segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"Esta liberdade de pensamento, apanágio do seu novo ofício, constituía para ele um inesgotável manancial de júbilo, um júbilo generoso e sem medida. (...) Como estava agora longe das rabulices estéreis e assassinas dos homens e da sua presunçosa concepção da razão e da vida! Todos esses grandes espíritos, que durante anos e anos admirara, eram para ele agora uns vis intoxicadores, desprovidos de qualquer autoridade. Ensinar a vida sem a viver era o crime da mais detestável ignorância."


"Mendigos e Altivos" de Albert Cossery
Antígona, Editores Refractários
2ª edição, Novembro de 2002
Página 29

"Os animais [haikus]" de Kobayashi Issa

alguém toca shamisen
na pequena aldeia -
a borboleta dança *

* O shamisen é um instrumento tradicional japonês de três cordas


bebendo chá sozinho -
todos os dias a borboleta
pousa para ver


bule do chá -
a borboleta 
pousa com muito cuidado


sob o vento de outono
agarra-se à minha manga
uma pequena borboleta


no cão adormecido
pousa suavemente um chapéu -
folha


casa na montanha -
o canto das cigarras - nocturnas
entra pela manhã



"Os animais [haikus]" de Kobayashi Issa
Assírio & Alvim, Março de 2019
Páginas 63, 66, 74, 76, 85 e 111

domingo, 1 de novembro de 2020

O Japão no Feminino - Tanka ( Séculos IX a XI )


Este amor será
real ou um sonho apenas?
Como hei-de sabê-lo,
se a realidade e o sonho
existem sem existir? *
- Ono No Komachi

* Esta composição é profundamente budista (e platónica, no Ocidente) ao questionar «o mundo do meio». No mundo humano, e em especial no mundo do amor, qual a verdade do sonho e da realidade? O que podemos dizer «real»?


Terá o amor
de acabar em escuridão,
sem que vislumbremos
esse rasgão entre as nuvens
onde o luar enche o céu?
- Ono No Komachi


Ao ver o luar
derramar-se enquanto espreita
através das árvores,
meu coração fica cheio
e transborda neste Outono.
- Ono No Komachi


A aldeia do monte
poderá ser solitária ...
Mas viver aqui
é mais fácil que habitar
entre os desgostos do mundo. *
- Ono No Komachi

* Este poema coincide, no conteúdo, com a lenda a respeito de Komachi, segundo a qual a poetisa terá passado os seus últimos anos nas montanhas, levando uma vida solitária de austeridade budista.


Ao olhar a lua,
no meio do céu, solitária,
pela madrugada,
senti-me completamente
em unidade com ela. *
- Isumi Shikibu

* Esta composição, tal como outros poemas, é profundamente budista na sua expressão de um sentido de unidade entre o poeta e a lua.


Numa enseada
varrida pela maré,
vivemos a boiar.
Num mundo assim, porquê sermos
apegados aos poemas? *
- Isumi Shikibu

* O facto de este poema de desapego pela palavra escrita pertencer à autora de mais de mil poemas, torna-se especialmente comovente. Ele reflecte a ideia de que tudo é sujeito a mudança e de que, em consequência, qualquer tentativa de agarrar as coisas será uma fonte de sofrimento.




"O Japão no Feminino I - Tanka (Séculos IX a XI)" de Luísa Freire
Assírio & Alvim, Setembro 2007
Páginas 25, 26, 31, 33, 50 e 64

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

 

"Quando se meditou muito sobre o homem, por ofício ou vocação, acontece-nos sentirmos nostalgia dos primatas. Esses, ao menos, não têm segundas intenções."


"Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? (...) Mas sabe porque somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. Deixam-nos livres ... Se algo nos impusessem, seria a memória, e nós temos a memória curta."

"É assim o homem, caro senhor, tem duas faces: não pode amar sem se amar."

"Já não dizemos, como nos tempos ingénuos: «Eu penso assim. Quais são as suas objecções?» (...) Substituímos o diálogo pelo comunicado."

"Notou já que há pessoas cuja religião consiste em perdoar todas as ofensas e que efectivamente as perdoam, mas nunca as esquecem?"

"Não nos perdoam a nossa felicidade nem os nossos êxitos senão no caso de consentirmos generosamente em reparti-los. Mas para se ser feliz é preciso não nos ocuparmos muito dos outros."

