quarta-feira, 12 de julho de 2023

"Canção Derruída" de Mar Becker (II)

 "as meninas da casa se inclinam sobre as janelas, nos parapeitos
e dormem

quem vê da rua, pensa que são as próprias janelas que estão
sonhando

e que sonhar é algo como o transbordamento
dos cabelos"



Mar Becker em "Canção Derruída"
Assírio & Alvim
1ª edição, Janeiro de 2023
Página 73

"Canção Derruída" de Mar Becker (I)

 "poderia dizer que amo teu nome à boca
poderia falar das vezes em que chega a manhã
e eu o procuro
e faço dele a primeira palavra tocada
mas não. o que digo é que no amor tudo nasce frágil
que há manhãs em que me vejo à beira do teu nome
e não sou capaz de feri-lo
com a voz"



Mar Becker em "Canção Derruída"
Assírio & Alvim
1ª edição, Janeiro de 2023
Página 14

terça-feira, 11 de julho de 2023

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (V)

 
"Irrompendo pelo lodaçal onde forrageiam as garças e a lama se mistura com os
excrementos das reses, ei-las que regressam, as chuvas.

Lavando o míldio das vides, a ferrugem das rosas, o caruncho das azinheiras,
ei-las que regressam, as chuvas.

Arrastando entulho, alagando celeiros, amotinando currais, ei-las que 
regressam, as chuvas.

Exacerbando fibromas, intumescendo gangrenas, sedimentando artroses, ei-las
que regressam, as chuvas.

Exortando suicidas, tolhendo convalescentes, segredando a agonizantes, ei-las
que regressam na cúspide do ano."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Página 80

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (IV)

 "Vem.

Anunciam-no as regueiras
pelas estradas friáveis,
o rumor brando da chuva,
o negrume de um céu
de amoras pisadas.

O vento passa
com a circunspecção
de um homem dobrado
sobre o seu cajado,
e, como ele, levanta
por um instante
a cabeça
para encher de luz
a vista cansada.

Vem.
Há muito que é esperado.

Nos lugares onde se detém,
já tudo se consumou, 
já tudo se reduziu
à sua opacidade.

Os pássaros vêm beber
nas poças abertas
pelos seus passos.

Vem.
Já ouço ao longe
a revoada.

Quando chegar,
já nada denunciará
a traição
que o aguardava."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Páginas 69 e 70

domingo, 9 de julho de 2023

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (III)

 "Um meio-dia translúcido
e sem peso
na quietude ondulada
da lezíria.

Um silêncio povoado,
um frenesim imperceptível,
a vibrante azáfama
da vida
na imobilidade da hora.

Também eu
participo do silêncio,
deixo alastrar o veneno."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Página 68

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (II)

 "Insectos levedam
no ventre das rãs.
Alfaiates fervem
as águas letárgicas.
Rescende a putrefacção.

Despenha-se,
flácida,
a última luz,
devorada
pela bocarra
negra
da terra,
de onde emana
um hálito
mórbido
e sulfuroso.

Além,
os campos agonizam.

Paralisadas
em pleno voo
pelo dardo álgido
do sol,
as aves planam
fusiformes.

Ominoso halo
do crepúsculo,
dança macabra
das traças,
inspirado jejum
da inacção.

Sabe-me a boca
a morte.
O júbilo azeda-me
o sangue.

Escuto ao longe
a tua missa:

o vento afia
as suas facas
nos meus ouvidos."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Páginas 52 e 53

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (I)

 
"Escreve-te.

Molda
à martelada
a forma crua
do teu crânio,

remove
com a picareta
as nuvens
dos teus sonhos,

extrai
com o estilete
a necrose
dos sentimentos,

sufoca
na garganta
o gorgolejo
do teu canto,

e, sobretudo,
não esperes nada
do que amas."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Página 11

domingo, 28 de maio de 2023

"Fé, Esperança e Carnificina" de Nick Cave e Séan O'Hagan (II)

 
" - Séan O'Hagan: As duas estarão ligadas, talvez - a vulnerabilidade e a liberdade.
- Nick Cave: Acho que ser-se verdadeiramente vulnerável é existir paredes-meias com o colapso ou a obliteração. Nesse lugar, podemo-nos sentir extraordinariamente vivos e recetivos a toda a espécie de coisas, tanto a nível criativo como espiritual. De uma maneira perversa, pode ser uma posição de vantagem, e não de desvantagem, como poderíamos pensar. É um lugar com muitos matizes que nos parece ao mesmo tempo perigoso e cheio de potencial. É o lugar onde se podem dar as grandes mudanças. Quanto mais tempo aí passares, menos te irá preocupar a forma como irás ser olhado ou julgado, e é nesse ponto que, em última análise, reside a liberdade.


