domingo, 23 de dezembro de 2018

"Um amor que vá além do amor,
por cima do rito do vínculo,
além do jogo sinistro
da solidão e da companhia.
 
Um amor que dispense o regresso,
mas também a partida.
Um amor não submetido
aos fogachos de ir e voltar,
de estar despertos ou adormecidos,
de chamar ou calar.
 
Um amor para estar juntos
ou para não estar,
mas também para todas as posições intermédias.
 
Um amor como abrir os olhos.
E talvez também como fechá-los."

Roberto Juarroz  em "Poesia Vertical"

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

"Não creio que ela se importasse. É demasiado ... inteira, para se sentir sozinha."
 
Ana Teresa Pereira  em "Karen"
"Seja qual for o meio pelo qual o homem ocidental procure aceder à compreensão da vida espiritual do Oriente, confrontar-se-á sempre com grandes dificuldades. Quase sempre corre o perigo de querer penetrar intelectualmente naquilo que está para lá de toda a razão, no que é directamente transmitido ao oriental e que este vivencia como realidade inquestionável. A dificuldade de chegar a um entendimento profundo é ainda agravada pelo facto de o oriental raramente sentir o desejo de explicar a sua vivência ao nível intelectual. Consequentemente, abre-se uma profunda distância entre aquilo que ele diz em palavras e aquilo que ele realmente quer dizer com elas. Muitas vezes ele tem de se contentar com meras alusões e imagens, se não quiser refugiar-se nos paradoxos. Encontrar o fio condutor e não tomar a compreensão do que o professor diz pela compreensão da coisa em si exige do ocidental muita paciência intuitiva e reiteradas tentativas de pressentir e vivenciar de alguma maneira aquilo que está em causa. Embora no arranjo floral se diga muita coisa, e se deixe entrever algo, por detrás de tudo o que é visivelmente representável e vivenciável por todo o ser humano existe o mistério e o fundamento primordial do ser mais profundo."

Gusty L. Herrigel  em "ZEN e a Arte do Caminho das Flores"
"Uma escrita que suporte a intempérie,
que se possa ler sob o sol ou a chuva,
sob o grito ou a noite,
sob o tempo nu.
 
Uma escrita que suporte o infinito,
as gretas que se repartem como o pólen,
a leitura sem piedade dos deuses,
a leitura iletrada do deserto.
 
Uma escrita que resista
à intempérie total.
Uma escrita que se possa ler
até na morte."

Roberto Juarroz  em "Poesia Vertical"

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

"Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.
 
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.
 
Só deus não me dói hoje.
Será porque hoje ele não existe?"

Roberto Juarroz  em "Poesia Vertical"
"Meti a mão no bolso do casaco castanho e segurei a pedrinha cor de laranja. Não sabia o nome da pedra, de vez em quando comprava uma nos mercados de rua, e estavam um pouco por todo o lado, nas gavetas da roupa, no meio dos livros, entre as bisnagas de tinta, nos bolsos dos jeans. A pedrinha reconfortou-me, apertei-a até ficar quente, mais quente do que a minha mão."  💗

Ana Teresa Pereira  em "Karen"

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Harp & Hang - Lazuli


Identidade

"Ignoro o que ao certo seja ser, mas, seja o que for, dispõe de intensidade própria e regulável como o som dum aparelho ou a velocidade dum motor. Há momentos em que «sou» mais do que noutros, em que, se assim pode dizer-se, tenho a minha identidade acelerada."

Luís Miguel Nava em "Poesia Completa 1979-1994"
"Duas pessoas são duas pessoas. Nunca nos pomos a pensar nisto assim, mas isto é inultrapassável. Queremos sempre acreditar que um casal, por exemplo, são duas pessoas que se escolheram um ao outro para partilharem. Para viverem como cúmplices. E isso até pode acontecer muito tempo, numa data de coisas. Mas há sempre uma cave dentro de nós. Nunca, mas nunca mesmo, saberemos tudo acerca do outro. Só não percebo porque me faz isto sofrer se parece que estou a concluir que é natural, que as coisas são mesmo assim."

Rodrigo Guedes de Carvalho  em "Canário"

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O Lugar dos Solitários

"Que o lugar dos solitários
Seja um lugar de ondulação perpétua.
 
Quer seja em pleno mar
Na negra e verde nora,
Ou nas praias,
Que nunca cesse
O movimento, ou o ruído do movimento,
O renovar do ruído
E múltiplos prolongamentos;
 
E, sobretudo, do movimento das ideias
E da sua incansável iteração,
 
No lugar dos solitários,
Que há-de ser um lugar de ondulação perpétua."

Wallace Stevens  em "Harmónio"
"O seu pai era soldador, e achava que qualquer pessoa capaz de passar o dia inteiro a olhar para simbolozinhos numa página era porque estava a reprimir outros impulsos. Mas para Gordon ler era o seu impulso. Tornava o mundo maior. No liceu ele apaixonou-se por Dostoievski, uma literatura que vinha ao encontro das suas melancólicas dúvidas. Dostoievski não acreditava em nada a não ser no mundo untuoso e terra a terra onde os seres humanos vagueavam, lutavam, corrompiam e matavam. Mas Dostoievski era cristão, e as pessoas que lutavam e vagueavam nos seus romances haviam perdido o seu caminho, ao passo que Deus não. Dostoievski era algo de vasto - de dimensão universal - , um universo que possuía uma ordem, mas não uma ordem fixa e artificial como a dos gregos. Era um difuso reino de caóticas provações, e Gordon sabia que quando o lia penetrava no território da verdade."

