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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Aquilo Que Sinto

"Tenho tentado, nestes dias, dizer-me que aquilo que sinto não é muito importante. É o que tenho lido agora em vários livros: aquilo que sinto é importante, mas não é o centro de tudo. Talvez eu veja que é assim, mas não acredite nisso tão profundamente como seria necessário para fazer agir em conformidade. Queria ser capaz de acreditar mais profundamente.
Seria um grande alívio. Não teria de pensar o tempo todo naquilo que sinto, nem de estar sempre a tentar controlá-lo, com todas as complicações e consequências daí decorrentes. Não teria de passar o tempo todo a tentar sentir-me melhor. A verdade é que, se não acreditasse que aquilo que sinto é tão importante, não me sentiria provavelmente tão mal, nem me esforçaria tanto por me sentir melhor. Não teria de dizer: Oh, sinto tanta vergonha, é como se aqui fosse o fim de tudo para mim, nesta sala de estar escura, a altas horas da noite, com a rua escura lá fora, com a luz dos candeeiros de rua lá em cima, e sinto-me tão só, com a casa toda adormecida, sem encontrar reconforto seja onde for, tão só aqui, sem mais ninguém, nunca conseguirei sossegar o suficiente para adormecer, nunca serei capaz de adormecer, nem de aguentar o dia de amanhã, não aguento mais, já não aguento viver, nem um minuto mais que seja.
Se acreditasse que aquilo que sinto não é o centro de tudo, aquilo que sinto não seria o centro de tudo, mas só uma coisa entre muitas, um aspecto lateral, e seria capaz de ver e prestar atenção a outras coisas igualmente importantes, e sentiria assim algum alívio.
Mas é curioso que vejas que uma ideia seja absolutamente verdadeira e acertada e, apesar de tudo, não acredites nela com a profundidade bastante para agires em conformidade. Por isso, continuo a agir como se os meus sentimentos fossem o centro de tudo, e eles continuam a fazer com que eu acabe aqui, a altas horas da noite, junto à janela da sala de estar. O que é diferente, agora, é que tenho a seguinte ideia: a ideia de que em breve deixarei de acreditar que os meus sentimentos são o centro de tudo. O que é um reconforto real para mim, porque, se desesperas de ser capaz de continuar, mas, ao mesmo tempo, te dizes que o teu desespero talvez não seja muito importante, então ou deixas de te sentir o desespero, ou continuas a desesperar, mas ao mesmo tempo que começas a ver como também o teu desespero talvez se torne um aspecto lateral, uma coisa entre muitas outras."



"Contos Completos" de Lydia Davis
Relógio D' Água Editores, Julho de 2012
Páginas 238 e 239

quarta-feira, 4 de março de 2020

A Mãe

"A rapariga escreveu um conto. - Mas era muito melhor que escrevesses um romance - disse a mãe. A rapariga construiu uma casa de bonecas. - Mas era muito melhor que construísses uma casa de verdade - disse a mãe. A rapariga fez uma almofada pequena para o pai. - Mas uma manta fazia mais falta - disse a mãe. A rapariga cavou uma pequena cova no jardim. - Mas era muito melhor teres cavado uma grande cova - disse a mãe. A rapariga cavou uma grande cova e deitou-se a dormir lá dentro. - Mas era muito melhor que nunca mais acordasses - disse a mãe."


"Contos Completos" de Lydia Davis
Relógio D' Água Editores, Julho de 2012
Página 95

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Máscara

"Um homem com uma máscara de gás na cara.
O rosto disforme. Como se fosse um monstro.
Ele faz depois os gestos de um chimpanzé. Põe as
mãos curvadas e simula os pequenos saltos e
movimentos do chimpanzé.
O plano abre-se. Vemos para quem ele está
a fazer aquilo. É para uma mulher. Uma mulher
muito velha. Moribunda; ligada a várias máquinas
e com soro a entrar no braço. Mesmo assim,
a velha mulher sorri, primeiro; depois ri, ri muito,
não consegue parar de rir. Só a vemos a rir, como
se tivesse perdido o controlo."
 
Gonçalo M. Tavares  em "Short Movies"