quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

 
"Não amo a cidade
por ser grande

Amo-a
por ter nascido sem mistério
e ter criado
a sua própria natureza

embora os olhos e o coração
sofram quotidianamente 
por imperfeições e mágoas"



"Poemas Quotidianos" de António Reis
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Julho de 2017
Página 32

Sintra, a Montanha Mágica

"La Sierra de Sintra viene,
que estaba del frio,
gozar del triunfo mio,
que á su gracia conviene.
Es la sierra mas hermosa
que yo siento en esta vida
es como dama polida,
brava, Dulce y graciosa,
namorada y engrandecida
Bosque de cosas reales,
marinera y pescadores
montera y gran cazadora,
reina de los animales.
Muy esquiva y alterosa
balisa de navegantes
sierra que á sus caminantes
no cansa ninguna cosa
refrigério en los calores,
desaludades minero
contemplacion de amore,
la señora á que yo mas quero
y con quien ando damores
(...)"


Gil Vicente, O triunfo do Inverno, 1529

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

O que mais gostei de ler em 2020

 Ficção:

- "A Sonata de Kreutzer" de Lev Tolstoi
- "A um Deus Desconhecido" de John Steinbeck
- "Contos Completos" de Lydia Davis
- "Dom Quixote de La Mancha" de Miguel de Cervantes
- "Manual para Mulheres de Limpeza" de Lucia Berlin
- "O Quarteto de Alexandria" de Lawrence Durrell
- "Perturbação" de Thomas Bernhard



Não Ficção:

- "A Vida Secreta das Árvores" de Peter Wohlleben
- "I'm your Man: A Vida de Leonard Cohen" de Sylvie Simmons
- "Memórias, Sonhos, Reflexões" de C.J. Jung
- "O Caminho da Grande Perfeição" de Patrul Rinpoche
- "Sintra em passo de pensamento" de Maria Gabriela Llansol
- "Uma Boa Morte" de Hans Küng



Poesia:

- "Ágora" de Ana Luísa Amaral
- "As Flores do Mal" de Charles Baudelaire
- "O Japão no Feminino I: Tanka (Séculos IX a XI)" de Luísa Freire
- "O Japão no Feminino II: Haiku (Séculos XVII a XX)" de Luísa Freire
- "Os quatro rostos do mundo [haikus]" de Yosa Buson
- "Poesia Toda" de Herberto Helder
- "Primeiro amor e outros poemas" de Yosa Buson

Arte & Cultura: o que mais gostei em 2020

- Casa Fernando Pessoa
- "Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao Século XXI" @ Museu de Lisboa (Palácio Pimenta)
- Museu Nacional de Arte Antiga
- Museu Nacional do Azulejo
- "Teresa Cortez: um mundo lúdico à espreita" @ Museu do Oriente

Ecrãs: o que mais gostei em 2020


  • "A Revolução Genética" de Robin Bicknell @ RTP1
  • "Árvores Inteligentes" @ RTP2
  • "Esplendor" de Naomi Kawase @ RTP2
  • "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de João Botelho @ Cinema Ideal
  • "Onde os Livros são o Mundo" @ RTP2
  • "Os Durrell" @ RTP2
  • "Parasitas" de Bong Joon Ho @ TvCineTop
  • "The Handmaid's Tale" 
  • "Uma Vida Escondida" de Terrence Malick @ Amoreiras Shopping Center

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

"Não pretendemos dizer com isto que a monogamia - ou mesmo a monogamia feliz e gratificante - é impossível, porque, de facto, ela está perfeitamente ao alcance das possibilidades humanas. Mas, no sentido em que não é natural, também não é fácil. Do mesmo modo, não estamos a afirmar que a monogamia não é desejável. De facto, existe muito pouca ou mesmo nenhuma ligação entre aquilo que é natural ou fácil e aquilo que é bom.
(...)
Mesmo que não exista um parceiro ideal para cada pessoa, um casamento afectuoso proporciona a duas pessoas a oportunidade de limarem e moldarem as suas experiências comuns. Num bom casamento monogâmico, a correspondência perfeita faz-se, não nasce feita. E, embora grande parte da nossa biologia pareça empurrar-nos na direcção contrária, tais casamentos podem de facto fazer-se. São um milagre quotidiano.
Entre os animais, a monogamia é uma questão de biologia. Tal como entre os seres humanos. Porém, no caso destes, a monogamia é algo mais do que isso. É também uma questão de psicologia, sociologia, antropologia, economia, direito, ética, teologia, literatura, história, filosofia, bem como de grande parte das restantes ciências humanas e sociais. Já para não falar de amor, confiança, esperança, desilusão, medo, raiva, frustração, decepção, prazer, desespero, alegria, irritação, expectativa, tolerância, intolerância, lealdade, traição, luxúria, tédio, excitação, ansiedade, dinheiro, pobreza, filhos, esterilidade, compromisso, ruptura, doença, saúde, vida e morte. E praticamente tudo o resto."



