terça-feira, 13 de abril de 2021

 "Só agora com a geada cobrindo a cabeça,
quando temo que os sinos dobrem por mim,
só agora que os violinos estão muito longe
compreendo quem é o poeta: o poeta é aquele
que começa sempre de novo."



Izet Sarajlic [Bósnia-Herzegovina, 1930-2002]
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Página 80

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Na Vossa Vida, Dizeis, Não Houve Lágrimas Nem Nostalgia Sob Os Ulmeiros

 
"Na vossa vida,
dizeis,
não houve lágrimas nem nostalgia sob os ulmeiros.

Jamais escreveste uma carta de amor
nem pensaste em suicídio.

Como sabeis então que haveis vivido?"




Izet Sarajlic [Bósnia-Herzegovina, 1930-2002]
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Página 79

Se A Observas A Dormir E Sorri

 "Todo o mundo deveria ser simples.
Simplicidade não é simplismo, não é facilidade,
é sombra cáustica, veneno que turva
o copo, prego que lacera e ofende a carne.
Aqueles que negam a simplicidade aconselham
o obscuro, celebram o complexo. Mas todo
o obscuro aspira a ser simples, o complexo
torna-se claro se sabemos clarificar a incógnita.
Pelo contrário, a simplicidade obscurece a noite,
adormece e sonha. Só Deus sabe
o que sonha a simplicidade. Se a observas a dormir
e sorri adivinhas cavalos selvagens sobre
pradarias azuis. Se faz caretas a esfinge
lança-se no vazio com os olhos vendados
e levanta voo quando está quase a cair.
A simplicidade empresta-lhe asas, envolve o
mundo com uma pergunta, importam-lhe
pouco as interpretações. A tempestade é
simples, o glaciar é simples, a primavera
é simples, até o amor é simples. Oxalá
este poema seja simples."




Eduardo Chirinos [Peru, 1960-2016]
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Página 63
 
"A poesia serve para tudo: substitui a anestesia
no dentista e não tem efeitos secundários.
Em doses muito concentradas (p. ex. Keats + Vallejo) pode
provocar calafrios na espinal medula,
estremecimentos, palidez
e uma sensação de caminhar no vazio.
Nesses casos recomenda-se que se deixe uma flor seca entre as folhas
assinalando o culpado até que outra alma piedosa
daqui a cem anos
arrisque a pele na aventura."




David Turkeltaub [Chile, 1936-2008]
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Página 55

Há Uma Luz Dentro De Mim

 
"Seja de dia ou de noite
trago sempre dentro de mim
uma luz.
No meio do ruído e da desordem
trago silêncio.
Trago 
sempre luz e silêncio."




Anna Swir [Polónia, 1909-1984]
em "O Universo Está Pintado À Mão - Uma Antologia Fanática" de Luís Filipe Parrado
Língua Morta, Junho de 2020
Página 23

sábado, 3 de abril de 2021

 
"Vamos diretos ao assunto e comecemos a discutir uma das questões mais difíceis, nomeadamente a resposta à pergunta: o que é a natureza? São as florestas tropicais virgens ou as montanhas remotas com picos inalcançáveis? Os prados alpinos onde pastam vacas castanhas com grandes badalos ao pescoço? E as minas abandonadas, onde se formaram lagos e as rãs coaxam agora alegremente, também contam? Provavelmente há tantas definições quanto pessoas que gostam da natureza. Uma definição simples de base é que natureza é o oposto de cultura - ou seja, tudo o que as pessoas não criaram nem modificaram. Esta definição traça fronteiras rígidas e claras sobre aquilo a que pode chamar-se natureza. Outras definições veem as pessoas e as suas atividades como parte da natureza. Desta perspetiva, natureza e cultura não podem obviamente ser separadas.
E é exatamente este o problema do movimento moderno de conservação: o que vale realmente a pena proteger, e o que conta como ameaça ou mesmo perturbação?"




"A Sabedoria Secreta da Natureza" de Peter Wohlleben
Editora Pergaminho
1ª edição, Novembro de 2019
Página 155
 
"Assim, voltamos à questão: alimentar os pássaros em comedouros é ou não mau para eles? Não estaremos a interfir com os processos naturais quando o fazemos? Sem a nossa ajuda, Koko podia ter morrido de fome há muito, e outro corvo ou uma ave de outra espécie podia ter preenchido o vazio deixado por ele no ecossistema. Já cobrimos os prós e contras do impacto direto no ambiente, mas ainda não falámos aqui de outro aspecto: a empatia. A empatia é uma das forças mais poderosas na área da conservação e consegue alcançar mais do que muitas regras e regulamentos. Pense nas campanhas contra a caça à baleia ou contra a chacina de focas bebés - o ultraje público teve a dimensão que teve apenas porque todos sentíamos empatia pelos animais. E, quanto mais próximos de nós estiverem os animais, maior a empatia."




