sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Saudade

"Há,
em todas as canções do vento,
um refrão que diz que nunca mais encontrarei
a grande porta do teu amor.
Quando aí batia,
com três pancadas secas que já não se ouviam
um pouco além,
eram outros os anos,
outros os cristais de comovida arte,
contemplados por Deus.

Há,
em todas as canções do vento,
um grito,
um lamento de anjos que partiram para sempre,
deixando amargas liras e a saudade de te ver
ainda,
num século de doces tardes."

José Agostinho Baptista  em "Agora e na Hora da Nossa Morte"

quarta-feira, 16 de novembro de 2016


"Há poetas que têm a alma repleta de perfumes e de flores, que olham a vida como uma aurora do céu; outros não têm mais que sombras, mais do que amargura e cólera; há pintores que vêem tudo azul, outros vêem tudo amarelo ou negro. Cada um de nós tem um prisma através do qual vê o mundo ..."

Gustave Flaubert  em "Novembro"

terça-feira, 15 de novembro de 2016

sábado, 12 de novembro de 2016


"Se vivi momentos de entusiasmo, devo-os à arte; e no entanto, que vaidade é a arte! querer pintar o homem num bloco de pedra ou a alma em palavras, os sentimentos em sons e a natureza numa tela envernizada ..."

Gustave Flaubert  em "Novembro"

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

"Nunca gostei de horas fixas, de uma existência de relógio, onde tudo é organizado de antemão, durante séculos e gerações. Essa regularidade pode decerto convir à maioria, mas para a pobre criança que se alimenta de poesia, de sonhos e de quimeras, é despertá-la constantemente desse sonho sublime, é não lhe conceder um momento de repouso, é asfixia-la na nossa atmosfera de materialismo e de bom senso, que a horroriza e lhe repugna."

Gustave Flaubert  em "Novembro"

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Também gostava - e é uma das minhas mais ternas e deliciosas recordações -, de contemplar o mar, ver as vagas espumar umas sobre as outras, a onda quebrar-se em espuma, alongar-se sobre a praia e bramir ao retirar-se sobre as pedras e as conchas.
Corria pelos rochedos, pegava na areia do oceano e deixava-a escorrer ao vento por entre os dedos, molhava algas e aspirava a plenos pulmões o ar salgado e fresco do oceano, que nos enche a alma de tanta energia, de tão vastos e poéticos pensamentos; olhava a imensidão, o espaço, o infinito, e a minha alma perdia-se diante daquele horizonte sem limites."

Gustave Flaubert  em "Novembro"

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Um poema de Ana Hatherly

"Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra

Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado

Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde

Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado."

in A Idade da Escrita, Ed. Tema, 1998

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Um poema de Albano Martins


"A teu lado viajo.
Contigo navego.
Remos são as palavras 

que te digo e escrevo.
Âncoras de ternura
com elas compomos
mastros de espuma.
Barcos é o que somos."

In Sob os Limos, 1986
" ... sinto que as minhas ambições de fraternidade se adequam mais a amar a humanidade, a tornar-me irmão da massa, do que a amar o indivíduo, mesmo que esse indivíduo seja de facto meu irmão."

Afonso Reis Cabral  em "O Meu Irmão"

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

 
"Eleva-te acima de qualquer altura;
desce mais fundo que qualquer profundidade;
concentra em ti todas as sensações das coisas criadas;
da Água, do Fogo, do Seco e do Húmido.
Pensa que te encontras simultaneamente em toda a parte:

na terra, no mar e no céu;
pensa que não nasceste nunca, que és ainda embrião:
jovem e velho, morto e além da morte.
Compreende tudo ao mesmo tempo
- os tempos, os lugares, as coisas:
as qualidades e as quantidades."
 
Hermes Trismegistos

domingo, 16 de outubro de 2016

Um Dia de Sol

 
"Eu amo as coisas que as crianças amam,
Mas em compreensão funda, acrescida,
Que eleva a minha alma, de anelante,
Sobre aqueles onde inda dorme a vida
 
Tudo o que é simples e é brilhante,
Despercebido à mais aguda mente,
Com infantil e natural prazer
Faz-me chorar, orgulhosamente.
 
Eu amo o sol com o seu brilho intenso,
O ar, como se pudesse abraçar
Com minha alma sua vastidão,
Embriagado de tanto o olhar.
 
E amo os céus com tal alegria
Que me faz de minha alma admirar,
Uma alegria que nada detém,
Uma emoção que não sei controlar.
 
Aqui estendido deixem-me ficar
Diante do sol, da luz absorvida,
E em glória deixem-me morrer
Bebendo fundo da taça da vida;
 
Absorvido no sol e espalhado
Por sobre o infinito firmamento
Como gotas de orvalho, dissolvido,
Perdido num louco arrebatamento;
 
Misturado em fusão com toda a vida,
Perdido em consciência, impessoal,
Fico parte da força e da tensão,
Pertença duma pátria universal;
 
E, de modo estranho e indefinido,
Perdidos no Todo, um só vivente,
Essa prisão a que eu chamo a alma
E esse limite a que chamo mente."
 
 
Alexander Search
In 'Poesia' , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999

sábado, 24 de setembro de 2016

"As montanhas, como deuses, bebem água directamente das nuvens. E molham-se como deuses. Mas nada interessa, ainda que à nossa volta as nuvens entreguem um abraço ao cume dos montes."

Afonso Reis Cabral  em "O Meu Irmão"