"Gosto dos cães com uma muito velha e fiel ternura. Gosto deles porque perdoam sempre."


"A Queda" de Albert Camus
Editora Livros do Brasil, 2013
Páginas 8, 28, 29, 37, 40, 63 e 95


"A noite é semelhante ao nome que te dou."



"Quando uma noite me disseste que
eu era um perdido
porque somente sonhava com as folhas
do outono e o tumulto das vozes
de tempos esquecidos e um eco me levava
a abandonados sentidos, a sombrios quartos e
a um mar de ruínas
então percebi o coração de um errante
que não pode malquerer e vai
depois de caminhar tantos dias sem que
vislumbre sequer uma sombra de árvore, vai
náufrago
verso ferido de amor."


"Lua cheia de agosto. Permanece ainda, um
pouco mais somente junto de mim e
partirei para além, para a cinza
do meu corpo
sobre o mar partirei secreto e feliz - se
a tua mão fechar os meus olhos."



"Antologia Dos Poemas" de João Miguel Fernandes Jorge
Relógio D' Água, Outubro de 2019
Páginas 61, 106 e 165

"A Nação Das Plantas" de Stefano Mancuso


"As plantas podem ajudar-nos. Somente elas são capazes de repor a concentração de CO2 em níveis inofensivos. As nossas cidades, ao abrigarem 50% da população mundial (70% em 2050), são igualmente os lugares do planeta responsáveis pela produção das maiores quantidades de CO2. Deveriam estar completamente cobertas de plantas. Não unicamente nos espaços designados: parques, jardins, alamedas, canteiros, etc, mas em todo o lado, literalmente: nos telhados, nas fachadas dos prédios, ao longo das ruas, nos terraços, varandas, chaminés, semáforos, divisórias das estradas, etc. A regra deveria ser unicamente uma e simples: onde quer que seja possível fazer crescer uma planta deveria haver uma. Os custos seriam irrelevantes, a vida das pessoas melhoraria de muitas maneiras, não exigiria nenhuma revolução nos nossos hábitos, como muitas das soluções alternativas propostas, e teria um grande impacto na absorção de dióxido de carbono. Defendamos as florestas e cubramos de plantas as nossas cidades ... O resto não tardará a acontecer."



"A Nação Das Plantas" de Stefano Mancuso
Editora Pergaminho
1ª edição, Fevereiro de 2020
Páginas 94 e 95

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

 

"De todos os ofícios que um homem sensível e depressivo poderia ter abraçado, poucos são mais arriscados do que o de escritor sério. (...) Escrever implica revelar. «Não fui eu, mas sim o poeta que descobriu o inconsciente», disse Freud, e um psicanalista de um psicanalista talvez tivesse reconhecido aqui o ranger de dentes da inveja. Escrever é dar rédea solta à mente, deixando-a gritar a plenos pulmões e partir a loiça, depois mergulhar nas profundezas deste pandemónio, na esperança de voltar à tona com algo de regrado e belo.

(...)
Alguma vez sentiste vontade de te libertares das amarras da vida, de te refugiares numa espécie de contemplação solitária, para meditares um certo tempo acerca de todas as coisas? Todas as coisas. Tu. Ela. Tudo. Eles. Pois bem, é assim que um poeta se sente, porque um poeta não é diferente das outras pessoas. O que torna um poeta diferente é que ele arranja tempo para anotar todos os seus pensamentos. Numa forma bela."


"I'm Your Man - A Vida de Leonard Cohen"
Edições Tinta da China
1ª edição, Outubro de 2019
Páginas 96 e 261

Empatia significa «sentir com»

"A investigação cerebral fala-nos de três tipos de empatia. A empatia cognitiva permite-nos compreender como a outra pessoa pensa; vemos a sua perspectiva. Na empatia emocional, sentimos aquilo que o outro está a sentir. E a terceira, a preocupação empática ou cuidado, reside no âmago da compaixão.
A palavra empathy entrou na língua inglesa apenas nos primeiros anos do século XX, como tradução da palavra alemã Einfühlung, que poderá ser traduzida por «sentir com». A empatia puramente cognitiva não inclui tais sentimentos de simpatia, ao passo que o sinal definidor da empatia emocional é sentirmos no nosso corpo aquilo que a pessoa em sofrimento está a sentir.
Mas, quando aquilo que estamos a sentir nos perturba, muitas vezes a nossa reacção seguinte é desligarmo-nos, o que nos ajuda a sentirmo-nos melhor, mas bloqueia a acção compassiva. No laboratório, uma das formas pelas quais este instinto de recuo surge é nas pessoas que desviam o olhar das fotografias que retratam sofrimento intenso - como um homem tão dolorosamente queimado que a sua pele se despegou. De modo semelhante, os sem-abrigo queixam-se de que se tornam invisíveis - aqueles que passam na rua ignoram-nos, o que é uma outra forma de desviar o olhar do sofrimento.
Uma vez que a compaixão começa pela aceitação do que está a acontecer ao outro sem nos desviarmos - um primeiro passo essencial no sentido de realizar uma acção que auxilie -, poderão as meditações que cultivam a compaixão contribuir para isso?"


