sábado, 21 de maio de 2022

"Imagens - uma antologia de inéditos" de Luísa Freire

 
"Meio-dia vertical -
a sombra esconde-se dentro
de nós"


"Perfeição é aceitar
sem lamento e sem remorso
a nossa própria imperfeição"


"Prendemos o que já perdemos, com medo de o perder."



"Imagens - uma antologia de inéditos" de Luísa Freire
Companhia das Ilhas
1ª Edição, Janeiro de 2022
Páginas 19, 105 e 138

domingo, 8 de maio de 2022

 "As palavras certas: não há palavras certas.
Há certas palavras não assinaladas
as que nada fazem senão dar a presença
da perturbação - só o bastante
para converter e desarmar."



"Arte Nenhuma" de Carlos Poças Falcão
Língua Morta / Livraria Snob
Outubro de 2020
Página 391
 
"Pergunto se é preciso dizer tudo do princípio:
viver é pelo centro e quando a morte existe
nada repousa em nada. Talvez que um poema
nunca chegue ao fim, talvez ele ressoe
só antes de início. Quantas vezes peço às árvores:
dai-me o som de uma ramagem, uma luz de primavera.
Mas é-me oferecido um balbuciar impuro,
a luz de um deus maciço. Recomeçar então
a escutar folhagens, a terra a macerar
desde os anéis às ramas. Criação pelo princípio.
Mãe, embebimento, labareda mergulhada
que centra e ramifica, solve e coagula."



"Arte Nenhuma" de Carlos Poças Falcão
Língua Morta / Livraria Snob
Outubro de 2020
Página 227

Os Dias

 
"Nos dias de chuva não é tão simples ver
a orientação dos cumes, os movimentos altos
que se manifestam numa incerteza estranha.
Banha-nos a água, em sossego, como plantas.
Países inteiros deixam-se molhar, assentem
na precipitação. Mas tudo desconhecem
dos caules que estremecem, das ramificações.
Apenas ficam escuros, trabalham, ficam escuros.
Durante as estações tanta coisa quer morrer!
Um aguaceiro, porém, encanta as folhas,
perfuma as argilas, e um dia é consumado
para exemplo da alma, sem sombras, mas difuso."



"Arte Nenhuma" de Carlos Poças Falcão
Língua Morta / Livraria Snob
Outubro de 2020
Página 217

sábado, 7 de maio de 2022

 
"Nas regiões lacustres e nos deltas, nessas
disposições da alma onde as águas só murmuram,
há movimentos fundos, inquietações
que flutuam, elas e as recordações.
Os pescadores mergulham, os olhos procuram
os sinais e por estações luxuriantes
ungem-se os amantes, espalham-se perfumes.
Regiões que passam e não voltam: eu já
fui fragrante. Essas ilusões que alimentam,
tardes pensativas, paisagens que se perdem
de memória - é a palavra amor que as recorda
com o coração contido, as águas estuantes."



"Arte Nenhuma" de Carlos Poças Falcão
Língua Morta / Livraria Snob
Outubro de 2020
Página 127
 
"Falarei da luz que há na luz
na treva que há na treva dessa luz.
Jogarei com as árvores e a terra
toda a infância será ressuscitada.
Direi que o poema é obscuro. Dele
direi que é um sol negro. Da pele
falarei, do mais profundo.
Falarei dos astros com silêncio
e de mim como do mar murmurarei.
Aviso que nada descobrirei."



"Arte Nenhuma" de Carlos Poças Falcão
Língua Morta / Livraria Snob
Outubro de 2020
Página 19
 
"Amar agora os fragmentos. Os nítidos
pedaços de sentidos. Os momentos
fixados a brilhar. A quase perfeição
que há nesses momentos. Somos líquidos
amamos a fragmentação, a incansável
desordem da matéria. Com a pequena voz
enfrentamos o tempo, com a brancura
de uma subtil lenta paixão. Ao unirmos
separamos. Intuímos uma funda duração
um denso envolvimento, uma gravitação."



"Arte Nenhuma" de Carlos Poças Falcão
Língua Morta / Livraria Snob
Outubro de 2020
Página 15

segunda-feira, 18 de abril de 2022

"A Margem De Um Livro" de Rui Nunes

 
"Esta voz incerta como uma ruína.
(Mas as ruínas petrificam o incerto. Tornam-no exacto.)
Descobre-se o canto:
Orfeu, no abismo de cada passo."



