terça-feira, 19 de setembro de 2023

Fotografando Palavras (VIII)

 

Empresto às palavras a liberdade de sonhar. E elas sonham.




Texto: Cristina Vicente
Fotografia: Paula Abreu Silva

Do projecto de Paulo Kellerman, fotografar palavras, aqui 😊

"Obra Poética II" de António Ramos Rosa (II)

 "Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo"



António Ramos Rosa em "Obra Poética II"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2020
Página 27

"Obra Poética II" de António Ramos Rosa (I)

 "Quero escrever esta noite a folhagem da língua
O vento arqueia as vértebras e arqueia a sombra
Todas as flores oferecem ao ar os seus estames
Aproximam-se barcos entre latidos de cães
Espaço nocturno de ninguém Sombras escritas
pelas pedras sobre o ventre oval da terra
Com o movimento das palavras na folhagem
guiarei a ágil impaciência do fogo
Ó noite nublada noite de musgo e quartzo
que o silêncio ocultas nas tuas gargantas negras!
Eu escreverei na sombra o que se dissemina
nos teus ramos nos teus pássaros nos martelos
acesos Os vestígios e frémitos na casa
hão-de acordar novos gestos nas salas
e nos tecidos tranquilos Palavras mas porquê?
Porque levantam os círculos da confiança
porque prendem mas também libertam
e são rostos submersos que germinam na penumbra."



António Ramos Rosa em "Obra Poética II"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2020
Páginas 12 e 13

domingo, 6 de agosto de 2023

"Desportos Do Espírito" de Raquel Nobre Guerra

 
"Ouvi numa aldeia remota do Nepal
que as crianças são transportadas em cestas
ao longo da garganta de uma montanha
entre linhas de resina e orações

assim são iniciadas nos desportos do espírito

nisto no caminho à luz baixa a ocidente
coleava no asfalto meditando uma serpente:

um coração deve ser mais leve que uma pena."



Raquel Nobre Guerra em "Divisão da Alegria"
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Março de 2022
Página 101

"A Poesia É Uma Conversa A Ter" de Raquel Nobre Guerra

 "Às vezes um evento de título mínimo
acende o mundo e a poesia é outra
nasce contra sua vontade
evoca uma disposição

dizem que se chama contemplação activa
podes chamar-lhe vozes de burro no céu

como também o sol deixa brilhar os outros
e o campo rouba de mim o seu perfume
subitamente no meio da balbúrdia
algo se deixa aparecer no bem

que ás vezes é a pequena altura de uma árvore de fruto
ou uma camisa florida que cito
por não ser capaz de florir por mim mesma
porque uma árvore tem
milhares de estados de espírito
onde no favor dos relevos repouso

e este poema tem beleza mas não tem
é meu cuidado dizer, olhos totais
as suas centenas de pequenos gestos
tocam apenas uma pele grossa
e eu entendo enterrar as mãos para tocar
a vida superior e funda e ser toda eu radical
raiz, mas supondo que sinto que ruo, sei déjà
não ser cousa que se mexe com o pensamento

às vezes parte de um poema é o mundo inteiro
e a poesia uma conversa a ter."



Raquel Nobre Guerra em "Divisão da Alegria"
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Março de 2022
Páginas 24 e 25

segunda-feira, 31 de julho de 2023

"Camponeses" de Gabriela Mistral

 "E ainda, ainda e sempre
esta queixa dou ao vento:
os que semeiam e regam
e fazem podas e enxertos,
os que cortam e carregam
debaixo de um sol de fogo
a melancia rosada,
o melão que cheira a céu,
ainda e sempre, todavia,
não têm "canto de chão".

Se o tivessem, não vagueavam
como a lanugem ao vento,
e se eu também o tivesse
não erraria como eles,
porque nasci, ouve bem,
pró amor, para o prazer
de semear milho que canta,
de espreitar os medronheiros
ou de ferver cada tarde
compotas sabendo a céu.

Mas foi em vão que em menina
descasquei a fruta ao sol
e em vão empilhei cachos
nas suas pequenas caixas,
e em vão espreitei as courelas
de medronheiros com dono,
porque os meus pais não tiveram
a terra dos seus avós,
e não fui feliz, ó corça,
e choro mesmo sem corpo,
sem ver as doze montanhas
que me velavam o sono,
ao dormir e acordar
com a fala de cem hortos
e com a sílaba imensa
do rio dentro do meu sonho."



Gabriela Mistral em "Antologia Poética"
Editorial Teorema, 2002
Páginas 104 e 105

"Montanhas Minhas" de Gabriela Mistral

 "Em montanhas me criei,
mais de três dúzias se erguiam.
Parece que nunca, nunca,
embora escute os meus passos,
as perdi, nem quando é dia,
nem quando é noite estrelada,
e embora veja nas fontes
a cabeleira nevada,
não fugi nem me deixaram
como filha mal lembrada.

E embora sempre me chamem
uma ausente e renegada,
possuí-as e ainda as tenho,
persegue-me o seu olhar
ao longo da minha estrada."



Gabriela Mistral em "Antologia Poética"
Editorial Teorema, 2002
Página 97

"Dois Anjos" de Gabriela Mistral

 "Não tenho só um anjo
com asa estremecida:
embalam-me, tal como
ao mar as duas margens,
o Anjo que dá o gozo
e o que dá a agonia;
o de asas vacilantes
e o das asas fixas.

Eu sei, quando amanhece,
qual vai guiar-me o dia,
se o que tem cor de chama
ou o da cor da cinza
e entrego-me como alga
às ondas, resignada.

