domingo, 16 de abril de 2023

"A Intacta Ferida" de António Ramos Rosa (II)

 "A erva fresca
tão próxima do que ninguém diz
mas se por ela passa
alguém que a olha
pode sentir que nada mais existe
do que esse frémito do eterno"


"O que escrevo por vezes
é como se um corpo de sombra
no meu corpo abrisse
o espaço de um silêncio
um espaço intacto e puro"


"Corpo
que avanças sempre
entre as tuas sombras
se tu respiras
é porque chamas
a tua própria luz
suspensa desse lábio
que bebe a tua sombra"


"Tudo o que queres
a densidade
a duração
o equilíbrio

como se de ti dependesse
como se as coisas esperassem
a luz da tua sombra"



António Ramos Rosa em "A Intacta Ferida"
Relógio D´Água, 1991
Páginas 22, 51, 53 e 83

"A Intacta Ferida" de António Ramos Rosa (I)

 
"Se a palavra fosse uma floração do silêncio
ou no seu cimo despontasse como uma bolha de água
Mas ela excede sempre a integridade da pureza
e nunca é tão nua como a sua sede
Todavia às vezes é como um murmúrio anterior
que nasce de uma antiga anuência
de uma subterrânea primavera
E é no seu frémito e no esquivo fulgor
que perpassa como um sopro da terra
a fértil indolência de uma idade
em que éramos o ritmo da verde ingenuidade."



António Ramos Rosa em "A Intacta Ferida"
Relógio D'Água, 1991
Página 15

quinta-feira, 30 de março de 2023

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (V)

"O caminho que o pôr do sol percorria perfurava a cidade concedendo-lhe textos."

"Começa a invadir-me a tristeza dos infinitos próximos, dentro da luz que está dentro da sombra, dentro da sombra que está dentro da luz; ando admirada de olhar, e de ver-me, por vezes, nos pontos escuros das cintilações das minhas palavras."

"Pus-me a viver no Inverno, profusamente integrada na sua espessura; centrada no espaço aéreo verde, esqueci-me da cidade e das suas luzes negras/fortes, débeis e humanas."

"Aprendi a falar com fios de prumo, melhor, varas espetadas na terra. Compreendi, mais tarde, que eram relógios íntimos de sol."

"As minhas paisagens são sempre feitas de sensibilidade ..."

" ... queria ver escrever-me entre eu própria e o papel. Pediu-me o texto, ainda húmido de silêncio ..."

"Não há um único obstáculo na planície.
Contra o que bate o vento para sibilar assim?"

"Céu e ramos de árvore formam, entrelaçados por dentro, o texto da casa e, por fora, o telhado _____"

"A emoção de viver trouxe-me do bosque __________ a seguir, vêm os problemas de liberdade e de libertação ______ o árduo caminho do verde."

"O azul é uma figura de contemplação _______ contemplar uma cor, fazê-la, trazê-la, dá-la a ver, cobrir a cidade com ela, e depois a sala, e depois a mão de quem escreve."




Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 415, 433, 452, 453, 486, 493, 539, 578, 624, 635 e 678

domingo, 19 de março de 2023

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (IV)

 "Quem me dera ouvir o silêncio em cascata."

"A que pássaro posso perguntar o que é a liberdade?"

"Ficcionar é brincar com o perfil de máscara da palavra ..."

" ... cinco dias por semana, trabalha longe, na floresta; e, oito horas por dia, tem sobre os ombros, no seu gabinete, o peso da vida poética."

" ... sentou-se a construir o silêncio ..."

"Toda a natureza reverbera, e se suicida em mim para renascer."

" ... olhavam o poente como uma fonte de cores lascadas e imensas ..."

"Eram páginas de uma densidade tão leve que o poente se tornou rapidamente aurora na próxima face."




Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 326, 340, 343, 364, 372, 377, 388 e 398

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Fotografando Palavras (VI)


Sem apego deixarei de sentir?
Without attachment, will I stop feeling?