"O Mito da Monogamia" de David P. Barash
Sinais de Fogo Publicações
1ª edição, Abril de 2002
Páginas 337 e 338
 
"Para os seres humanos, o sexo tem três grandes funções: reprodutiva, relacional e recreativa. A primeira é óbvia. A segunda tem a ver com a ligação profunda que muitas vezes se desenvolve entre os amantes e que - pelo menos de acordo com a tradição religiosa ocidental - deverá preceder as relações sexuais entre as pessoas. A terceira função do sexo, a recreativa, é indubitavelmente a mais controversa. Mas o facto permanece: o sexo é, ou pode ser, muito aprazível e um poderoso impulso recreativo por direito próprio."



"O Mito da Monogamia" de David P. Barash
Sinais de Fogo Publicações
1ª edição, Abril de 2002
Página 332

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Escombros

"Na casa em ruínas fica ainda durante algum tempo
uma espécie de música rumorosa
que ligava as pessoas e os objectos,
um caderno de deve e haver, uma cédula,
um fragmento iluminado da parede
onde se penduraram retratos,
um bilhete de comboio esquecido na gaveta
da cómoda: mas também isso
são escombros."



"O Uso Dos Venenos" de José Carlos Barros
Língua Morta, Agosto de 2014
Página 75
 
"O ser humano é uma criatura complexa. Os homens e mulheres vivem inseridos num elaborado quadro de prescrições culturais, inclinações biológicas, tradições históricas, processos psicológicos e experiências pessoais. Então, e se a monogamia não for «natural»? E se o adultério for «natural»? Poderá alguma coisa humana ser «natural»? E que diferença faz?
(...)
Em Too Far to Go, John Updike escreveu que o casamento é «um milhão de momentos monótonos partilhados». Sem amor, essa partilha não seria provavelmente procurada; e, com essa partilha, o amor amadurece e desenvolve-se. Contudo, a partilha de um milhão de momentos mundanos também pode tornar-se bastante enfadonha. Os laços sagrados do matrimónio podem converter-se num beco sem saída.
(...)
Não é comum falar-se de um «casamento apaixonado». Falamos, sim, de um bom casamento, de um casamento feliz, confortável ou compatível, mas raramente de um casamento apaixonado. Ou, pelo menos, não por muito tempo."



"O Mito da Monogamia" de David P. Barash
Sinais de Fogo Publicações
1ª edição, Abril de 2002
Páginas 327, 328 e 329
"O impulso para contar histórias, de colocar acontecimentos numa sequência, de formar enredos e conduzi-los à sua conclusão é tão fundamental que é como se estivesse biologicamente enraizado na nossa espécie. Somos levados a estabelecer relações, de A para B e de B para C. Nesse processo, desenvolvemos ideias acerca de como ir de um ponto ao outro, o que impulsiona a história ...
(...)
Os mundos das nossas histórias obedecem muitas vezes a regras diferentes, algumas fantásticas, algumas sóbrias, algumas acontecidas no passado remoto ou em remotas partes do mundo, algumas mais familiares e perto de casa. É isto que a imaginação e a linguagem nos permitem fazer, criar cenas que são diferentes daquilo que temos à frente dos nossos olhos, inventar mundos com palavras."



