segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Ride the wave

 
"muitos são os que caem pelo caminho
poucos os que flutuam

decresce a luz puída do inverno rigoroso
atravesso a península, a ibérica
em todo o lado há marcas, ruínas
condutores perseguidos por
linhas incandescentes no frio seco da noite

as rádios transmitem para a intimidade
os condutores cruzam olhares
animais feridos
atiram cigarros para trás das costas
prosseguem viagem acelerando

parece não haver alternativa à vida."



Rosa Oliveira em "Cinza"
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Junho de 2013
Página 16

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

 
"O poema é o caminho mais curto
que não seja um atalho"


"Cada um lê no poema
o poema que traz em si."



André Tecedeiro em "A axila de Egon Schiele [poesia reunida 2014-2020]"
Porto Editora
1ª edição, Outubro de 2020
Páginas 177 e 187




terça-feira, 16 de agosto de 2022

 "As palavras estão todas do lado de dentro."


"Quanto mais próximos estamos de nós,
mais palavras temos para tudo.
Quando coincido comigo,
sou princípio
sou fim
sou verbo
na ponta de um lápis muito afiado."


"Evadi-me
porque
me invadiam"


"Deslizo o dedo pela cicatriz
para a ouvir
lentamente.
É na cicatriz que a pele é mais sábia"



André Tecedeiro em "A axila de Egon Schiele [poesia reunida 2014-2020]"
Porto Editora
1ª edição, Outubro de 2020
Páginas 78, 92, 99 e 156

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

 "Ele perguntou-me
em que medida é que isso
te marcou?

Eu pergunto-lhe:
Como se mede uma raiz?"



"Não há solidão
comparável
à de vivermos longe de nós"



André Tecedeiro em "A axila de Egon Schiele [poesia reunida 2014-2020]
Porto Editora
1ª edição, Outubro de 2020
Páginas 55 e 59
 
"Saída do café encontro no chão
uma garrafinha verde.

Era uma bela garrafinha,
pensei,
para colocar uma flor.

Enquanto a lavava para tirar
o cheiro e o rótulo
lembrei-me de um homem
que pousava ali para os lados
das Avenidas Novas.

Comia às vezes só molho e pão
e tinha sempre à frente
uma flor
dentro de uma garrafa suja.

Um dia estendi-lhe
uma peça de fruta à sobremesa
e ele sorridente,
convidou-me a comer também
daquele prato
de aspecto catástrofe.

Lembro-me de ter pensado que
há coisas que só se engolem
com muita fome e uma flor à frente.

Mas ele era um sem-abrigo ainda jovem
qualquer dia já nem vai precisar da flor."



André Tecedeiro em "A axila de Egon Schiele [poesia reunida 2014-2020]
Porto Editora
1ª edição, Outubro de 2020
Páginas 44 e 45
 
"O amor pelo ínfimo nunca me deixou ficar mal.
Medes a vida pelos filhos que hão-de ficar
E eu digo-te que nada fica
- nem a eternidade.

E mesmo o até que a morte nos separe
não está garantido,
porque a morte é uma coisa
que nos vai acontecendo
várias vezes ao dia."



André Tecedeiro em "A axila de Egon Schiele [poesia reunida 2014-2020]
Porto Editora
1ª edição, Outubro de 2020
Página 11

domingo, 7 de agosto de 2022

 
« Não tenho passado nem futuro e às vezes recuso-me a ter presente.» Era tão cinzenta, tão vazia a vida das pessoas. Uma amálgama de acontecimentos sem interesse e sem sentido. O que pensou em dado momento? O que sentiu? Já não sabe. O tempo passa, uma, outra vez, não para, não pode parar, e as coisas ficam cobertas de sucessivas camadas de pó."


«Nunca se encontrou a si próprio sem se conhecer, com a sensação de ter encontrado um estranho?»


«Sou uma ilha, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas."


« É um mau costume, esse de classificar as pessoas, espetá-las no sítio que nos parece adequado, como às borboletas. Boas e más, loucas e ajuizadas ... Como se isso fosse possível! Entre um princípio e um fim, quantos lugares, quantos milhares deles. Nós, por exemplo, onde estaremos situadas? Sabes? Eu não sei. Mas olha que não é em nenhuma das extremidades.»


"Eram assim os seus sonhos. Havia também o mar, um mar grande, muito quieto, mas mar a sério desta vez, a banhar praias imensas, sem ninguém. Ela nadava nesse mar, mas também era um pouco como se voasse, em gestos lentos, fáceis, como se toda aquela água muito azul fosse um elemento suave, maternal, que os ajudasse em vez de os combater."




"Obras Completas de Maria Judite de Carvalho - Vol. ll
Paisagem sem Barcos | Os Armários Vazios | O seu Amor por Etel"
Minotauro, Setembro de 2018
Páginas 34, 36, 72, 192 e 217

sábado, 6 de agosto de 2022

"Basta-me" de Fadwa Tuqane

 
"Basta-me morrer no meu país
ser nele enterrada
nele me dissolver e aniquilar
renascer como erva sobre a terra
renascer como flor
que uma criança crescida no meu país desfolhará
Basta-me ser no regaço da minha pátria
terra
erva 
flor"



"Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea"
com selecção e tradução de Albano Martins
Edições Asa
1ª edição, Fevereiro de 2004
Página 49

"A Fonte" de Ibrahim Nasrallah

 
"Sento-me agora diante de ti
com todas as minhas árvores
todas as minhas pedras
as luas e as flores das janelas
com que sonhei
com todos os meus poemas
as letras do meu nome
e este mar que me submerge
Sento-me agora diante de ti
com todo o meu sangue
todas as estradas das cidades tumultuosas
e as asas de julho em fogo
Sento-me diante de ti agora
e raras vezes fui tão inteiro
Sento-me agora diante de ti
com uma mão verde
que os teus ventos acariciam
e tudo o que possa fazer
é escrever
escrever
e escrever
confiar o mundo inteiro
no coração dum pequeno poema
à dimensão da tua mão tépida."



"Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea"
com selecção e tradução de Albano Martins
Edições Asa
1ª edição, Fevereiro de 2004
Página 48

"Nesta Terra" de Mahmud Darwich

 
"Nesta terra há coisas que merecem viver: a hesitação de abril, o cheiro do pão ao amanhecer, as opiniões duma mulher acerca dos homens, os escritos de Ésquilo, o despertar do amor, a erva sobre as pedras, as mães erguidas sobre um fio de flauta e o medo que a lembrança inspira aos conquistadores.

Nesta terra há coisas que merecem viver: o fim de setembro, uma mulher que entra nos quarenta, com todo o seu vigor, a hora do sol na prisão, as nuvens que imitam um bando de criaturas, as aclamações dum povo pelos que caminham, sorridentes, para a morte e o medo que as canções inspiram aos tiranos.

Nesta terra há coisas que merecem viver: nesta terra está a dona da terra, mãe dos prelúdios e dos epílogos. Chamavam-lhe Palestina. Chama-se ainda Palestina. Minha Dama, eu mereço, mereço viver, porque tu és a minha Dama."




"Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea" 
com selecção e tradução de Albano Martins
Edições Asa
1ª edição, Fevereiro de 2004
Página 28

domingo, 31 de julho de 2022

Folheto

 "Sou o comprimido calmante.
Actuo em casa,
sou eficaz na repartição,
sento-me no exame,
apresento-me em tribunal,
colo minuciosamente a louça partida.
Basta que me tomes,
que me ponhas debaixo da língua,
que me engulas
com um copo de água.

Sei o que fazer na desgraça,
como aguentar a má notícia,
diminuir a injustiça,
desanuviar a falta de Deus,
escolher o chapéu de luto a condizer.
Por que esperas?
Confia na piedade química."
- Wislawa Szymborska



"Alguns gostam de poesia - antologia" de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska
Cavalo de Ferro Editores, Lda
1ª edição, Março de 2004

Filhos da época

 
"Somos filhos da época
e a época é política.

Todos os teus, nossos, vossos
problemas diurnos e nocturnos
são problemas políticos.

Quer queiras quer não,
os teus genes têm passado político,
a pele um tom político,
os olhos um aspecto político.

O que dizes tem ressonância,
o que calas tem expressão,
seja como for, política.

Mesmo passeando pelo campo,
dás passos políticos
em solo político.

Poemas apolíticos são também políticos
e lá em cima brilha a lua,
unidade que deixou de ser lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Que questão, diz, querido.
A questão política.

Nem é preciso ser humano
para ganhar importância política.
Chega que sejas petróleo,
ração composta ou matéria reciclável.

Ou a mesa de debate,
cuja forma foi discutida meses a fio:
em que mesa se negoceiam a vida e a morte?
Redonda ou quadrada?

Entretanto pereciam homens,
morriam animais,
ardiam casas,
tornavam-se os campos bravios
como nos tempos antigos
e menos políticos."
- Wislawa Szymborska



"Alguns gostam de poesia - antologia" de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska
Cavalo de Ferro Editores, Lda
1ª edição, Março de 2004
Páginas 211 e 213

domingo, 10 de julho de 2022

 
"Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é também quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir."



Czeslaw Milosz em "Alguns gostam de poesia - Antologia" de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska
Cavalo de Ferro Editores, Lda
1ª edição, Março de 2004
Página 21

sábado, 25 de junho de 2022

 
"a conclusão de que não há abismo, e que a infância não pára de desenvolver-se e crescer, é um novo princípio de realidade, de morte, de velhice: eu não deixo de viver no mundo interior e exterior das metamorfoses flutuantes; é já dia, mas a noite que conduz a esperança no pensamento, e sobre si própria, não acabou."



Maria Gabriela Llansol em "O Raio Sobre o Lápis"
Editora Assírio & Alvim, 2004
Página 40

sábado, 21 de maio de 2022

 
"o vento agita as sombras
na minha mão, lança-me
vultos, um nome em chamas, versos
afiados contra os dedos.

sempre pressenti a distância mínima
entre o poema e o medo
de não saber regressar a casa."



"Um Circo no Nevoeiro" de Renata Correia Botelho
Editora Averno, Outubro de 2009
Página 40
 "encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel
guardiã do sol posto.

o coração que me deixaste
é uma casa difícil de habitar."



"Um Circo no Nevoeiro" de Renata Correia Botelho
Editora Averno, Outubro de 2009
Página 18
 
"falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor

demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.

já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha."



"Um Circo no Nevoeiro" de Renata Correia Botelho
Editora Averno, Outubro de 2009
Página 11