Texto: Maria João Faísca
Fotografia: Paula Abreu Silva

Do projecto de Paulo Kellerman, fotografar palavras, aqui 😊

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (III)

 
" ... um sussurro de folhas candentes atravessava a terra, com seu ar luminoso."

"Sinto-me como uma folha sem espessura, onde o verso e o reverso se encontraram inevitavelmente confundidos."

" ... eu minto quando escrevo na face da verdade."

"Para ela, ele era um animal, um vento, um astro. Reconhecia que ele tinha pântanos dentro de si, e sentiria pena se os perdesse."

"Escrever impele-me para uma vontade de estar só infindável"

"Não é uma imagem do fogo que colhi para o pensamento; é antes o pensamento que se serviu do fogo."

"... verdecer e ser natural ..."



Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 257, 289, 290, 295 e 324

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (II)

 "Olhava de preferência para baixo, e via-se que seguia o caminho na ponta dos pés, embora mais tarde o projectasse no horizonte do seu ofício, que era a meditação pela poesia."

"Pássaro migratório, onde está o último ramo em que se via ainda terra?"

" ... os caminhos estavam dispostos para que alguém se perdesse neles."

" ... descrição de paisagens que são o reverso das minhas paisagens -------"

"Essas sombras oscilavam nos seus lugares mutáveis ..."

"A profunda nostalgia faz parte do trabalho daquele que toma nota dos factos; daquele que vive no campo; daquele que vive no ermo; daquele que se abandona para encontrar o abandono."

" ... o tempo é uma tortura quando o fazemos funcionar por relógios e por medida."



Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 86, 90, 99, 142, 215, 227 e 230

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A Rosa Branca

 "É isto a terra? Então
eu não pertenço aqui.

Quem és tu na janela iluminada
agora escurecida pelo brilho trémulo das folhas 
do viburno?
Será que sobrevives onde eu não passarei sequer
do meu primeiro Verão?

Os ramos delgados da árvore toda a noite
se agitam, sussurrando à janela luminosa.
Explica-me a minha vida, tu que não me dás nenhum sinal,

embora eu te invoque na noite:
não sou como tu, por voz tenho só
o meu corpo; não posso
dissolver-me no silêncio -

E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
a alvura logo absorvida pelo escuro,

como se me desses finalmente um sinal
para me provar que tu também não podias aqui sobreviver,

ou para me mostrar que não eras a luz que eu invocava,
mas a negrura por detrás dela."



Louise Glück em "A Íris Selvagem"
Relógio D´Água Editores, Dezembro de 2020
Página 99

Trillium

 
"Quando acordei estava numa floresta. Parecia natural
o escuro, o céu através dos pinheiros
carregado de luzes.

Eu não sabia nada: nada podia fazer, só ver.
E, enquanto via, todas as luzes do firmamento
se desvaneceram numa única coisa, um fogo
ardendo por entre os abetos frios.
Foi impossível depois
olhar o firmamento e não ser destruída.

Haverá almas que precisam
da presença da morte, como eu de protecção?
Penso que, se continuar a falar,
conseguirei responder a essa pergunta. Verei
tudo que eles vêem: uma escada
subindo por entre os abetos, algo
que os convide a trocar de vida -

Vede o que entendo já.
Acordei ignorante, numa floresta:
há instantes não sabia sequer a minha voz.
Se alguma voz me fosse dada,
ela seria feita de dor, frases
como gritos amarrados entre si.
Não sabia sequer o que era a tristeza
até a palavra surgir, até sentir
a chuva brotando de mim."