"O Mundo da Escrita" de Martin Puchner
Temas e Debates - Círculo de Leitores
1ª edição, Outubro de 2018
Páginas 134 e 135

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

" ... se a monogamia representa um estado bastante peculiar e artificial, por que razão terá vingado ... se não mesmo na prática, pelo menos em termos de doutrina oficial? Uma das respostas mais simples atribui o sucesso da monogamia ao facto de que constitui o sistema marital dos países ocidentais, cujo poder militar, económico e cultural lhes permitiu impor essa preferência ao resto do mundo. A verdade, porém, é que esta resposta ilude a questão fundamental: por que razão é aprovada a monogamia - na teoria, se bem que não na prática - nestes países ocidentais?
Até certo ponto, a monogamia poderá ser um exemplo pouco conhecido do triunfo da democracia e da «igualdade de oportunidades», pelo menos para os homens. A poliginia, como já afirmámos, é uma condição do elitismo, no qual um número relativamente reduzido de homens afortunados, implacáveis ou especialmente qualificados conseguem monopolizar mais do que uma mulher. Em contrapartida, a monogamia não permite a ninguém mais do que uma só parceira legal, nem mesmo ao mais poderoso e abastado dos homens; em contrapartida, todos têm a possibilidade de encontrar uma esposa, mesmo os mais pobres. Assim, embora implique um certo grau de repressão da nossa tendência para a diversidade de parceiros sexuais, a monogamia oferece em troca maiores probabilidades de que todos encontrem um parceiro."



"O Mito da Monogamia" de David P. Barash
Sinais de Fogo Publicações
1ª edição, Abril de 2002
Páginas 246 e 247

Os Dias Antigos

 "1. Eis a perfeição aos nomes só entregue.
O verde de uma árvore, o rumor das páginas
dos livros, o brilho da manhã poisando
no infindável movimento das palavras.


4. Desamparado o fluir das frases,
o abandono fulvo das palavras,
o silêncio das manhãs crescendo no interior
dos retratos antigos. Sem nome é o dia de que falamos
nas suas margens perfeitas."



"O Uso Dos Venenos" de José Carlos Barros
Língua Morta, Agosto de 2014
Páginas 25 e 28

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

 
" ... a monogamia não é um sistema natural para a nossa própria espécie. De facto, é bem menos comum do que sugere a visão ingénua e sentimental do "casamento e família". Mas a verdade é que também ocorre, e devemos perguntar porquê.
A resposta mais curta é que ninguém sabe ao certo. Contudo, têm-se desenvolvido muitas especulações interessantes, e nem sempre por parte dos biólogos. No seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels desenvolveu uma teoria que remonta pelo menos a Rousseau e tem provavelmente raízes mais antigas. De acordo com esta teoria, nos primeiros tempos não existiam relações sociais ou sexuais exclusivas. As crianças pertenciam a todos. Depois surgiria o verme primordial na maçã do Éden: a propriedade privada. Aqueles que a possuíam desejavam transmiti-la aos seus descendentes; contudo, com a "omnigamia" - todos a copular com todos -, como distinguir esses descendentes? A solução encontrada foi a monogamia, pela qual os homens passavam a controlar a sexualidade das mulheres, garantindo desse modo herdeiros e validando os seus interesses de propriedade."



"O Mito da Monogamia" de David P. Barash
Sinais de Fogo Publicações
1ª edição, Abril de 2002
Página 240
 
"Sobre a ardósia do empedrado
curvas e rectas feitas a giz

Problema simples e complicado
a geometria destes carris"



"Obra Poética [1948-1995]" de David Mourão-Ferreira
Assírio & Alvim
1ª edição, Novembro de 2019
Página 702
 
"Na nossa própria espécie, parece provável que a relação entre divórcio e infidelidade sexual funcione de diversas maneiras: para começar, o adultério é susceptível de levar ao divórcio; na verdade, tem sido desde há muito tempo a razão mais invocada para a dissolução do matrimónio. Mas, ao mesmo tempo, o adultério não ocorre descontextualizado. Um indivíduo bem casado (ele ou ela) não se encontra subitamente a praticar adultério sem haver antecedentes (...). Mais provavelmente, mesmo que o adultério não seja cuidadosamente planeado, ele é provocado por um determinado grau de vulnerabilidade dentro do casal. Quando o marido ou a mulher percebe que algo está errado, pode muito bem desenvolver-se uma predisposição acrescida para a «procura» de um parceiro alternativo. Neste sentido, a iminência do divórcio - ou, pelo menos, os problemas dentro do casamento - podem também levar ao adultério."



