quinta-feira, 26 de março de 2020

"Os visionários, aqueles que têm necessidade de luz, são afastados, postos a ridículo e tratados como loucos. Mas estas raras almas resistem em plena vigília. Elas têm um desejo secreto de vida espiritual, de ciência, de progresso e lamentam-se, desoladas, no meio dos apetites mais grosseiros e dos ávidos possuidores de bens materiais. As trevas condensam-se e a dúvida tortura estas almas inquietas, enfraquecidas pela angústia. À sua volta, o cinzento ganha espessura e, por medo ou por desespero, lançam-se na mais negra noite."



Wassily Kandinsky  em "Do Espiritual Na Arte"
Publicações Dom Quixote
11ª edição, Setembro de 2017
Página 31

Ao crepúsculo

"O crepúsculo invade o jardim do mosteiro,
as sombras das árvores crescem.
De regresso a casa, os lenhadores cantam,
do fundo da floresta, os monges respondem.
Entre as flores, os pássaros bebem gotas de orvalho,
no bosque de bambus, alguém toca flauta.
Não, não sou ainda um velho,
ao meu coração compraz a vida de ermita."

Wang Wei

segunda-feira, 23 de março de 2020

"Essa é uma das coisas que defendemos - disse o homem. - 
Trazer de novo dignidade e significado à vida através do trabalho. Hoje em dia, a grande maioria das pessoas detesta o seu trabalho. É por isso que a arte e as profissões são tão importantes. Até os passatempos são importantes. Tu tens algum passatempo?"


Iris Murdoch  em "O Sino"
Publicações Europa-América
Página 19
"Toda a obra de arte é filha do seu tempo e, muitas vezes, a mãe dos nossos sentimentos.
Cada época de uma civilização cria uma arte que lhe é própria e que jamais se verá renascer. Tentar ressuscitar os princípios da arte dos séculos passados só pode conduzir à produção de obras abortadas.
Assim como é impossível fazer reviver em nós o espírito e as formas de sentir dos antigos Gregos, todos os esforços tentados no sentido de aplicar os seus princípios - por exemplo, no domínio da plástica - apenas levarão ao aparecimento de formas semelhantes às gregas. A obra assim produzida jamais possuirá uma alma.
(...)
Anteriormente, dissemos que a arte é filha do seu tempo. Uma arte assim concebida apenas pode reproduzir o que na atmosfera do momento é já um dado adquirido. Esta arte, que não contém em si mesma qualquer potencial futuro, que é um mero produto do tempo presente, e que jamais conceberá um amanhã, é uma arte castrada. Tem uma duração efémera e, privada da sua razão de ser, morre quando se altera a atmosfera que a gerou."



Wassily Kandinsky  em "Do Espiritual Na Arte"
Publicações Dom Quixote
11ª edição, Setembro de 2017
Páginas 21 e 25 

Campos De Évora

"Ligados por cordas vegetais
viviam a arte dos bosques."


João Miguel Fernandes Jorge  em "a pequena pátria"
Editorial Presença, 2002
Página 50

sábado, 14 de março de 2020

"Pensar que nesta vida as coisas dela hão-de durar sempre num estado é pensar no escusado, antes parece que ela anda sempre em redondo, digo, de redor: a Primavera persegue o Verão, o Verão o Estio, o Estio o Outono, e o Outono o Inverno, e o Inverno a Primavera, e assim torna o tempo nesta roda contínua; só a vida humana corre para seu fim ligeira mais que o vento, sem esperar renovar-se senão na outra, que não tem termos que a limitem."


"Dom Quixote de la Mancha" de Miguel de Cervantes
Publicações Dom Quixote
1ª edição, Abril de 2015
Página 789

terça-feira, 10 de março de 2020

"Desde há muito que me considerava um organismo cada vez mais susceptível de ser disciplinado pela minha própria força de vontade. É bem verdade que já tivera alguns fracassos, mas não me deixava desesperar.
(...)
O prazer está em nos podermos dominar, em nos tornarmos num dócil mecanismo comandado pelo cérebro.
A felicidade para o homem está apenas nessa capacidade de autodomínio e no reconhecimento da sua própria natureza. Poucos são porém os que chegam alguma vez a reconhecer a sua natureza. Ao deixar-se dominar pelos sentimentos, ao deixar-se arrastar, sem luta, pela tendência normal do espírito para se afundar cada vez mais nas trevas, o homem mergulha no desespero. Onde domina a razão não há lugar para o desespero, disse eu, «Quando caio nesse estado em que perco totalmente o dom da razão tudo em mim é desespero». Mas raramente chegava a esse ponto. A vida é sempre esgotante enquanto se permanece dentro dos seus limites, e o prazer está em lhe resistir racionalmente. A maior parte das pessoas é dominada pelos sentimentos, não pela razão, e por isso a maior parte delas mergulha no desespero, não faz uso da razão, «A razão a que aludo», disse eu, «não tem todavia qualquer base científica».