Louise Glück em "A Íris Selvagem"
Relógio D´Água Editores, Dezembro de 2020
Página 17

Matinas

 
"O sol brilha; junto da caixa de correio, folhas
da bétula cindida, dobradas, plissadas como barbatanas.
Debaixo delas, estames ocos dos narcisos brancos, Triandros,
Trompetes; folhas
negras da violeta selvagem. Noah diz
que quem é depressivo odeia a Primavera, o desequilíbrio
entre o mundo interior e o de fora. Eu tenho
outra ideia - depressiva, sim, mas unida também
à árvore viva, apaixonadamente, o meu corpo
enrolado no seu tronco, à chuva da tarde, quase em paz,
quase capaz de sentir
a seiva borbulhante, subindo por mim. Diz Noah que esse é
um erro dos depressivos, sentirem-se só
com uma árvore. Ao passo que o coração feliz
vagueia pelo jardim como folha caída, um fragmento
da parte, não do todo."



Louise Glück em "A Íris Selvagem"
Relógio D´Água Editores, Dezembro de 2020
Página 13

domingo, 22 de janeiro de 2023

"Misericórdia" de Lídia Jorge (IV)

 
"Este é o meu lugar de exílio. Aqui me depositaram a meu pedido e por minha livre vontade, vinda da casa dos meus pais, e onde não mais voltarei, também por minha livre determinação. A vida é um arco, tem o seu começo e o seu fim, inicia-se num berço, faz o seu voo ascendente, e a partir de certa altura a curva desce até nos entregarmos à terra, de novo dentro de uma caixa de madeira que em nada difere de um berço."



Lídia Jorge em "Misericórdia"
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Novembro de 2022
Página 119

"Misericórdia" de Lídia Jorge (III)

 
"No conjunto, os teus livros são um vale escavado num deserto repleto de gente pobre. Rotos, descalços, abandonados, loucos, emigrados sem eira nem beira, imigrantes sem lugar onde cair mortos, raparigas feias que todos enjeitam, pelintras de todo o jeito, gente assassinada, gente que se atira à água para morrer, para o destino, em troca, lhes salvar os filhos, gente sem religião, sem abrigo, sem pátria, sem casa, sem modos nem figura. E eu só me pergunto porque te sentes atraída por esse tipo de criaturas. Figuras que não se levantam do chão. Miseráveis entre os miseráveis. Ora diz-me, quem gosta de lidar com a vida dos miseráveis? Os teus personagens parecem os esfarrapados que São Francisco de Assis visitava. Se ao menos escrevesses sobre São Francisco, mas não, tu escreves sobre os pobres de quem ninguém conhece o nome. Como tua mãe, pergunto-me porque escreves sobre esse tipo de figuras e não sobre as outras, as que vencem, as que ficam, as que toda a gente já conhece, os fortes, os bons, os heróis, os santos, os válidos ..."



Lídia Jorge em "Misericórdia"
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Novembro de 2022
Página 111

"Misericórdia" de Lídia Jorge (II)

 "Não é possível dispor de um objecto secreto onde tudo é visto e revisto, pesquisado e inventariado pelos olhos dos outros, pois aqui onde me encontro nenhum canto é meu, nenhum objecto me pertence, até mesmo o meu corpo não é mais um recanto privado da minha alma como antes era. Só os meus pensamentos me pertencem, só esses não são vigiados, e ainda assim, há quem tente adivinhar os motivos por que falo ou por que estou calada."



Lídia Jorge em "Misericórdia"
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Novembro de 2022
Página 70

"Misericórdia" de Lídia Jorge (I)

 
"Mas eu tenho este feitio, quero demais, mando demais, amo demais alguma coisa que não alcanço, e quando não a atinjo, procuro desesperadamente transformar o que existe de modo a aproximar o objecto defeituoso da realidade inalcançável. Não sei onde colocar os meus pensamentos que são demasiado amplos para o vaso da minha cabeça e para o volume do meu coração."