"O gesto escondido na minha mão desde que nasci, o objecto 
exacto que foi ganhando toda a exactidão no seu esconderijo.
O frio do metal na têmpora: o silêncio chegará mais rápido do
que o som
:
a morte é um olhar
que não te pertence."



"Cada palavra
tacteia
tutela
o início
:
O mensageiro chega ofegante, com a boca cheia de destroços.
Não os da mensagem, mas os da sua decifração
:
A inutilidade: eis o motor da escrita."



"Encontrar a palavra que uma palavra esconde, uma palavra
tornada frágil por outra palavra. Escrever: um percurso de fragilização.
:
Algumas palavras agarram-se à máscara da harmonia ou da 
verdade: frágil, por exemplo. Fraco tem a iminência de uma
queda, de uma doença, é um tabique a descascar, caliça a
desprender-se, madeiras podres; fraco tem na sua proximidade
uma qualquer morte, uma qualquer ruína. Mas frágil, ah
frágil, entra-lhe a beleza por todas as letras. Poros (esporos)."




"A Margem De Um Livro" de Rui Nunes
Officium Lectionis, 2021
Páginas 09, 13, 19 e 21

sexta-feira, 1 de abril de 2022

"A Palavra Imediata - Livro de Horas IV" de Maria Gabriela Llansol

 " __________ a primeira imagem do Diário não é, para mim, o repouso na vida quotidiana, mas uma constelação de imagens, caminhando todas as constelações umas sobre as outras. Qualquer aprendiz imagético, quando sobe ao meu quarto e atravessa o meu escritório, tem o sentimento de que «um belo lixo de imagens se criou aqui». Se for menos inocente dirá: «que belo luxo de imagens». Eu diria: aqui está a raiz de qualquer livro."


"Observar é o primeiro modo de escrever; o primeiro entre outros igualmente principais."


"nuvens luminosas que atravessam a água e a areia ___________
«implantarei rios no meio da solidão»


"Cada estação é um rumor simbólico do tempo."


"O tempo deixou de ser linear, é uma estrela."


" ... o texto habita em qualquer morada."


" ... se escrevo é para exprimir quanto um livro é secundário no espaço dos interesses pouco fundos do comércio da literatura. Refiro-me ao comércio dos escritores, e dos que os acompanham constantemente para os empobrecer da consciência da escrita. Há uma desordem de valores, e uma perda de perspectiva; um verdadeiro texto principia por ser um interesse particular que repete um acto universal. Infelizmente, na literatura portuguesa contemporânea quase não há interesses particulares. Limpa dos ramos da adulação, e das perspectivas monetárias e que dão prestígio, tornou-se um tronco seco e nu; de quem escreve para quem lê, sustentado por mil nadas que enganam - o que falta é precisamente o texto."




"A Palavra Imediata - Livro de Horas IV" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2014
Páginas 10, 13, 14, 152, 158, 162 e 220

terça-feira, 8 de março de 2022

 
"O fotógrafo esquece (não precisa de lembrar)
que a luz satura o mundo.
Os corpos e as paisagens revelam-se-lhes expostos
e mesmo a opacidade (luminescência interna)
é feita para os olhos, num aparecer de formas,
de sombras e desejo.

Mas se a foto escreve luz, já a luz escreve sombra.
A própria fotografia é ao modo de uma sombra
sombra que se solta como folha de um outono.

Fotografar as sombras é uma arte de mistérios:
a imagem não suporta demasiada luz
e a escuridão profunda não se deixa imaginar.

O fotógrafo trabalha num recorte de penumbras
captando (capturando) espectros luminosos
silêncios fugidios, movimentos, corpos tensos
expostos numa sombra de uma sombra de uma sombra."



"Sombra Silêncio" de Carlos Poças Falcão
Opera Omnia, Outubro de 2018
Página 47
 
"É na fragilidade do teu nome que resguardas
palavras para um tempo de secura e esquecimento.
A liberdade ampara-as e o desejo pronuncia-as
até que sejam corpo do teu corpo e irradies.