" - Nick Cave: Há um grande défice na linguagem em torno do luto. Não é algo em que sejamos proficientes enquanto sociedade, isto porque se trata de algo demasiado difícil de discutir e, mais importante que tudo, demasiado difícil de escutar. São tantas as pessoas que fazem o seu luto e se limitam a ficar em silêncio, fechadas nos seus pensamentos secretos, fechadas nas suas próprias mentes, sendo os próprios mortos a sua única forma de terem companhia."


" - Nick Cave: Não começo com cadernos cheios de ideias, bocados de diálogos, versos fantásticos ou sequer títulos interessantes - resumindo, qualquer coisa coligida durante o tempo que antecede essa data. Não é assim que tiro as minhas notas. Não no que toca a canções, pelo menos. A escrita das letras é um processo que começa a partir do zero e é feito num período pré-definido. Começo com um caderno de apontamentos novo, em branco, o pensamento livre de ideias e uma considerável dose de ansiedade."




"Fé, Esperança e Carnificina" de Nick Cave e Séan O'Hagan
Relógio D'Água Editores, Novembro de 2022
Páginas 54, 57 e 126

segunda-feira, 15 de maio de 2023





"Por vezes o construtor senta-se, sob a folhagem de um plátano, contemplando ao longe os pequenos montes de um azul ténue ou abandonando o olhar à tranquila e cintilante fluência do riacho que circunda a construção. A larga e fresca delícia do sossego é tão grande que ele se demora na contemplação sem pensar, como se se sentisse ele próprio um elemento da paisagem em que a consciência seria totalmente receptiva e aberta aos estímulos dos brilhos, formas, cores, odores e eflúvios. Poderia ficar assim longo tempo, imerso na totalidade viva do instante, sentindo-se limpo e novo e possuído de uma leveza aérea e subtil. É então que adormece e sonha com voluptuosas figuras que nascem de um magma vermelho para onde retornam silenciosas e nuas. Quando acorda a frescura do mundo inunda-o e deslumbra-o. Recomeça então o trabalho numa disposição leve e volúvel, nutrido pela energia renovada pela contemplação e pelo sono. As pedras que modela e coloca formando, pilares, colunas, arcos ou paredes possuem as formas vivas de um corpo flexível e voluptuoso, animado pelos elementos, imprevisível e puro, suave e impetuoso como os gestos de desejo. Mas a paisagem não é o modelo da construção que se inspira na imaginação aberta e autónoma, livremente desencadeada a partir das impulsões vitais e das nebulosas incandescentes do desejo. A água e o fogo ondulam nas colunas, a terra afirma-se na densidade dos pilares, o ar dança na leveza das volutas, o sol transparece e fulgura nas paredes, a casa, toda ela, é uma epifania dos elementos e das forças da natureza. Embora destituída de figuras, a casa é uma figuração imaginária que corresponde às pulsões mais arcaicas do corpo dando-lhes a forma livre e harmónica de um templo consagrado à totalidade de um instante de criação absoluta."



António Ramos Rosa em "O Aprendiz Secreto"
Fotografias da exposição "Subnigrum: Silos" de Ana Vr @ MU.SA - Museu das Artes de Sintra

sexta-feira, 5 de maio de 2023

"Fé, Esperança e Carnificina" de Nick Cave e Séan 0'Hagan

 " - Sean O'Hagan: Se bem que duvidar seja intrinsecamente humano, não achas?
- Nick Cave: Acho, sim. E a certeza inflexível e cheia de si de algumas pessoas religiosas - e de alguns ateus, já agora - é algo que me desagrada. A soberba que há nisso. A santimónia. Deixa-me indiferente. Quanto mais declaradamente inabaláveis são as crenças de alguém, mais diminuídas parecem sair, uma vez que essas pessoas pararam de se questionar, e o não questionamento pode por vezes fazer-se acompanhar de uma atitude de superioridade moral. Um pouco de humildade não faria mal."


" Nick Cave: ... a beleza resplandecente e chocante do quotidiano é uma coisa para a qual eu procuro manter-me sempre alerta, nem que seja como um antídoto para o cinismo e o desencanto crónicos que parecem cercar tudo hoje em dia. Diz-me que, por muito desvirtuada ou corrupta que nos digam que a humanidade é e por muito degradado que o mundo se tenha tornado, esse mundo continua a ser belo. Nem poderia ser de outro modo."