Lídia Jorge em "Misericórdia"
Publicações Dom Quixote
3ª edição, Novembro de 2022
Página 43

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Por Todos Os Poros

 "Alguém disse que a beleza entra em nós por todos os
poros, sobretudo quando sofremos. Entra ao mesmo
tempo que a raiva com as suas cores e o viço da repulsa.
O mundo ferido é mais belo e confere-nos o perigo da
santidade.

É bela a mácula que um punhado de pardais deixa no sol
do meio-dia. São belas as lajes do sol porque as turbam
os pardais - e cantam a manhã tíbia das coisas, e partem
cristais nos poços do silêncio.

Um amante é mais belo quando nos deixa. A agulha de
uns olhos cruéis cinge todos os detalhes com que o nosso
amor se tece."



Andreia C. Faria em "Canina"
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Julho de 2022
Página 78

Parte Incerta

 
"Já nem sei onde moras, onde fica
a tua porta, nudez corredia a que fui
sentinela, intrusa tão nítida
como as coisas recortadas pelo fogo.
Como deve ser quem espera
do amor uma relíquia magra,
como deve ser quem guarda
ossos, cerrados horizontes,
a elegância ferida.
Póstuma e de boa imprensa, já te ofereço
o meu cadáver, nó de leite
no azedo da memória, ou os meus seios
que se abrigam dobrados na nudez.
Nunca soube de onde vinha
tanta esperança, um poço
acendendo desde o fundo todo o ar,
e a minha boca tua imunda fera
morta, dividida ao estertor,
como em noites muito exactas
de calor nas mãos se racha
a madeira de um móvel que estimas."



Andreia C. Faria em "Canina"
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Julho de 2022
Página 69

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

 "Morrer
é talvez mudar de luz
como quem muda os lençóis
ou sacode
na erva o calor
de mantas sombrias."



Andreia C. Faria em "Canina"
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Julho de 2022
Página 51

Enquanto escrevo esta mensagem

 "o telemóvel vibra
como um pássaro que batesse as asas
entre as minhas mãos.
Apiedo-me dele, da luz morna que expele
como um hálito, da sofreguidão
de cria sondando-me
os dedos à procura de alimento.
Enraízo-me nele, na sua
lógica de pios e de palhas vãs,
e enraíza-se ele nos meus sonhos, trazendo
luas e marés às minhas mãos,
terra rara onde pousar palavras,
doces escoriações na alma por cada
homem que me lembra
e esquece
lembra
e esquece."



Andreia C. Faria em "Canina"
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Julho de 2022
Página 40

Impraticável

 "Digo que sou uma mulher
e como tal acedo à espécie pelo seio, pelas partes
mais sensíveis.
Pelo espinho quase rouco, impraticável
e os sentidos uma claridade fria.
Mas nunca soube como fere o flanco
a cicatriz
tão funda que a mulher concede.
As minhas unhas
como pequeninos seixos na doce podridão da terra
sempre se livram de tanger metais."



Andreia C. Faria em "Canina"
Edições Tinta-da-China
1ª edição, Julho de 2022
Página 10

domingo, 1 de janeiro de 2023

Modinha extravagante

 
"Romântica, a poeta
dizia estas coisas:
se me quiseres, quer-me inteira. *
Eu não. 
Ama-me em pedaços
que não me importa.
Descobre primeiro um pé com alvoroço.
Depois uma mão subtil dias e dias.
Dez anos de carícias
saboreando com a língua
a penugem da nuca
e meio século
de exploração equinocial
nas dunas do umbigo.
Quando vislumbrares do joelho
a sua imponente epifania
seremos velhos,
o temível império
terá caído
e um novo
estará afiando
as suas garras
no berço.
Terá passado a revolução
sem nos darmos conta.
Ama-me apenas um mamilo
perfeito enigma
onde por fim
se perde
a vida inteira."

* De um poema de Dulce María Loynaz (Cuba, 1902-1977)


Márgara Russotto em "As Quatro Estações da Poesia"
Edições Afrontamento, Julho de 2019
Páginas 61 e 63