Thomas Bernhard  em "Perturbação"
Relógio D'Água Editores, 1990
Página 51

Hino Órfico À Noite (Grécia)

"Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo."


"Poesia Toda" de Herberto Helder
Assírio & Alvim, Março de 1996
Página 196

quarta-feira, 4 de março de 2020

A Mãe

"A rapariga escreveu um conto. - Mas era muito melhor que escrevesses um romance - disse a mãe. A rapariga construiu uma casa de bonecas. - Mas era muito melhor que construísses uma casa de verdade - disse a mãe. A rapariga fez uma almofada pequena para o pai. - Mas uma manta fazia mais falta - disse a mãe. A rapariga cavou uma pequena cova no jardim. - Mas era muito melhor teres cavado uma grande cova - disse a mãe. A rapariga cavou uma grande cova e deitou-se a dormir lá dentro. - Mas era muito melhor que nunca mais acordasses - disse a mãe."


"Contos Completos" de Lydia Davis
Relógio D' Água Editores, Julho de 2012
Página 95

segunda-feira, 2 de março de 2020

"Como desejam os seres humanos o fim das suas vidas? Richard Smith, diretor do British Medical Journal, citou, num editorial da revista, os seguintes doze elementos de uma "boa morte":
- saber e compreender o que se pode esperar;
- conservar o controlo sobre o acontecimento;
- obter a segurança da salvaguarda da dignidade e da esfera privada;
- tratamento adequado das dores e de outros sintomas;
- dispor da opção de escolher onde morrer (em casa ou noutro lugar);
- dispor de todas as informações necessárias;
- dispor de todo o apoio espiritual e emocional;
- a assistência do tipo Hospice em toda a parte, e não só no hospital;
- poder decidir quem deve acompanhar o seu final;
- poder decidir com antecedência os desejos que quer ver respeitados;
- ter tempo para a despedida;
- poder partir quando chegar o momento e não ter de sofrer um prolongamento absurdo da vida."


Hans Küng  em "Uma Boa Morte"
Relógio D' Água Editores, Dezembro de 2017
Página 83
"No seu novo livro (escrito em parceria com Andreas Heller), In Ruhe sterben [Morrer em Paz] - Munique, Pattloch, 2014 -, Gronemeyer deixa claro "o que desejamos e o que a medicina actual não pode oferecer": "Poderíamos ter a impressão de que, especialmente onde a medicina paliativa prevalece, se impõe um caminho de perfeição, juntamente com uma crescente frieza simultânea. Penso que, se nos encontramos no caminho para uma 'morte com controlo de qualidade', estamos, então, no caminho errado. [...] A medicina pode oferecer muitas coisas e está a adquirir uma importância crescente no lidar com o fim da vida, mas devemos, ao mesmo tempo, insistir veementemente em que a medicina não pode tudo e em que as questões fundamentais associadas ao fim da vida - tais como: 'Que será de mim? A quem devo perdoar ainda alguma coisa? A quem devo pedir perdão?' - excedem o quadro da medicina. O meu desejo seria uma medicina paliativa, até mesmo no caso do Movimento Hospice, que se autolimitasse e declarasse claramente o que pode e o que não pode fazer."


Hans Küng  em "Uma Boa Morte"
Relógio D' Água Editores, Dezembro de 2017
Páginas 75 e 76

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

"A declaração de Hans Küng sobre a admissibilidade ética da eutanásia - tema que nos reuniu neste ano - tem, em última instância, as suas raízes numa determinada compreensão de Deus, compreensão que se revela apropriada a fundamentar a nossa confiança no mesmo Deus. Se Deus for o fundamento da sua confiança, não poderá proibir ao ser humano que disponha da sua vida quando não veja qualquer outra saída de um sofrimento que se lhe tornou insuportável. O Deus que proibisse ao ser humano pôr fim à vida, quando a vida lhe impõe sofrimentos permanentes que já não pode suportar, não seria um Deus benevolente. Seria um Deus tirânico, a cujos olhos a imposição do seu direito ao poder significaria mais do que o destino do ser humano que nele confia. Esta imagem de um Deus absolutista, que se reserva como privilégio a decisão sobre a vida e sobre a morte no final da vida, tem, com efeito, uma longa tradição, que remonta à Antiguidade, no pensamento ocidental - tradição que dominou não só a teologia cristã, mas também, e durante muito tempo, a nossa filosofia. John Locke, um dos pais fundadores em termos filosóficos da democracia moderna, sustentava firmemente a opinião de que os seres humanos são propriedade de um senhor soberano e de que, sendo nisso a sua condição comparável à de escravos, teriam de deixar a esse senhor o juízo da vida e da morte. Hans Küng contrapõe a uma tal imagem de Deus uma pergunta simples: como pode um Deus que ama as suas criaturas obrigar os seres humanos a perseverar no sofrimento? O dogma da indisponibilidade da própria morte é, considerado à luz das suas consequências, essencialmente inumano.
(...)
Como é natural, Hans Küng sabe também que não se trata de evitar todo o tipo de sofrimento na vida das pessoas. Os sentimentos profundos, as esperanças profundas e os apegos profundos estão associados de modo quase iniludível ao risco de um sofrimento grave. As dimensões profundas da vida não podem alcançar-se sem sofrimento. Uma vida sem os sentimentos atravessados pela dor do sofrimento, como a tristeza, a mágoa, a compaixão, a preocupação, a culpa, o arrependimento, seria uma vida animicamente empobrecida. No entanto, em todos estes casos, o sofrimento tem caracteristicamente uma significação precisa: o sofrimento é o preço a pagar pelas perdas de bens vitais ou por uma mudança de direção crítica. É um sentido semelhante que falta em muitos dos estados de sofrimento da última fase da vida, fazendo com que a revalorização cristã do sofrimento como imitação de Cristo caia no vazio."