"A Sabedoria Secreta da Natureza" de Peter Wohlleben
Editora Pergaminho
1ª edição, Novembro de 2019
Página 105

sexta-feira, 2 de abril de 2021

 
"A solidão é uma das primeiríssimas experiências de humanidade que fizemos. Lembro aquilo que escreveu a pedopsiquiatra Françoise Dolto: «A solidão dos bebés existe. Eles têm necessidade de que lhes falem, de que lhes cantem, mesmo se ao longe. Ouvem uma voz, não estão completamente sozinhos. O ser humano precisa de companhia. O espaço de um ser humano, desde o nascimento, precisa de ser povoado pela presença psíquica de outro ser para o qual ele existe.»




"O Que É Amar Um País" de José Tolentino Mendonça
Quetzal Editores
1ª edição, Agosto de 2020
Página 94
 
" ... muitos se começam a interrogar, com razão, sobre como será depois da Covid-19.
Nas ciências humanas, há dois axiomas esperançosos para o tempo de reconstrução que se reabrirá. O primeiro é o «axioma de Quarantelli». Enrico Quarantelli (1924-2017) foi um importante sociólogo norte-americano, que se especializou no estudo de reação aos desastres. As suas conclusões sublinham que as catástrofes geram mais cooperação do que conflito, avizinham as pessoas como nunca, democratizam a vida social e fortalecem a identidade comum. Há novas organizações (ad hoc ou mais estáveis) que se criam, reforçando a coesão da sociedade para uma resposta concreta e eticamente qualificada. O segundo é o «axioma de Cyrulnik». Boris Cyrulnik é um neuropsiquiatra francês, do origem judaica, que viu os pais morrer em Auschwitz e tem hoje mais de oitenta anos. A sua tese sobre o trauma é que ele, se não é certamente reversível, pode ser, no entanto, reparável. Tal implica não pretender regressar ao estado precedente, mas pacientemente passar para uma etapa nova. A ferramenta que Cyrulnik propõe é a resiliência, uma categoria que ele recupera da física. Trata-se ali da capacidade de um metal resistir a choques sem se despedaçar. Também nós humanos precisamos de resiliência para que, uma vez feridos, isso não nos retire completamente a confiança na vida, nem obstaculize para sempre a alegria de que somos herdeiros."




"O Que É Amar Um País" de José Tolentino Mendonça
Quetzal Editores
1ª edição, Agosto de 2020
Páginas 76 e 77

quinta-feira, 1 de abril de 2021

 
"Figuras inespessas: transparentes,
assim o tempo nos faz, sem darmos conta,
e às palavras que dizemos simples ecos
de vozes que jamais em nós soaram.

Habita-nos por dentro: esse deserto,
e o vento que nas dunas configura
ora palácios de ouro, ora ruínas,
de alguma caprichosa arquitectura.

Nada é real: nem os palácios, nem as dunas,
nem o vento, o deserto, as suas ruínas,
nem o ouro ou as vozes que se escutam.
Irreais somos nós: feitos de tempo."




"A Ciência das Sombras" de Bernardo Pinto de Almeida
Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2018
Página 187
 
"Naquele imenso instante: em que os teus olhos
os meus tocaram, de fogo ou de silêncio,
em muda combustão petrificaram
numa estátua de lava o que era vento."



"A Ciência das Sombras" de Bernardo Pinto de Almeida
Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2018
Página 186

Sombras

 
"Voltam-se as sombras sobre nós.
Coisas soltas, costumes muito antigos
acompanham-nos os gestos, desde perto,
desenham figuras nas paredes.

A casa sossegou. O vento, veloz,
em cada recanto obscuro faz jazigos
onde se perde o olhar, antes aberto.
Crescem líquenes, raros musgos verdes.

As janelas fecharam-se. Vazio
o quarto. Perguntas por fazer
suspendem-se da voz,
para sempre remetida ao seu silêncio.

Nada pois a temer:
sombras somos nós."




"A Ciência das Sombras" de Bernardo Pinto de Almeida
Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2018
Página 127

quarta-feira, 31 de março de 2021

Inscrição (para o altar de Apolo, em Delfos)

 
"Conhece a terra, o ar, as pedras e os ventos,
as águas, as cinzas, o fogo e as marés vivas,
de tudo guarda quanto puderes no coração.
Caminha pobre, mesmo que em teus ombros pese o ouro.

Nada lembres que te impeça de olhar,
nada olhes que te impeça de ver,
nada vejas que te impeça de sonhar,
nem nada sonhes que te acorde sem remédio."