"Traços Alterados" de Daniel Goleman e Richard J. Davidson
Temas e Debates
1ª edição, Fevereiro de 2018
Página 126

domingo, 16 de agosto de 2020

 

"Estou terrivelmente ansioso por regressar para junto do mar, onde a alma acicatada pode refazer-se de novo com o sossego e a vastidão infinitos."

(...)
"O mar, como sempre, tem uma grandeza e simplicidade cósmicas e obriga ao silêncio, pois o que é que o ser humano pode aqui dizer, especialmente quando o oceano está sozinho de noite com o céu estrelado? Olha-se silenciosamente para além, renunciando a todo o poder próprio, e muitas velhas palavras e imagens passam-nos pela mente. Uma voz baixinho diz alguma coisa a respeito do que é antiquíssimo e da infinitude do «mar imenso e murmurante», das «ondas do mar e do amor», de Leucoteia, a encantadora deusa que, aparecendo na espuma das vagas que rebentam, prepara para Ulisses, cansado da viagem, o fino véu de pérolas que traz a salvação. O mar é como música, tem em si e toca todos os sonhos da alma. O belo e grandioso mar reside em que somos forçados a descer aos fundos frutíferos da própria alma e a defrontarmo-nos criativamente na vivificação do «deserto triste do mar».



"Memórias, Sonhos, Reflexões" de C.G. Jung
Relógio D' Água Editores, Julho de 2019
Páginas 362, 364 e 365

Meu irmão, tu nada sabes da noite

 

"Meu irmão, tu nada sabes da noite,

nada sabes deste tormento que inteiramente me prostrou,
do mesmo modo que a poesia, que transportou a minha alma,
nada sabes destes mil crepúsculos, mil espelhos,
que me hão-de precipitar no abismo.
Meu irmão, tu nada sabes da noite,
que eu tive de vadear como o rio,
cujas almas foram há muito estranguladas pelos mares,
e nada sabes da fórmula de esconjuro
que a nossa Lua me abriu entre os ramos secos
como um fruto da Primavera.
Meu irmão, tu nada sabes da noite,
que me impeliu através das sepulturas do meu pai,
que me impeliu através de florestas maiores do que a Terra,
que me ensinou a ver nascer e pôr o Sol
nas trevas doentes do meu trabalho diário.
Meu irmão, tu nada sabes da noite,
do desassossego que atormentou a argamassa,
nada sabes de Shakespeare nem da caveira brilhante
que carregou, como pedra, cinza por milhões multiplicada,
que rolou para as costas brancas,
sobre guerra e podridão em risada contínua.
Meu irmão, tu nada sabes da noite,
porque o teu sono passou por entre os troncos fatigados
deste Outono, através do vento, que lavou os teus pés como a neve."



"Na Terra E No Inferno" de Thomas Bernhard
Assírio & Alvim, Outubro de 2000
Página 129

 

"É importante termos um segredo e o pressentimento de alguma coisa que não é possível saber. Isso preenche a vida com algo impessoal, um numinoso. Quem nunca experimentou isto perdeu uma coisa importante. O ser humano tem de sentir que vive num mundo que, em certo sentido, é misterioso; que, nesse mundo, acontecem e podem ser experimentadas coisas que permanecem inexplicáveis, e não apenas aquelas que acontecem dentro do que é expectável. O inesperado e o inaudito fazem parte deste mundo. Só então é que a vida está completa."


"Como é que se pode viver sem incoerências?"

" ... há tantas coisas que me preenchem: as plantas, os animais, as nuvens, dia e noite e o eterno nas pessoas."



