quarta-feira, 29 de setembro de 2021

 
" ... tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os tempos de sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível."


"Sempre à beira da escrita"


"Mas estar envolvido pela luz é a minha solidão.
Mas vivo na minha própria luz, bebo as chamas que se escapam de mim."


"se eu me concentrar num fragmento do tempo
não é hoje, nem amanhã
mas se eu me concentrar num fragmento do tempo,
agora,
esse fragmento revelará todo o tempo."


" ... olhou cada árvore demoradamente para reconhecê-la para sempre."


"Ana de Peñalosa não amava os livros; amava a fonte de energia visível que eles constituem quando descobria imagens e imagens na sucessão das descrições e dos conceitos)."


"Para mim, o saber é sempre uma via silenciosa de mudez - o atravessar de uma paisagem inesperada, e não segura."




"O Livro das Comunidades" de Maria Gabriela Llansol
Relógio D'Água Editores, Novembro de 1999
Páginas 11, 38, 62, 67, 74, 75 e 97

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Painel

 "E a torre do Bugio e a aparição do mar!
Dum lado, a Caparica, esse areal infindo,
Que é belo percorrer, molhando os pés descalços
Na espuma toda em flor, branca de neve, ao sol!
E do outro lado, Sintra,
Serra que foi da lua,
Onde os olhos se alongam dos que partem
No convés dum navio entregue ao vento e à sorte.
E nela vão deixando angústias e tristezas,
Que em camadas de saibro e pedra se convertem,
E são como esculturas de saudades,
Erigidas, no espaço eternamente."



(De Teixeira de Pascoaes, Excerto do poema Painel)

terça-feira, 21 de setembro de 2021

 
"Expõe-se à casa na sua simples aridez nocturna:
sabe que há uma história por inventar em todas as sombras,
sem interlúdios, o desejo é uma oração que se articula
na geografia da pele como um novo continente
de águas subterrâneas. Liturgia de palavras irrepetíveis,
fragmento de um idioma perdido, de mensagens inacabadas:
a emoção dos olhos. A desordem dos acasos, o caos!
Não há melodias, nas paredes ecoam espasmos, a pele vibra
como se esperasse um testamento, uma narração cúmplice:
um calendário de assombros. Sem promessas. Sem estratégias.
Os corpos em estado natural. Sem submissão."



"Ao Rubro" de Luís Filipe Sarmento
Poética Edições, Julho de 2020
Página 795
 "A elipse é a perfeição do círculo;
é a sua expansão no mistério
a vida desconhecida sobre si próprio.
A minha casa."



"Ao Rubro" de Luís Filipe Sarmento
Poética Edições, Julho de 2020
Página 614
 
"A luz deste azul
É verde
O olhar deste instante
É claro
Tão claro
Como a sombra deste verde
Tem o azul do meu olhar"



"Ao Rubro" de Luís Filipe Sarmento
Poética Edições, Julho de 2020
Página 567

Mar

 
"Visita o interior da terra
pela água de azul ilha
e descobre no verde submerso da serra
o segredo do teu coração;
lugar distante e presente na memória
quando no primórdio do dia,
ainda sem o pleno acordar
vês a silhueta celeste
que te prevê um dia
habitante."



"Ao Rubro" de Luís Filipe Sarmento
Poética Edições, Julho de 2020
Página 446
 
"O que procuro quando acordo
é o movimento sincrónico ou legítimo,
soberbo ou regular, perfeito ou mágico;
o que procuro é o círculo potencial
e harmónico do som e do sentido.
Mais do que a subjectividade da arte,
o segredo alquímico da escrita.
O que procuro é o corpo na sua
ancestral postura e o silêncio
do olhar dentro da ciência.
Que seja música. De um outro dizer.
Que seja brilho. Obra. Ouro.
Manhã plena de um hipotético acordar."



"Ao Rubro" de Luís Filipe Sarmento
Poética Edições, Julho de 2020
Página 428

sábado, 18 de setembro de 2021

The Night You Slept

 
"Também a noite se parece contigo,
a noite longínqua que chora,
muda, no fundo do coração,
e as estrelas passam cansadas.
Uma face aflora uma face -
é um tremor frio, alguém
se agita e te suplica, só,
perdido em ti, na tua febre.