Hans Küng  em "Uma Boa Morte"
Relógio D' Água Editores, Dezembro de 2017
Páginas 45 e 46

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Confissão Do Fugitivo

"Só sou feliz partindo.

Não entre quatro paredes, à mercê das espadas,
mas entre aqui e ali, uma e outra casa,
ambas de preferência alheias.

Já não posso, nem quero, estar quieto.
Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali.
Em todo o caso aí, onde tu estás,
sejas tu quem fores, põe o teu nome
nos meus lábios sedentos, insaciáveis.

Eu não sou eu nem posso ter casa.
Não digo já porque foi sempre assim,
nunca a tive, sempre fui estrangeiro
dentro e fora de mim. Sou o que não sou:
o mendigo que dorme debaixo da ponte
que une as minhas duas margens e que cruzo
dia e noite sem poder deter-me.

Escrevo porque procuro, porque espero.
Mas já não sei o quê, perdeu-se na memória.
Espero que escrevendo
acabe por lembrar-me. Insisto na intempérie.
Sobrevivo entre parêntesis
no espaço vivo e no tempo morto
da espera de quê, entre dois aquis.

Nunca em mas entre. Sai de mim,
sejas quem fores, deixa-me em paz
ou acaba já comigo e com o mel
amargo de estar só a falar só.

Decidi que a minha pátria seja
não decidir, não estar em nenhum sítio
mas de passagem, pontes, naves, comboios,
onde eu seja só o passageiro
que sei que sou, sentindo
que me inquieta a paz,
que a quietude me assusta,
que a segurança não me interessa,
que só sou feliz quando me sei fugaz."



Juan Vicente Piqueras  em "Instruções Para Atravessar O Deserto"
Assírio & Alvim
1ª edição: Fevereiro de 2019
Páginas 11 e 13

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

"Mas a capacidade de pensar pensamentos que valem a pena ser pensados, quanto mais serem expressos e preservados, é comparativamente rara. Não são muitos os que entre nós sabem pensar com uma finalidade exigente, quanto mais original. Menos ainda os que são capazes de reunir na íntegra as energias e o potencial de pensamento e de dirigir estas energias para aquilo que é designado por «concentração» ou percepção intencional. Um rótulo idêntico obscurece os anos-luz de diferença que há entre o ruído de fundo e as banalidades da ruminação comuns a toda a existência humana (tal como é talvez à dos primatas) e a complexidade e forças miraculosas do pensamento de primeira ordem."



"Dez Razões (Possíveis) para a Tristeza do Pensamento" de George Steiner
Relógio D' Agua Editores, Novembro de 2015
Página 59

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Deve Ser Por Isso

"Não esgotei na altura própria
a criança que temos de ser e de gastar.

Deve ser por isso
que eu não distingo as realidades,
que eu não vejo onde começa o impossível,
que eu sinto a insatisfação dum mesmo sítio
e desejo outro lugar constantemente;
deve ser por isso
que eu não escolho um destino para me assentar depois
e ando a tropeçar à espera, à espera,
sem mesmo disso ter perfeita consciência ...
deve ser por isso
que eu estendo a mão para um objecto
e ele está mais longe que o comprimento do meu braço.

Deve ser por isso
o meu anseio de conjunto universal,
a minha curiosidade do que se disse e se escreveu,
a desordem, gritante dentro e lenta fora, que em mim ondeia [e me transporta
e eu não sei expulsar nem quero.
Deve ser por isso
que jamais lembrei o desmedido infinitamente frágil de [minha alma
e que, agora, lembrado e conhecido de mim mesmo,
não hei-de ainda ter emenda ...