Não é de muita água que precisa o dia fértil
numa concha da palavra é ouvido o mundo todo
-e a vida vai fendendo as durezas mais rugosas
não como veios de água ou aflorações do sangue
mas com uns versos frágeis e volantes, quase ditos.

Do poema é a voz pobre. Respirando a céu aberto
ele vem da escuridão, já perdido de si mesmo.
Até que ouça luz de alguma luz - e fique escrito."



"Sombra Silêncio" de Carlos Poças Falcão
Opera Omnia, Outubro de 2018
Página 37
 
"Subir uma montanha é fincar-se ainda à terra
ascender a altos cumes é ainda horizontal.
Subidas verdadeiras são as feitas sem dar passos
e a ascensão é como uma paragem que se eleva.
 
Entretanto os montes pedem mais respiração
aproximam quem caminha a um ponto de silêncio
às paisagens nuas que os humanos não dominam.

Aí nas altitudes onde o vento é sempre novo
também os corações pressentem a vertigem
de algo que se abre, realidade original.

Por isso os montanhistas, os esforços de ascensão
ao lugar dos cimos, das giestas e das águias,
lugar das fontes vivas e dos cedros quase eternos.

Porém uma montanha é apenas superfície
ninguém se eleva mais que o lugar dos próprios pés
ninguém pode ir mais longe que a moldura do seu corpo.

Só o desejo impele infinito a outra subida
uma subida a um rosto, a um corpo que se ama
- e essa é a montanha, o amor, a sarça, o Deus."



"Sombra Silêncio" de Carlos Poças Falcão
Opera Omnia, Outubro de 2018
Página 22

quarta-feira, 2 de março de 2022

Cogumelos de Setembro

 
"Voltei a sentir a sua falta este ano.
Eu estava imersa noutro lugar
quando o tempo se alterou
e caiu chuva suficiente.

À sombra das árvores, furtivamente,
irromperam através da lama arenosa
e da húmida folhagem -

um pedaço de cor, depois outro -
transportando enigmáticas notícias
do que acontece lá em baixo:
a lenta dissolução do pau-santo,
os filamentos, os pequenos nós como punhos,
montando a sua rede e névoa.

Alguns eram vermelho-vivo, outros púrpura,
alguns castanhos, alguns brancos, outros amarelo-limão.
Durante a noite acotovelavam-se,
desdobrando-se como húmidos leques, esponjas vivas,
quais pratos de radar, escutando.

O que terão ouvido do humano mundo
do assim chamado luz e ar?
Que mensagem enviaram para baixo
antes de murcharem?
Terá sido Cuidado?

Repara. O que sobra:
um globo de couro de esporos empoeirados,
uma pétrea lua mordiscada,
uma meia-esfera seca,
uma orelha escurecida."




"Afectuosamente" de Margaret Atwood
Bertrand Editora
1ª Edição, Julho de 2021
Páginas 235, 237

Suíte do Plasticeno

 
1. Objecto tipo pedra na praia

O Paleoceno o Eoceno
o Mioceno o Pleistoceno
e eis-nos agora aqui: o Plasticeno.

Olha, uma rocha feita de areia
e uma de cal, e uma de quartzo,
e uma de o que é isto?

É preto e listrado e escorregadio,
não exactamente uma pedra
nem uma não-pedra.

Na praia pelo menos.
Óleo petrificado, com uma veia escarlate,
parte de um balde talvez.

Quando desaparecermos e os alienígenas chegarem
para decifrar os nossos fósseis:
será isto um testemunho?

De nós: da nossa tão breve história,
da nossa inteligência, da nossa negligência,
da nossa morte repentina?



2. Débeis esperanças

Poderias transformá-lo em óleo
fervendo-o: isso já foi feito.
Primeiro terias de o apanhar.
Haveria também o cheiro.

Alguns supermercados proibiram-no.
Também as palhinhas.
Talvez venha a haver um imposto
ou outras leis.

Há micróbios que o comem -
já foram descobertos.
Mas a temperatura tem de ser alta:
não aplicável ao mar do Norte.

Podes prensá-lo a imitar madeira
mas somente alguns tipos.
E em blocos para construção, também.

Podes colhê-lo dos rios
antes que chegue ao mar.
Mas e depois? O que fazes com ele?

