.
(...)
Para provar que a nossa fisiologia reage a contextos ambientais diferentes, Miyazaki tem levado centenas de sujeitos de investigação para os bosques desde 2004. Ele e o seu colega Juyoung Lee, também então da Universidade de Chiba, descobriram que as caminhadas de lazer pelos bosques, comparadas com as caminhadas urbanas, provocam uma descida de 12 por cento nos níveis de cortisol. Mas não foi tudo. Registaram uma descida de sete por cento na actividade do sistema nervoso simpático, de 1,4 por cento na pressão arterial e de seis por cento no ritmo cardíaco. Nos questionários psicológicos, registaram também melhores disposições e menores níveis de ansiedade."



"A Natureza Cura" de Florence Williams
Bertrand Editora
1ª edição, Fevereiro de 2018
Páginas 31 a 34

domingo, 5 de julho de 2020

"A dificuldade dos seres humanos em compreender as árvores tem acima de tudo uma causa: as árvores são mesmo extremamente lentas. A infância e juventude de uma árvore têm uma duração dez vezes superior às nossas, e a sua longevidade é no mínimo cinco vezes maior que a nossa. Movimentos activos, como, por exemplo, a foliação ou o crescimento de rebentos, exigem semanas e meses. É por isso que as árvores parecem seres rígidos, que pouco mais se mexem que pedras. O rumorejar das copas ao vento, o crepitar de hastes e ramos quando se baloiçam, sons que fazem com que a floresta pareça ter vida, tudo isso não passa de um conjunto de movimentos passivos, que aliás até são penosos para as árvores. Não é portanto de admirar que muita gente à nossa volta não veja nas árvores mais do que objectos."



"A Vida Secreta das Árvores" de Peter Wohlleben
Editora Pergaminho
1ª edição, Junho de 2016
Página 230

domingo, 21 de junho de 2020

"Voltemos à questão das raízes enquanto parte mais importante de uma árvore. Provavelmente é aqui que reside algo a que poderíamos chamar de cérebro da árvore. Cérebro? Não estaremos já a exagerar um pouco? É possível que sim, mas sabendo que as árvores conseguem aprender e por conseguinte guardar experiências, então deve existir um lugar adequado para isso no interior do organismo. Não sabemos onde fica, mas a verdade é que as raízes são neste contexto as melhores candidatas.
(...)
Até aqui era facto indisputado que a raiz controlava todas as actividades quimicamente, o que não é nada de extraordinário, já que também no ser humano muitos processos são regulados por neurotransmissores. As raízes assimilam substâncias, transportam-nas, levam em troca produtos da fotossíntese aos seus parceiros fúngicos e conduzem inclusivamente substâncias de alerta até às árvores vizinhas. Mas dizer que se trata de um cérebro ... De acordo com o nosso entendimento, isso pressupõe processos neuronais, os quais incluem, além de neurotransmissores, também impulsos eléctricos. Isto é algo que somos capazes de medir já desde o século XIX. Há muitos anos que os cientistas mantêm um debate aceso. Será que as plantas conseguem pensar? Será que têm inteligência?
Frantisek Baluska, do Instituto de Botânica Celular e Molecular da Universidade de Bona, partilha com colegas a opinião de que nas extremidades das raízes se encontram estruturas que se assemelham ao cérebro. Juntamente com a transmissão de sinais, existem vários dispositivos e moléculas semelhantes ao que é possível encontrar nos animais. Ao avançar, tacteando o solo, a raiz consegue ir recolhendo estímulos. Os investigadores medem sinais eléctricos, processados numa zona de transição, conduzindo a mudanças de comportamento. Quando as raízes se deparam com substâncias tóxicas, pedras impenetráveis ou zonas molhadas, analisam o local e transmitem as mudanças necessárias à zona de crescimento. Esta altera por sua vez a direcção, desviando os rebentos dos locais críticos no subsolo. Se a partir disto se pode deduzir a existência de inteligência, capacidade de memória e emoções é actualmente posto em causa pela maioria dos investigadores botânicos. Estes ficam agitados, entre outras coisas, com a comparação dos resultados com o mesmo tipo de situações nos animais, o que, em última análise, ameaça dissolver as fronteiras entre plantas e animais.
E qual seria o problema? Viria algum mal ao mundo por isso?
A separação entre plantas e animais é afinal de contas arbitrária e baseia-se no tipo de alimentação. As plantas realizam a fotossíntese e os animais comem outros seres vivos. No fundo, as grandes diferenças existem apenas no período de tempo que as informações levam a ser processadas e convertidas em acções. Mas será que os seres mais lentos têm automaticamente menor valor que os mais rápidos? Por vezes suspeito que seríamos obrigados a ter maior consideração por árvores e outras vidas verdes se se estabelecesse sem contestação o quão parecidas são em muitas coisas com os animais."