" Nick Cave: ... talvez o sofrimento profundo possa ser considerado uma espécie de estado de exaltação no qual a pessoa que sofre se encontra o mais próximo que alguma vez irá estar da fundamental essência das coisas. Isto porque, ao sofreres, ganhas uma proximidade profunda com a ideia da mortalidade humana. Vais para um lugar muito escuro e experimentas na pele os extremos da tua própria dor - és levado aos limites mais extremados do sofrimento. Tanto quanto consigo perceber, existe um aspecto transformador inerente a este lugar do sofrimento. Somos fundamentalmente alterados ou refeitos por esse lugar. Atenção, todo esse processo é aterrorizador, mas a seu tempo acabas por regressar ao mundo com alguma espécie de conhecimento que terá algo que ver com a nossa vulnerabilidade enquanto participantes neste drama humano."




"Fé, Esperança e Carnificina" de Nick Cave e Séan O'Hagan
Relógio D'Água Editores, Novembro de 2022
Páginas 35, 42, 43 e 44

domingo, 16 de abril de 2023

"A Intacta Ferida" de António Ramos Rosa (II)

 "A erva fresca
tão próxima do que ninguém diz
mas se por ela passa
alguém que a olha
pode sentir que nada mais existe
do que esse frémito do eterno"


"O que escrevo por vezes
é como se um corpo de sombra
no meu corpo abrisse
o espaço de um silêncio
um espaço intacto e puro"


"Corpo
que avanças sempre
entre as tuas sombras
se tu respiras
é porque chamas
a tua própria luz
suspensa desse lábio
que bebe a tua sombra"


"Tudo o que queres
a densidade
a duração
o equilíbrio

como se de ti dependesse
como se as coisas esperassem
a luz da tua sombra"



António Ramos Rosa em "A Intacta Ferida"
Relógio D´Água, 1991
Páginas 22, 51, 53 e 83

"A Intacta Ferida" de António Ramos Rosa (I)

 
"Se a palavra fosse uma floração do silêncio
ou no seu cimo despontasse como uma bolha de água
Mas ela excede sempre a integridade da pureza
e nunca é tão nua como a sua sede
Todavia às vezes é como um murmúrio anterior
que nasce de uma antiga anuência
de uma subterrânea primavera
E é no seu frémito e no esquivo fulgor
que perpassa como um sopro da terra
a fértil indolência de uma idade
em que éramos o ritmo da verde ingenuidade."



António Ramos Rosa em "A Intacta Ferida"
Relógio D'Água, 1991
Página 15

quinta-feira, 30 de março de 2023

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (V)

"O caminho que o pôr do sol percorria perfurava a cidade concedendo-lhe textos."

"Começa a invadir-me a tristeza dos infinitos próximos, dentro da luz que está dentro da sombra, dentro da sombra que está dentro da luz; ando admirada de olhar, e de ver-me, por vezes, nos pontos escuros das cintilações das minhas palavras."

"Pus-me a viver no Inverno, profusamente integrada na sua espessura; centrada no espaço aéreo verde, esqueci-me da cidade e das suas luzes negras/fortes, débeis e humanas."

"Aprendi a falar com fios de prumo, melhor, varas espetadas na terra. Compreendi, mais tarde, que eram relógios íntimos de sol."

"As minhas paisagens são sempre feitas de sensibilidade ..."

" ... queria ver escrever-me entre eu própria e o papel. Pediu-me o texto, ainda húmido de silêncio ..."

"Não há um único obstáculo na planície.
Contra o que bate o vento para sibilar assim?"

"Céu e ramos de árvore formam, entrelaçados por dentro, o texto da casa e, por fora, o telhado _____"

"A emoção de viver trouxe-me do bosque __________ a seguir, vêm os problemas de liberdade e de libertação ______ o árduo caminho do verde."

"O azul é uma figura de contemplação _______ contemplar uma cor, fazê-la, trazê-la, dá-la a ver, cobrir a cidade com ela, e depois a sala, e depois a mão de quem escreve."




Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 415, 433, 452, 453, 486, 493, 539, 578, 624, 635 e 678

domingo, 19 de março de 2023

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (IV)

 "Quem me dera ouvir o silêncio em cascata."

"A que pássaro posso perguntar o que é a liberdade?"

"Ficcionar é brincar com o perfil de máscara da palavra ..."

" ... cinco dias por semana, trabalha longe, na floresta; e, oito horas por dia, tem sobre os ombros, no seu gabinete, o peso da vida poética."

" ... sentou-se a construir o silêncio ..."

"Toda a natureza reverbera, e se suicida em mim para renascer."

" ... olhavam o poente como uma fonte de cores lascadas e imensas ..."

"Eram páginas de uma densidade tão leve que o poente se tornou rapidamente aurora na próxima face."




Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 326, 340, 343, 364, 372, 377, 388 e 398

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Fotografando Palavras (VI)


Sem apego deixarei de sentir?
Without attachment, will I stop feeling?