Nunca fui a criança a desgastar-se com as outras entre as outras ...
- vejo-me brincando, soturno e transformista,
a ter de ser o polícia, o ladrão e a vítima,
a ter de ser o caixeiro e o comprador,
a ter de ser ambos os partidos em guerra ...
a ter de ser o comandante do barco e a própria tempestade ...

[Vejo-me mais: a conversar contente
sendo no fundo o marido que volta e encontra a casa na
mesma porque a mulher não existe]
deve ser por isso
que não consigo ser «pessoa grande»,
que a minha ansiedade vai além da prática,
(da prática que me foge dos dedos e, a todas
as horas, as minhas mãos têm de reaprender)
e eu vivo afogado em sonho - «O que seria se não fosse?» -
E em teoria ...
Nem teoria, nem sonho - criança quase intacta ...
e ainda por cima
sem perceber as meias frases, os gestos, os sinais ...
sem conhecer o avesso ..."



Jorge de Sena  em "Post-Scriptum II - 1º volume"
Imprensa Nacional - Casa da Moeda
Páginas 206 e 207
"o permitido ou o proibido deixavam de ser regidos por normas e critérios exteriores, sempre passíveis de serem questionados ou infringidos, para situarem dentro de mim mesmo a sua linha de demarcação."


"Anunciação" de H.G. Cancela
Edições Afrontamento, 1999
Página 11
"Schelling, entre outros, atribui à existência humana uma tristeza fundamental, inescapável. Mais particularmente, esta tristeza oferece o fundamento sombrio sobre o qual assentam a consciência e a cognição. Este fundamento sombrio deve, na verdade, ser a base de toda a percepção, de todo o processo mental. O pensamento é rigorosamente inseparável de uma «melancolia profunda e indestrutível». A cosmologia actual oferece uma analogia à crença de Schelling. Aquela do «ruído de fundo», dos comprimentos de onda cósmica, esquivos mas inescapáveis, que são os vestígios do Big Bang, do surgimento do ser. Em todo o pensamento, de acordo com Schelling, esta radiação primitiva, esta «matéria negra», é uma tristeza, um pesar (Schwermut), que também é criador. A existência humana, a vida do intelecto, significa uma experiência desta melancolia e a capacidade vital de a superar. Nós somos, por assim dizer, criados «entristecidos». Nesta noção existe, quase indubitavelmente, o «ruído de fundo» do universo Bíblico, das relações causais entre a aquisição ilícita do conhecimento, da discriminação analítica e do banimento da espécie humana do estado de felicidade inocente. Um véu de tristeza (tristitia) cobre a passagem, por muito positiva que ela possa ser, do homo para o homo sapiens. O pensamento carrega em si um legado de culpa."



"Dez Razões (Possíveis) para a Tristeza do Pensamento" de George Steiner
Relógio D' Agua Editores, Novembro de 2015
Página 11

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"Roga a Deus, Sancho, que assim seja, porque do dizer ao fazer muito há que correr."
Página 687

" ... o sangue herda-se e a virtude adquire-se, e a virtude vale por si só o que não vale o sangue."
Página 726

" ... porque pensar que o duque meu senhor me há-de fazer justiça é pedir pão à pedra ..."
Página 785

" ... mostrarei meus castos desejos, pois não ando a buscar pão amassado em casas alheias."
Página 872

"Pois a verdade é que está a cana velha para flauta."
Página 900



"Dom Quixote de la Mancha" de Miguel de Cervantes
Publicações Dom Quixote
1ª edição, Abril de 2015

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"O que é do mar se os rios se recusam?"


Stig Dagerman  em "A Nossa Necessidade De Consolo É Impossível De Satisfazer"
Fenda, 3ª edição (1995)
Página 23

domingo, 12 de janeiro de 2020

"Pressinto que tenhas chegado a um ponto em que olhas para esta dor como se a tivesses diante de ti, três pés à tua frente, deitada dentro de uma caixa, uma caixa aberta, algures numa janela. É dura e fria, como uma barra de metal. Tu limitas-te a olhar para ela e dizes: Está bem, fico com ela, vou comprá-la. É assim. Porque sabes tudo acerca do que te espera ainda antes de te meteres lá dentro. Sabes que a dor faz parte de todas as coisas. E não é que possas dizer mais tarde que o prazer foi maior do que a dor e que é por isso que voltarias a fazer o que fizeste. Não tem nada a ver com isso. Não podes medir as coisas assim, porque a dor vem depois e dura mais tempo. Por isso a pergunta é na realidade: Porque é que a dor não te faz dizer: não volto a fazê-lo? Quando a dor te dói tanto que terias de o dizer, mas não dizes."


"Contos Completos" de Lydia Davis
Relógio D' Água Editores, Julho de 2012
Página 32