"A Ciência das Sombras" de Bernardo Pinto de Almeida
Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2018
Página 55

O mar em chamas

 
"Todos os livros que leio me falam da tua morte -
mas não se pode acreditar em tudo o que se lê -
e sabendo embora que a tristeza não existe,
sento-me com a cara apoiada numa das mãos.

A vida é uma doença de que alguns se curaram.
Passo os dias sentado num café à distância,
e entre mim e mim há já uma intimidade insuportável
(como dar de novo ouvidos aos meus mestres de outrora?).

Fui dos que julgaram ter nascido para tornar grande o mundo,
mas atrasei-me, de propósito, numa sala cheia de homens.
Procuro perceber o tempo que me cabe.

Uma noite fui visto a lançar fogo ao mar."




"A Ciência das Sombras" de Bernardo Pinto de Almeida
Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2018
Página 52

Panteão (drama urbano em Belém)

 
"O pai - Olha, filho, olha um funeral! ...
O filho: Não é um, pai, são talvez cinco, ou seis ...
E deve ser família de marechal,
Só falta ver ali uma corte de reis ...

O pai: Não, filho. É o funeral de um poeta.
Vê-se ali toda a gente das instituições ...
O Presidente, o Cardeal e uma sobrinha-neta ...
O filho: Para que querem, então, tantos caixões?

O pai: - É a trasladação dos restos de Pessoa.
Não vês que veio em peso a gente de Lisboa? -
Na manhã, soalheira, corre um vento ainda frio,

e há os que exibem cartazes do outro lado do rio:
"Não voltem a trazer para os Jerónimos
Uma tal quantidade de heterónimos!"




"A Ciência das Sombras" de Bernardo Pinto de Almeida
Relógio D' Água Editores, Janeiro de 2018
Página 37

terça-feira, 30 de março de 2021

Marcelo e as Tágides 😁

"Marcelo, em cupidez municipal
de coroar-se com louros alfacinhas,
atira-se valoroso - ó bacanal! -
ao leito húmido das Tágides daninhas.

Para conquistar as Musas de Camões
lança a este, Marcelo, um desafio:
jogou-se ao verso o épico? Ilusões!...
Bate-o Marcelo que se joga ao rio.

E em eleitorais estrofes destemidas,
do autárquico sonho, o nadador
diz que curara as ninfas poluídas
com o milagre do seu corpo em flor.

Outros prodígios - dizem - congemina:
ir aos bairros da lata e ali, sem medo,
dormir para os limpar da vil vérmina
e triunfal ficar cheio de pulguedo.

Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão
de asa delta a fazer de passarola,
sobrevoa Lisboa o passarão
e perde a pena que é de galinhola."



"Poesia Completa - O Sol nas Noites e o Luar nos Dias" de Natália Correia
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Maio de 2007
Páginas 561 e 562

Odes Condignas

 
"Como num certo e imoto azul da tarde
O céu e o mar unidos se arredondam
Seja esse o instante em que a nossa vontade
E a dos deuses se encontram

Só luz e água. Irreais, ao longe os barcos.
Suaves de não pedirem nada as mãos,
Mergulhemos na paz de nada esperarmos,
Lúcidos e pagãos.

E nada mais que pele, obra do sol;
Um sabor de nudez a entrar na água,
E uma candura original e mole
Na areia deitada.

Fugaz é em nós o eterno que nos vive.
De futuro e passado não precisam
Os sentidos, como na duna livre
Os deuses se espreguiçam.

Em seu sossego antigo está a rocha.
Contudo move-se. Mas quem dá por isso?
Tudo passa por nós, parado embora
Num esgar ou num sorriso."




"Poesia Completa - O Sol nas Noites e o Dia no Luar" de Natália Correia
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Maio de 2007
Páginas 548 e 549

segunda-feira, 29 de março de 2021

 "Porque nenhum é sem o outro e todos são o dom de pensarmos todos os pensamentos, de sentirmos todos os sentimentos e a beleza de gozarmos todas as belezas."



"Poesia Completa - O Sol nas Noites e o Luar nos Dias" de Natália Correia
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Maio de 2007
Página 507
 
"Acaso já vistes uma árvore que se mostrasse de frente? De todos os ângulos que tenteis captar a eternidade suspensa numa árvore ela é um perfil, uma coluna do puro silêncio dessa qualquer outra coisa que é a árvore que julgais ver de frente. Contudo não duvidais de que as árvores existem e que num futuro inscrito no calendário do vosso terror elas sairão de si mesmas como labaredas cantantes, arrancando-vos a língua com a sua música."



"Poesia Completa - O Sol nas Noites e o Luar nos Dias" de Natália Correia
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Maio de 2007
Página 325

Ricochete

"Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?"




"Poesia Completa - O Sol nas Noites e o Luar nos Dias" de Natália Correia
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Maio de 2007
Página 152