Texto: Maria João Faísca
Fotografia: Paula Abreu Silva

Do projecto de Paulo Kellerman, fotografar palavras, aqui 😊

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (III)

 
" ... um sussurro de folhas candentes atravessava a terra, com seu ar luminoso."

"Sinto-me como uma folha sem espessura, onde o verso e o reverso se encontraram inevitavelmente confundidos."

" ... eu minto quando escrevo na face da verdade."

"Para ela, ele era um animal, um vento, um astro. Reconhecia que ele tinha pântanos dentro de si, e sentiria pena se os perdesse."

"Escrever impele-me para uma vontade de estar só infindável"

"Não é uma imagem do fogo que colhi para o pensamento; é antes o pensamento que se serviu do fogo."

"... verdecer e ser natural ..."



Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 257, 289, 290, 295 e 324

"O Azul Imperfeito - Livro de Horas V" de Maria Gabriela Llansol (II)

 "Olhava de preferência para baixo, e via-se que seguia o caminho na ponta dos pés, embora mais tarde o projectasse no horizonte do seu ofício, que era a meditação pela poesia."

"Pássaro migratório, onde está o último ramo em que se via ainda terra?"

" ... os caminhos estavam dispostos para que alguém se perdesse neles."

" ... descrição de paisagens que são o reverso das minhas paisagens -------"

"Essas sombras oscilavam nos seus lugares mutáveis ..."

"A profunda nostalgia faz parte do trabalho daquele que toma nota dos factos; daquele que vive no campo; daquele que vive no ermo; daquele que se abandona para encontrar o abandono."

" ... o tempo é uma tortura quando o fazemos funcionar por relógios e por medida."



Maria Gabriela Llansol em "O Azul Imperfeito - Livro de Horas V"
Assírio & Alvim
1ª edição, Outubro de 2015
Páginas 86, 90, 99, 142, 215, 227 e 230

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A Rosa Branca

 "É isto a terra? Então
eu não pertenço aqui.

Quem és tu na janela iluminada
agora escurecida pelo brilho trémulo das folhas 
do viburno?
Será que sobrevives onde eu não passarei sequer
do meu primeiro Verão?

Os ramos delgados da árvore toda a noite
se agitam, sussurrando à janela luminosa.
Explica-me a minha vida, tu que não me dás nenhum sinal,

embora eu te invoque na noite:
não sou como tu, por voz tenho só
o meu corpo; não posso
dissolver-me no silêncio -

E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
a alvura logo absorvida pelo escuro,

como se me desses finalmente um sinal
para me provar que tu também não podias aqui sobreviver,

ou para me mostrar que não eras a luz que eu invocava,
mas a negrura por detrás dela."



Louise Glück em "A Íris Selvagem"
Relógio D´Água Editores, Dezembro de 2020
Página 99

Trillium

 
"Quando acordei estava numa floresta. Parecia natural
o escuro, o céu através dos pinheiros
carregado de luzes.

Eu não sabia nada: nada podia fazer, só ver.
E, enquanto via, todas as luzes do firmamento
se desvaneceram numa única coisa, um fogo
ardendo por entre os abetos frios.
Foi impossível depois
olhar o firmamento e não ser destruída.

Haverá almas que precisam
da presença da morte, como eu de protecção?
Penso que, se continuar a falar,
conseguirei responder a essa pergunta. Verei
tudo que eles vêem: uma escada
subindo por entre os abetos, algo
que os convide a trocar de vida -

Vede o que entendo já.
Acordei ignorante, numa floresta:
há instantes não sabia sequer a minha voz.
Se alguma voz me fosse dada,
ela seria feita de dor, frases
como gritos amarrados entre si.
Não sabia sequer o que era a tristeza
até a palavra surgir, até sentir
a chuva brotando de mim."



Louise Glück em "A Íris Selvagem"
Relógio D´Água Editores, Dezembro de 2020
Página 17

Matinas

 
"O sol brilha; junto da caixa de correio, folhas
da bétula cindida, dobradas, plissadas como barbatanas.
Debaixo delas, estames ocos dos narcisos brancos, Triandros,
Trompetes; folhas
negras da violeta selvagem. Noah diz
que quem é depressivo odeia a Primavera, o desequilíbrio
entre o mundo interior e o de fora. Eu tenho
outra ideia - depressiva, sim, mas unida também
à árvore viva, apaixonadamente, o meu corpo
enrolado no seu tronco, à chuva da tarde, quase em paz,
quase capaz de sentir
a seiva borbulhante, subindo por mim. Diz Noah que esse é
um erro dos depressivos, sentirem-se só
com uma árvore. Ao passo que o coração feliz
vagueia pelo jardim como folha caída, um fragmento
da parte, não do todo."



Louise Glück em "A Íris Selvagem"
Relógio D´Água Editores, Dezembro de 2020
Página 13