Com o avassalador, contínuo
infindável derramamento?



3. Folhagem

«um pedaço de plástico preto - a folhagem que define a era do petróleo»
Mark Cocker, Our Plate

Brota por todo o lado, esta folhagem.
Do alto das árvores, como visco,
ou presa nos pântanos

ou florescendo em lagoas como nenúfares,
ataviada e ostensiva,
ondulando como se estivesse viva

ou dando às praias, neo-algas
de sacos rasgados, embalagens descartadas, corda emaranhada
retalhada por rochas e marés.

Mas ao contrário da folhagem verdadeira não tem raízes
e não dá nada em troca,
uma caloria vazia sequer.

Quem a planta, esta inútil safra?
Quem a colhe?
Quem poderá dizer Basta?"




"Afectuosamente" de Margaret Atwood
Bertrand Editora
1ª Edição, Julho de 2021
Páginas 167, 169 e 171

terça-feira, 1 de março de 2022

Alma de pássaro

 
"Se os pássaros são almas humanas
Que pássaro és tu?
Um pássaro de Primavera com um canto alegre?
Um que voe alto?

És tu um pássaro nocturno?
Observando a Lua
Cantando Sozinha, Sozinha,
Cantando Morta Cedo Demais?

És uma coruja,
Predadora de penas macias?
Estás à caça, a caçar incansavelmente
A alma do teu assassino?

Sei que tu não és um pássaro,
Embora saiba que voaste
Para tão, tão longe.
Preciso que estejas em algum lugar ..."



"Afectuosamente" de Margaret Atwood
Bertrand Editora
1ª Edição, Julho de 2021
Páginas 80, 81
 
"Aproxima-te. Preciso dos teus olhos acesos para não me despenhar no vazio. Para não ter frio."


"Nunca atirei a pedra exacta para o lugar certo. E abri feridas em todas as direcções."


"Nunca cumpras todas as promessas. É um modo muito triste de morrer."


"Falar é uma morte muito violenta. Mas nos teus braços morrerei, se me escutares."


"Acordo de madrugada sem saber para onde vou. A lua entra-me nos vidros, no quarto, no sangue minguante."


"Mãe, sinto a clarividência a queimar-me, o fogo de ver como os cegos o miolo das coisas, a violência do mundo de dentro. Chama-me para fora. Só não quero morrer às escuras."


"Mãe, sinto as mãos a tremer. Ponho-as debaixo dos braços, coloco-as nos joelhos, sobre a cabeça. Não sei o que fazer. Toma-as. Esvazia-as por inteiro. Bato com elas no peito, bato com elas nas portas, bato-as uma na outra - e nunca afugento a solidão."


"Mãe: sinto o nevoeiro denso das manhãs de transumância. Abeiro-me das margens, das pontes, de todas as coisas que ligam uma nascente ao seu fim. Esmola, orvalho, pão. Tudo isso me dão. Eu só quero a luz."




"Sétimo Dia" de Daniel Faria
Assírio & Alvim
1ª Edição, Junho de 2021
Páginas 35, 56, 108, 126, 143, 144, 148 e 150

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

"Os Cantores De Leitura" de Maria Gabriela Llansol

 
"para sobreviver há uma sobreposição de notas pessoais _________ de pessoas _________ que tenho de ouvir ________ e essas pessoas devem girar constantemente nas suas múltiplas faces ________ de que eu recebo algumas, e afasto outras."



"É uma verdade que nos serena, sabermos que somos variações da luz."



"Ler é, constantemente, um trabalho de levantar, um acasalamento entre mentes/sementes, entre mentes e sementes, que se põem em determinado sítio da terra de uma e depois no húmus de outra, com paixão."



"Amor meu, a invenção constante é uma ave plena. Mas eu não sei para que ave me dirijo."



"Colocou a cabeça entre as mãos habituadas a sentir o perfume das páginas habitadas. De sublinhar a lápis com cuidado, desejando tudo menos agredir quem se ama e, sobretudo, a razão por que se ama. Amava aquela companhia, o tratamento de conhecimento altamente libidinal que dava às páginas que, quando ele queria, adormeciam nos seus joelhos. Era o palpável - para o seu corpo a escrever em cima de outro - quando traduzia, ou seja, quando acolhia o próximo na morada da sua alma. Não admitia a deslocação de uma língua para a outra sem questionar-lhe o destino. As reverberações de sentido variavam com as sonoridades."