"Memórias, Sonhos, Reflexões" de C.G. Jung
Relógio D' Água Editores, Julho de 2019
Páginas 352, 354 e 355

 "Nancy Bacal, uma outra grande amiga, que conhece Leonard desde os seus tempos de rapaz, recorda-o nessa fase como «uma pessoa especial, mas de uma maneira discreta. Há nele uma aparente contradição: alguém que assume a liderança com toda a naturalidade, ao mesmo tempo que permanece invisível. A intensidade e a energia dele operam de um modo subterrâneo». Uma mescla curiosa, esta natureza a um tempo extrovertida e reservada, mas Leonard parecia sentir-se bem na sua pele."



"I'm Your Man: A vida de Leonard Cohen"
Edições Tinta da China
1ª edição: Outubro de 2019
Página 41

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

 

"A solidão não surge por não se ter pessoas à volta, mas sim por não se lhes poder comunicar as coisas que nos parecem importantes ou por darmos valor a ideias que, para os outros, são improváveis. 

(...)
A solidão, porém, não está necessariamente em oposição ao companheirismo, na medida em que ninguém é mais sensível ao companheirismo do que o solitário e o companheirismo só floresce onde cada um em particular se recorda da sua maneira de ser própria e não se identifica com os outros."



"Memórias, Sonhos, Reflexões" de C.G. Jung
Relógio D' Água Editores, Julho de 2019
Página 352

Num tapete de água

 

"Num tapete de água

vou bordando os meus dias,
os meus deuses e as minhas doenças.

Num tapete de verdura
vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,
as minhas manhãs azuis,
as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.

Num tapete de terra
vou bordando a minha efemeridade.
Nele vou bordando a minha noite
e a minha fome,
a minha tristeza
e o navio de guerra dos meus desesperos,
que vai deslizando p'ra mil outras águas,
para as águas do desassossego,
para as águas da imortalidade."



"Na Terra E No Inferno" de Thomas Bernhard
Assírio & Alvim, Outubro de 2000
Página 125

 "Nem desejo nem deixo de desejar que tivéssemos uma vida depois da morte e também não quereria alimentar ideias dessas; mas, para dar a palavra à realidade, tenho de constatar que, sem o meu desejo e sem o meu contributo, há ideias desse género a girar em mim. Não sei minimamente se são verdadeiras ou falsas, mas sei que existem e podem ser expressas, se eu não as reprimir por causa de um qualquer preconceito. Mas os preconceitos incapacitam e deterioram a manifestação plena da vida psíquica, sobre a qual sei demasiado pouco para poder corrigi-la com um saber superior. Ultimamente, a razão crítica fez, aparentemente, desaparecer a ideia da vida depois da morte, junto com muitas outras concepções místicas. Isto só foi possível porque as pessoas, hoje em dia, se identificam, na maior parte, exclusivamente com a sua consciência, e imaginam que são apenas aquilo que sabem de si próprias. Quem quer que faça uma mínima ideia da psicologia pode facilmente dar-se conta de como este conhecimento é limitado. O racionalismo e o doutrinarismo são a doença da nossa época; fazem de conta que sabem tudo. Mas ainda há-de descobrir-se muitas coisas que, hoje, da nossa perspectiva limitada, designamos como impossíveis. Os nossos conceitos de espaço e de tempo só têm uma validade aproximada e deixam, portanto, em aberto um vasto campo de desvios relativos e absolutos. Tendo em consideração tais possibilidades, eu empresto aos mitos maravilhosos da alma um ouvido atento e observo as coisas que me acontecem, independentemente de se ajustarem aos meus pressupostos teóricos ou não."




"Memórias, Sonhos, Reflexões" de C.G. Jung
Relógio D' Água Editores, Julho de 2019
Páginas 299 e 300

Entrevista de Olga Tokarczuk à Revista E (08 de Agosto de 2020)