Só uma vez voaram
com as asas unidas;
no dia do amor,
no da Epifania.

untaram-se só numa
as asas inimigas
e ataram o nó
entre a morte e a vida!"



Gabriela Mistral em "Antologia Poética"
Editorial Teorema, 2002
Página 51

quarta-feira, 19 de julho de 2023

"Árvores" de António Ramos Rosa

 
"O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1176

"O Encontro" de António Ramos Rosa

 "Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1128

"Obra Poética I" de António Ramos Rosa (III)

 
"Folha após folha
no fulgor do vento
sigo o trânsito da luz
através das sombras
do teu corpo."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1122

"Escrevo-te Com O Fogo E A Água" de António Ramos Rosa

 
"Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1052

"Não Dissemos As Palavras Mais Simples" de António Ramos Rosa

 "Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra          uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical"



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 913

"Obra Poética I" de António Ramos Rosa (II)

 "Estamos à sombra de uma grande folha verde.
Uma grande folha de água.
Sem vertigens, mergulhamos na materna espessura de um paraíso vegetal. Toda a densidade do obscuro mundo animal se resolveu na paciência forte e suave de uma terna e acolhedora superfície arborescente que nos envolve na sensual flexuosidade dos seus ramos robustos, linhas determinadas, completas e compactas na sua generosa amplitude de promessa que em folhas, frutos, flores, mantém a integridade da energia única que as compõe e as conduz ao seu termo último.
É a metamorfose de uma flora abolindo a fronteira entre o terrestre e o aquático, é o mar e a floresta, é a amorosa e firme direcção do desejo incandescente que encontra o limite da forma terminal e se manifesta na pujante plenitude do compacto, a energia viva visível em toda a sua extensão, como se todo o impulso criador se configurasse no limite máximo da fixação, da imobilidade.
Uma flora iridiscente mas cálida, paciente e impetuosa.

como o rio do pulso que a rasga
como a seiva das veias harmoniosas
árvore marinha
liberta em volutas e espirais
com ramos densos como lâmpadas,
delicadeza vegetal, aquática,
dança navegada.

A grande folha verde olha-nos liberta das suas profundezas."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 699

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Fotografando Palavras (VII)


Para onde vão as vidas que vivemos?
Vão para a pele, para os olhos e para o coração.
Vão para os melhores e para os piores pensamentos.
Vão para o remoinho dos tempos.
Vão para os panos de cozinha já usados, vão para a receita do bolo de uma avó longínqua que já esquecemos.
As vidas vão para o pó das estrelas e para as fábricas de todas as coisas.
Vão para as lágrimas que não choramos, as palavras que não dizemos e os silêncios que tão pouco entendemos.
As vidas que vivemos vão para o puzzle que todos trazemos.
Nele se encaixam.
Nele fazem sentido.




Texto: Ana Miguel Socorro
Fotografia: Paula Abreu Silva

Do projecto de Paulo Kellerman, fotografar palavras, aqui 😊

"A Face Do Ar" de António Ramos Rosa

 
"O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar,
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 369

"Obra Poética I" de António Ramos Rosa (I)

 
"Aconteceram hoje palavras como folhas
na tua nuca de silêncio.
Como pássaros que ainda mais dizem o céu,
como pedras que ainda mais dizem a terra,
aconteceram hoje palavras que disseram
o nosso encontro em fuga."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 216

"Árvore" de António Ramos Rosa

 
"Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 182

quarta-feira, 12 de julho de 2023

"Canção Derruída" de Mar Becker (IV)

 
"os vivos morrem logo
são os mortos que morrem devagar
são os mortos que seguem morrendo depois que os velamos, que
os enterramos

passam-se dias, e ainda há fios de cabelo espalhados pela casa
passam-se meses, e ainda vemos o livro
o marcador guardando o fogo da última página lida
passam-se anos, e descobrimos na gaveta as palavras escritas, os
papéis

são lentos, os mortos
são lentos
como é lento o amor
como é lento reconhecer uma letra, que nos faz pensar nas mãos
como é lento imaginar as mãos, que lembram o pulso
como é lento pressentir o pulso, que nos atravessa
como sangue

em uma hora de hemorragia intensa os vivos perdem todo o
sangue dos seus corpos
os mortos no entanto se demoram, habitam a casa pelo meio
no mênstruo das mulheres, no silêncio partilhado entre mãe e 
filha
entre duas irmãs

e topamos com seus rostos através de outros rostos
não só os da família, mas também daqueles que cruzam por nós
na rua
e que não conhecemos

sempre acabamos encontrando nossos mortos por aí
eles acham jeito de voltar
de permanecer
eles acham jeito de surgir num sorriso
na cor que certos olhos assumem em tardes mais luminosas
num gesto breve
qualquer

os mortos, os mortos
tão vivos"



Mar Becker em "Canção Derruída"
Assírio & Alvim
1ª edição, Janeiro de 2023
Páginas 193 e 194

"Canção Derruída" de Mar Becker (III)

 
"tornar o amor uma casa
erguê-lo como se ergue um lugar, abrigar-se nele
entrar dentro do amor
refugiar-se em suas trincheiras como
os que vêm feridos de morte
os que de súbito entendem que viver é breve -
mas amar é longo
torná-lo tua mão que alcança a minha
a volta a um primeiro ato
de misericórdia
o sangue marcando as ombreiras de nossas portas
tornar o amor um esconderijo de infância
uma fresta na madeira
uma luz tênue
uma ave
tornar o amor uma casa; torná-lo
uma asa
que seja casa, o amor
ainda que amar desabrigue"



Mar Becker em "Derruição"
Assírio & Alvim
1ª edição, Janeiro de 2023
Páginas 125 e 126