"O Mito da Monogamia" de David P. Barash
Sinais de Fogo Publicações
1ª edição, Abril de 2002
Páginas 189 e 190

Templo Xintoísta

 
"Aqui aprende a pedra
a ser igual à flor

Aqui a flor se adestra
a ser igual ao pássaro

E nós a ser por dentro
pássaro pedra flor

noutra onda do Tempo
noutra curva do Espaço"



"Obra Poética [1948-1995]" de David Mourão-Ferreira
Assírio & Alvim
1ª edição, Novembro de 2019
Página 566

"Se a literatura é um reflexo das inquietações humanas, então a infidelidade tem sido uma das mais compulsivas inquietações da Humanidade, muito antes de os biólogos terem uma palavra a dizer sobre o assunto. A primeira grande obra da literatura ocidental, A Ilíada, de Homero, narra as consequências do adultério (...)
Aparentemente, todas as grandes tradições literárias, pelo menos no mundo ocidental, consideram especialmente fascinante explorar os fracassos da monogamia: Ana Karenina, de Tolstoi, Madame Bovary, de Flaubert, O Amante, de Lady Chatterley, A Letra Encarnada, de Hawthorne, The Golden Bowl, de Henry James."



"O Mito da Monogamia" de David P. Barash
Sinais de Fogo Publicações
1ª edição, Abril de 2002
Páginas 15 e 16
"E os meses vão batendo à nossa porta
Sempre a fingir que são deuses diversos"


"Prolongado crepúsculo
és agora do mundo
o resumo"


"Vagas do equinócio
sois de novo memória
do que é nosso"


"Soubéssemos ao menos a matéria
de que é feito o que em nós não é matéria"



"Obra Poética [1948-1995]" de David Mourão-Ferreira
Assírio & Alvim
1ª edição, Novembro de 2019
Páginas 371, 535, 538 e 608

domingo, 27 de dezembro de 2020

Esdras e a criação da escritura sagrada


"Jerusalém poderá ser o melhor lugar para estudar os efeitos dos textos sagrados, mas está longe de ser o único afectado por eles. Desde Esdras, temos vivido num mundo dominado por escrituras sagradas. As escrituras sagradas são um subconjunto de textos fundadores, os quais criam coesão cultural, contam histórias da origem e do destino e ligam culturas ao passado remoto. Para além destas características mais gerais dos textos fundadores, as escrituras sagradas inspiram devoção e obediência. Isto aplica-se não só às chamadas religiões do livro - judaísmo, cristianismo e islão -, mas também a outras culturas, por exemplo os siques, que adoram as suas escrituras em templos, e os budistas, que colocaram curtos sutras sagrados em estátuas.
Por vezes, estes textos venerados mantêm as culturas reféns de antigas ideias, prendendo-as estritamente ao passado, às letras de um texto. Poderíamos chamar a este efeito fundamentalismo textual. As religiões do livro, o judaísmo, o cristianismo e o islão talvez estejam mais sujeitas ao fundamentalismo textual, mas todas as religiões baseadas em escrituras sagradas experimentaram ondas de fundamentalismo textual a determinado ponto da sua história. E o fundamentalismo textual não se limita também aos textos religiosos. A Constituição dos Estados Unidos, um texto fundador moderno com matizes sagradas, tem a sua quota-parte de intérpretes fundamentalistas, e com outro texto fundador moderno, O Manifesto Comunista, passa-se o mesmo. 
O fundamentalismo textual baseia-se em dois pressupostos contraditórios. O primeiro é de que os textos são imutáveis e fixos. O segundo reconhece a necessidade de os textos serem interpretados, mas restringe a autoridade da sua interpretação a um grupo exclusivo."



"O Mundo da Escrita" de Martin Puchner
Temas e Debates - Círculo de Leitores
1ª edição, Outubro de 2018
Páginas 62 e 63

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A geografia de Colares

"Vou à Praia das Maçãs só para mim e por mim, comovida pela profunda liberdade que ela me inspira. Olho pouco o mar, mais as serras que vejo ao longe; o que eu procuro é restabelecer-me da dispersão, dos sentidos mortos, que morrem, e vejo Hölderlin a sorrir, a contestar a sua presença ao género - este, humano. Levanto-me do lugar onde estou, e vou com ele pela praia, em direcção da terra - lugar de espuma e de kermesse. Sorrimos um ao outro e reparamos nossa angústia pela Poesia, e a marcha do cavalo que somos nós, pensando - escrevendo na direcção um do outro. Para escrever nos afastamos, mas agora - caímos no mesmo pensamento absoluto."



"Sintra em passo de pensamento" de Maria Gabriela Llansol
Feitoria dos Livros, 2019
Página 75