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

"A minha comoção mostrou-me que a colina de Sanchi representava algo central para mim. Era o Budismo que me aparecia ali numa nova realidade. Compreendi a vida de Buda como a realidade do eu, que penetrou numa vida pessoal e a reivindicou para si. Para Buda, o ego está acima de todos os deuses e representa a essência da existência humana e do mundo em geral. Enquanto um unus mundus, ele abrange tanto o aspecto do ser em si como também o do seu ser reconhecido, sem o qual o mundo não existe. Buda viu e compreendeu, sem dúvida, a dignidade cósmica da consciência humana; por isso, viu, com clareza, que, se fosse possível apagar a luz da consciência, o mundo se afundaria no nada. O mérito imortal de Schopenhauer foi ter ainda reconhecido isto ou tê-lo reconhecido de novo.
Também Cristo é - como Buda - uma encarnação do eu, mas num sentido muito diferente. Ambos são superadores do mundo: Buda é-o a partir de uma percepção, por assim dizer, racional; Cristo é-o como vítima escolhida pelo destino. No Cristianismo, sofre-se mais, no Budismo, vê-se e faz-se mais. Ambas as coisas estão certas, mas, no sentido indiano, Buda é o ser humano mais completo. É uma personalidade histórica e, por isso, mais compreensível para as pessoas. Cristo é um ser humano histórico e deus e, por isso, muito mais difícil de captar. No fundo, ele não era compreensível mesmo para si próprio; só sabia que tinha de sacrificar-se, como lhe era imposto do fundo do seu íntimo. O seu sacrifício atingiu-o como um destino. Buda agiu pela sua percepção. Viveu a sua vida e morreu velho. Cristo, provavelmente, só por muito pouco tempo esteve activo como aquilo que é."


"Memórias, Sonhos, Reflexões" de C.G. Jung
Relógio D' Água Editores, Julho de 2019
Páginas 278 e 279

Por trás das árvores há um outro mundo

"Por trás das árvores há um outro mundo,
o rio traz-me as queixas,
o rio traz-me os sonhos,
o rio fica silente quando eu, à noite, nas florestas,
sonho com o Norte ...

Por trás das árvores há um outro mundo,
que o meu pai trocou por dois pássaros,
que a minha mãe trouxe para casa num cesto,
que o meu pai perdeu no sono, quando tinha sete anos e estava 
cansado ...

Por trás das árvores há um outro mundo,
uma erva que sabe a tristeza, um sol negro,
uma lua dos mortos,
um rouxinol que não pára de se queixar
do pão e do vinho
e do leite em grandes jarros
na noite dos prisioneiros.

Por trás das árvores há um outro mundo,
eles descem em longos sulcos
para as aldeias, para as florestas dos milénios,
amanhã perguntem por mim,
pela música dos meus achaques,
quando o trigo apodrece, quando de ontem
nada ficou, dos seus quartos, sacristias e salas de espera.
Quero deixá-los. Já não quero
falar com nenhum,
eles atraiçoaram-me, os campos sabem-no, o sol
há-de defender-me, eu sei,
cheguei tarde de mais ...

Por trás das árvores há um outro mundo,
aí há uma outra quermesse,
na caldeira dos camponeses bóiam os mortos e em volta dos charcos
derrete-se em silêncio a gordura dos esqueletos vermelhos,
aí já nenhuma alma sonha com a roda do moinho,
e o vento compreende
apenas o vento ...

Por trás das árvores há um outro mundo,
a terra da podridão, a terra
dos negociantes,
deixa atrás de si uma paisagem de sepulturas
e tu irás destruir, irás dormir cruelmente
e beber e dormir
de manhã à noite, de noite até de manhã,
e não hás-de entender mais nada, nem o rio nem a tristeza,
porque por trás das árvores,
amanhã,
e por trás dos montes,
amanhã, 
há um outro mundo."


"Na Terra E No Inferno" de Thomas Bernhard
Assírio & Alvim, Outubro de 2000
Páginas 61 e 63

"Quanto menos compreendemos daquilo de que os nossos pais e avós andaram à procura, tanto menos nos compreendemos a nós próprios e ajudamos com todas as forças a aumentar a falta de instinto e de raízes do indivíduo ..."

"Para o oriental, o problema moral parece que não está em primeiro lugar, como entre nós. O bom e o mau estão, para ele, adequadamente contidos na natureza e, no fundo, são apenas diferenças graduais de uma e a mesma coisa."

"Em geral, o ser humano atribui grande importância aos laços sentimentais. Mas estes continuam a conter projecções, e é preciso prescindir destas, para chegar a si próprio e à objectividade. As relações sentimentais são relações do desejo, carregadas de coacção e falta de liberdade; espera-se alguma coisa do outro com a qual este e nós próprios nos tornamos dependentes."


"Memórias, Sonhos, Reflexões" de C.G. Jung
Relógio D' Água Editores, Julho de 2019
Páginas 239, 275 e 296