Rachel Kushner  em "O Quarto de Marte"

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Eu sou uma pergunta

"Há um momento em que percebemos que as perguntas nos deixam mais perto do sentido, da abertura do sentido, do que as respostas. Que as respostas são úteis, sim, que precisamos delas para continuar a viver, mas que a vida transforma as próprias respostas em perguntas.
(...)
Deveríamos dedicar mais tempo a escutar essas perguntas que pulsam no nosso interior, soterradas no atordoamento dos dias, omitidas pelo pragmatismo ou pelo medo, adiadas para um momento ideal que depois nunca é.
(...)
Quando, mais tarde, nos tornarmos repetidores sonâmbulos de respostas feitas, carregados de saberes, previsões e mapas, é importante pelo menos recordarmos a nós mesmos que houve já um tempo em que as perguntas foram o contacto (consciente e fulgurante) com a vida não predeterminada. E quem sabe se essa memória nos alentará a recomeçar, como se cada pergunta fosse uma possibilidade de nascer?"


José Tolentino Mendonça  em "O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas"

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Shakespeare

"Shakespeare criou o mundo em sete dias.
 
No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos
E os restantes sentimentos -
Que deu a Hamlet, a Júlio César, a António, a Cleópatra e a Ofélia,
A Otelo e a outros,
Para que fossem seus donos, eles e os seus descendentes,
Pelos séculos dos séculos.
No terceiro dia juntou todos os homens
E ensinou-lhes os sabores:
O sabor da felicidade, do amor e do desespero,
O sabor do ciúme, da glória e assim por diante,
Até esgotar todos os sabores.
 
Por esse tempo chegaram também uns indivíduos
Que se tinham atrasado.
O criador afagou-lhes compassivo a cabeça,
E disse que só lhes restava
Tornarem-se críticos literários
E contestarem a sua obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaços
Para darem cambalhotas,
E deixou os reis, os imperadores
E outros desgraçados divertirem-se.
Ao sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:
Forjou uma tempestade,
E ensinou ao rei Lear
O modo de usar uma coroa de palha.
Com os restos da criação do mundo
Fez o Ricardo III.
Ao sétimo dia viu se havia algo mais a fazer.
Os directores de teatro já tinham coberto a terra de cartazes,
E Shakespeare concluiu que depois de tanto esforço
Também ele merecia assistir ao espectáculo.
Mas antes disso, esfalfado de todo,
Foi morrer um pouco."

Marin Sorescu  em "Simetria"

quinta-feira, 14 de junho de 2018

"O dia virá em que já não sabes
a idade das pedras caídas
na geografia difícil do rosto.
 
Há um muro que te há-de deter
onde medirás a distância da viagem
como de cada vez que se morre
 
o cabelo tão branco que não
será só assim branco
o olhar a dizer o que a terra sabe.
 
Porque a boca há-de calar-se
e na matriz de gelhas do rosto
será apenas mais uma ruga."

António Amaral Tavares  em "Os Nomes dos Pássaros"

quarta-feira, 30 de maio de 2018

"Estive a varrer a cozinha. Depois vi o meu reflexo no vidro da janela assim de vassoura numa sexta-feira à noite e sorri de tanta simbologia. Nem me atrevi a abrir a janela. Talvez eu voasse - quem sabe - mas os símbolos convém trazê-los à rédea curta."

Ivone Mendes da Silva  em "Dano e Virtude"
"A noite inventa aparências: as sombras,
os ruídos sem fonte, as circulações do susto.
Conheço bem os modos de ser inferior,
perto dos besouros, das formigas,
onde nos chegam abafados o amor e o júbilo.
É disso que me alimento,
curvado sobre a minha própria dor de bicho.
 
A noite é terna, uma pausa nos trabalhos diurnos.
Sôfrego, revolvo minerais buscando
um pouco de mal, para afastar de mim
a dureza, para acabar com as horas certas
de todos os dias. Dói-me a regra do ofício,
a jornada, os gestos da necessidade avara.
 
Apareço tarde, quando ninguém está. Sorrio, só.
Práticas milenares fazem de mim absurdo.
Tenho espinhos que lembrarão um campo de trigo,
vivo escondido para não incendiar no excesso.
 
Em areia vermelha oculto, encontro vestígios
de um mundo que nunca benquis. E porém,
há magias e poderes em tudo o que julgava saber,
nas coisas largadas fortuitamente no meu espaço.
 
Um garfo pode tornar-se arma fatal.
Um pedaço de madeira, o último reduto da vida.
O resto de uma corda, traço de equilíbrio.
Uma lata ferrugenta, a invenção de uma morada.
A precisão de uma mola de estender roupa,
bê-á-bá da teimosia. Uma moeda já sem uso,
descoberta da natureza contingente dos tesouros.
 
Escarafuncho tudo isso na minha cabeça,
quase não posso com a concretude mundana.
É esse o grande mistério, que as coisas estejam,
e, no entanto, que nenhum lugar lhes seja especialmente próprio.
Daí que me medite por vezes em surdina.
 
Questiono-me sobre a possibilidade de gerar
um sítio onde não me perdesse na profundidade saibrosa.
Mas é tão potente a luz exterior,
tão agudo o calor, tão insuportável a visão imediata
do horizonte. Encubro-me outra vez calado.
E faço da sobriedade térrea aconchego da minha dúvida."

Elisabete Marques  em "Animais de Sangue Frio"
"Afinal não estou sozinha no prédio. Lamento porque havia nisso algumas potencialidades literárias. Hoje de manhã soou um berbequim pouco passava das sete. Pensei: raios, era o que faltava agora. Depois conformei-me: cada um tem as suas obras e a paz nunca é perpétua."
 
Ivone Mendes da Silva  em "Dano e Virtude"