"A Vida Secreta das Árvores" de Peter Wohlleben
Editora Pergaminho
1ª edição, Junho de 2016
Páginas 87 a 89

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Silêncio natural

"Com níveis de ruído tão elevados em toda a parte, a maioria das pessoas já não tem oportunidade de desfrutar de sons reparadores da paz e tranquilidade. O silêncio natural tem sido apontado como um dos recursos mais ameaçados do planeta.

O silêncio é considerado um bem tão precioso, que o Congresso dos Estados Unidos da América e o Departamento dos Parques Nacionais emitiram uma ordem de protecção sobre o silêncio. No centro da Hoh Rain Florest, no Parque Nacional Olímpico do Estado de Washington, há uma pequena pedra vermelha que marca «uma polegada quadrada de silêncio», o ponto central de uma campanha para criar um local totalmente isento de ruído produzido pelo homem.
É difícil imaginar um lugar mais tranquilo. O parque possui algumas das maiores florestas tropicais temperadas do hemisfério ocidental. É um litoral longo e selvagem, com montanhas cobertas de neve e vales profundos. É o lugar mais silencioso da América e um dos mais intocados e ecologicamente diversificados. Espera-se com a campanha que, ao escutarmos uma polegada quadrada de silêncio, aprendamos a ouvir verdadeiramente o nosso ambiente e a valorizar novamente o silêncio natural.

É claro que o silêncio na natureza não significa sempre silêncio total. Quando ficamos livres do ruído humano, temos a oportunidade de escutar sons que apenas a natureza proporciona.

No Japão, de modo a ajudar a combater a poluição sonora, o Ministério do Ambiente gravou e catalogou uma centena de sons japoneses oficiais. Entre estes, está o agradável restolhar da floresta de bambu de Sagano, quando o vento passa por entre ela. Esta floresta é uma das paisagens sonoras mais pacíficas, e propícias a meditação, que pode ser encontrada no mundo, no entanto, está apenas a meia hora do centro agitado e ruidoso de Quioto.
O projecto também preservou o rugido da água das cataratas de Shõmyõ, a queda-d'água mais alta do Japão; o som apressado do rio Chigamigawa, em Kagoshima; as canções dos pequenos pássaros, em Enrei, Okaya; e os chamamentos dos pássaros selvagens no lago situado no sopé do monte Fuji.
Foram também gravados o restolhar dos pinheiros de Noshiro, o vento nos canaviais na foz do rio Kitakami, o zumbido das cigarras no templo da montanha Yamadera, que inspirou Matsuo Bashô a escrever, no século XVII, o seu famoso haiku:

Silêncio
O som das cigarras
Penetra as rochas

Se houvesse um som natural que pudesse preservar para sempre, qual seria?

Na língua japonesa, existem muitas onomatopeias para os sons da natureza:

shito shito: o som de chuva ligeira

zã zã: o som de muita chuva

kasa kasa: o som suave das folhas debaixo dos pés

gasa gasa: o restolhar forte dos ramos, balouçando ao vento

hyu hyu: o som do vento a soprar

goro goro: o estrondo do trovão

saku saku: o ranger da neve debaixo dos pés



"Shinrin-Yoku: A Arte Japonesa da Terapia da Floresta" de Dr. Qing Li
Editora Nascente, Abril de 2018
Páginas 37 e 38