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domingo, 17 de outubro de 2021

Sintra Azul-Lunar

 "sim
perguntas-me
e eu respondo-te
querida deusa
sim
é disto que eu gosto
de ser o teu primeiro animal nocturno
de caminhar entre as nuvens da madrugada
pelas ruas desertas
quando o vento açoiteia as folhas de outono

sim
gosto de ser espreitada pelos espíritos da montanha
ocultos nos seus tronos de muros e heras
enquanto eu cantarolo
passando sem temor
sobre o chão molhado pelas lágrimas de uma princesa de névoa

sim
gosto do meu jardim selvagem e das rosas
que se abrem na madrugada para contemplarem diana
banhada pelo luar do solstício de inverno
como na pintura de uma fada do jardim epicureano

sim
gosto deste silêncio e deste assombro só para mim
de ouvir as vozes dos anjos que em coro celebram
num templo perdido no bosque sagrado
meu destino de ser o poeta das tuas luas
ó sintra azul-lunar

gosto também   meu irmão
sim
da tua mística luz eterna
de ti
que escreveste no aparente silêncio das pedras
a dor escultural da tua busca interior
por um diálogo entre o homem
deus
e a natureza

sim
confesso
gosto das coisas que vivem na penumbra
deste aprender contigo deusa querida
que a vida não acaba com a mera morte
e que o eco das palavras nos teus ventos circulares
ressoará em todas as estações
no ouvido atento do jovem coração
e suas naturais sezões

adianto mesmo   amor
sim
que dentro de ti serei eterno
como a aura que circunda teu rosto verde
e se revela sem mácula ao luar
quando te abraço
no leito aberto das
eras e lembranças escritas no teu corpo."



"Selenographia in Cynthia" de Jorge Telles de Menezes
Hugin Editores
1ª Edição, Agosto de 2003
Páginas 33 e 34

Cynthia

 
"cynthia céltica    cynthia romana
moura e nórdica
chynthia eterna
de todos os que se podem comover
perante as tuas árvores os teus muros as tuas pedras
os riachos as tuas fontes
cynthia o teu ar puro da montanha
em vento do mar veloz
dos palácios incrustados na tua verde nuvem
cynthia dos místicos
cynthia pagã adorando a lua
cynthia de antónio nobre dos noivos desvairados ao luar
cynthia de soares dos passos de alta vai a lua
cynthia de camões partindo para a índia
oh fresca serra de sintra
cynthia da fonte dos amores no santuário feteira
cynthia dos monges dos conventos-tabas
japão aqui oriente aqui
plano em horizonte laranja
ao fundo o mar de prata cintilante
em frente um maciço eruptivo
mons lunae tu celta étimo da lua hárpica cynthia
de uma janela de casa te vejo
oh criação do meu espaço poético
em cima antes do céu os castelos
ruínas mouriscas da pena de um rei artista
e ao longo da floresta encantada
oh rituais sagrados e eternos
oh clareira impenetrável de fetos
oh megalito oh sacerdotes
oh magos oh músicos
oh druídico poeta
o vosso cântico celebra
caminhos de paz
na face de gaia."



"Selenographia in Cynthia" de Jorge Telles de Menezes
Hugin Editores
1ª Edição, Agosto de 2003
Páginas 31 e 32

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Painel

 "E a torre do Bugio e a aparição do mar!
Dum lado, a Caparica, esse areal infindo,
Que é belo percorrer, molhando os pés descalços
Na espuma toda em flor, branca de neve, ao sol!
E do outro lado, Sintra,
Serra que foi da lua,
Onde os olhos se alongam dos que partem
No convés dum navio entregue ao vento e à sorte.
E nela vão deixando angústias e tristezas,
Que em camadas de saibro e pedra se convertem,
E são como esculturas de saudades,
Erigidas, no espaço eternamente."



(De Teixeira de Pascoaes, Excerto do poema Painel)