"Os Cantores De Leitura" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim, Outubro de 2007
Páginas 32, 83, 182, 185 e 217

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

 
"A sopa de miso vermelho, por exemplo, que todas as manhãs consumimos: se repararem um pouco na sua cor, compreenderão facilmente que foi inventada nas casas sombrias de antigamente. Um dia, convidado para uma reunião de chá, aconteceu apresentarem-me miso. E a essa sopa lodosa, cor de argila, que sempre consumira sem lhe prestar atenção, descobri, de súbito, sob a luminosidade difusa das velas, ao vê-la estagnar no fundo da taça negra lacada, uma verdadeira profundidade e uma cor das mais apetecíveis."



"Elogio Da Sombra" de Junichiro Tanizaki
Relógio D'Água Editores, Fevereiro de 1999
Páginas 28 e 29
 
"Alguns poderão dizer que a beleza enganadora criada pela penumbra não é a beleza autêntica. Todavia, e tal como o dizia atrás, nós os Orientais criamos beleza ao fazermos nascer sombras em locais por si mesmos insignificantes.
(...)
... creio que o belo não é uma substância em si, mas apenas um desenho de sombras, um jogo de claro-escuro produzido pela justaposição de diversas substâncias. Tal como uma pedra fosforescente que emite brilho quando colocada na escuridão e ao ser exposta à luz do dia perde todo o fascínio de jóia preciosa, também o belo perde a sua existência se lhe suprimirmos os efeitos da sombra."


"Qual poderá ser a origem de uma diferença de gostos tão radical? Pensando bem, é porque nós, Orientais, procuramos acomodar-nos aos limites que nos são impostos, que desde sempre nos satisfizemos com a nossa presente condição; consequentemente, não sentimos repulsa alguma pelo que é obscuro, resignamo-nos a ele como a algo inevitável: se a luz é fraca, pois que o seja! Mais, afundamo-nos com delícia nas trevas e descobrimos-lhes uma beleza própria.
Pelo contrário, os Ocidentais, sempre à espreita do progresso, agitam-se incessantemente na procura de uma condição melhor que a actual. Sempre em busca de uma claridade mais viva, afadigaram-se, passando da vela ao candeeiro de petróleo, do petróleo ao bico de gás, do gás à iluminação eléctrica, para cercar o menor recanto, o último refúgio da sombra."


"Alguma vez, vocês que me lêem, viram «a cor das trevas à luz de uma chama»? São feitas de uma matéria diferente das trevas da noite numa estrada, e se posso arriscar uma comparação, parecem feitas de corpúsculos como que de uma cinza ténue, onde cada parcela resplandecesse com todas as cores do arco-íris."



"Elogio Da Sombra" de Junichiro Tanizaki
Relógio D'Água Editores, Fevereiro de 1999
Páginas 47, 48 e 49
 
"São ainda os Chineses que apreciam essa pedra a que chamamos jade: não seria, de facto, necessário sermos Extremo-Orientais como somos para achar atraentes esses blocos de pedra, estranhamente enevoados, que aprisionam nas profundezas da sua massa vagas luzes fugitivas e indolentes, como se neles se tivesse coagulado um ar várias vezes centenário?"


"Comprazemo-nos nessa claridade ténue, feita de luz exterior de aparência incerta, retida na superfície das paredes de cor crepuscular, e que conserva com dificuldade uma última réstia de vida."


" ... contemplando as trevas escondidas atrás da viga superior, em redor de uma jarra de flores, sob uma prateleira, e sabendo perfeitamente que são sombras insignificantes, experimentamos a sensação de que, nesses locais, o ar encerra uma espessura de silêncio, que uma serenidade eternamente inalterável reina nessa escuridão. Afinal, quando os Ocidentais falam de «mistérios do Oriente», é bem possível que se refiram a essa calma um pouco inquietante que a sombra segrega quando possui essa qualidade."




"Elogio Da Sombra" de Junichiro Tanizaki
Relógio D'Água Editores, Fevereiro de 1999
Páginas 21, 32 e 34