A noite sofre e anseia pelo amanhecer,
pobre coração que estremeces.
Ó rosto fechado, negra angústia,
febre que afliges as estrelas,
os que esperam como tu o amanhecer
sondam o teu rosto em silêncio.
Estendes-te sob a capa da noite
como um horizonte morto e fechado.
Pobre coração que estremeces,
num dia distante foste o amanhecer."



"Virá a morte e terá os teus olhos" de Cesare Pavese
Edições do Saguão
1ª edição, Abril de 2021
Página 51

As manhãs passam claras

 "As manhãs passam claras
e desertas. Assim se abriam
os teus olhos dantes. A manhã
transcorria lenta, era um sorvedouro
de luz imóvel. Silenciava.
Tu viva calavas; as coisas
viviam sob o teu olhar
(nem pesar nem febre nem sombra)
como um mar pela manhã, claro.

Onde estás tu, luz, é a manhã.
Tu eras a vida e as coisas.
Em ti despertos respirávamos
sob o céu que ainda está em nós.
Nem pesar nem febre agora,
nem esta sombra opressiva do dia
atafulhado e desigual. Ó luz,
claridade distante, respirar
ofegante, restitui os olhares
imóveis e claros sobre nós.
É escura a manhã que passa
sem a luz dos teus olhos."



"Virá a morte e terá os teus olhos" de Cesare Pavese
Edições do Saguão
1ª edição, Abril de 2021
Página 49

Virá a morte e terá os teus olhos

 
"Virá a morte e terá os teus olhos -
esta morte que nos acompanha
de manhã até à noite, insone,
surda, como um remorso antigo
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito reprimido, um silêncio.
Assim os vês todas as manhãs
quando sozinha te inclinas
diante do espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos nós também
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como abandonar um vício,
como ver no espelho
ressurgir um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Mudos, desceremos ao abismo."



"Virá a morte e terá os teus olhos" de Cesare Pavese
Edições do Saguão
1ª edição, Abril de 2021
Página 41

In The Morning You Always Come Back

 
"A fresta da manhã
respira pela tua boca
ao fim das ruas vazias.
Luz cinzenta os teus olhos,
doces gotas de aurora
nas colinas escuras.
O teu passo e o teu hálito
como o vento da aurora
submergem as casas.
A cidade estremece,
têm odor as pedras - 
tu és a vida, o despertar.

Estrela perdida
na luz da aurora, 
assobio do vento,
tepidez e hálito -
a noite chegou ao fim.

És a luz e a manhã."



"Virá a morte e terá os teus olhos" de Cesare Pavese
Edições do Saguão
1ª edição, Abril de 2021
Página 35

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

 
"Longa meditação pelos mistérios,
caminho aberto por ervas, resinas e alucinações.
Que verdade se descreve
neste mundo de silêncios e contemplações?
É uma verdade que não se escreve
e se existe está para lá das ficções! 
                                                      meditação
                    longa
                               pelos mistérios:
                    ervas
                      resinas
          alucinações
     apenas
       verdades
e
             contemplações"



"Ao Rubro" de Luís Filipe Sarmento
Poética Edições, Julho de 2020
Página 292

O Ar E O Silêncio

 
"No silêncio
veste-se o ar
de paisagem nocturna.
O mar respira
nas profundidades
da Terra.
É tudo silêncio
no vagar das ondas
e silêncio se faz
na montanha
onde mora a alma,
resguardo da paisagem final.
Onde estou de olhar
pleno."



"Ao Rubro" de Luís Filipe Sarmento
Poética Edições, Julho de 2020
Página 133

Balada Para Uma Paisagem Em Construção

 "Na linha horizontal que divide o mar,
entre a paisagem e a penumbra,
há uma outra paisagem devagar e de sombra
sem limite para olhar numa construção infinita.
Na forma é fictícia. Libertária no prazer, estendida.

Os gestos do ar são barcos sem cais - à deriva.
Derivando na paisagem ao sabor da poalha da lentidão: 
há uma luz que nos fica, gravitando na alma
repleta. Repleta de imensidão.
E no luar da paisagem, constrói-se a calma
dentro da ilusão.

É uma paisagem que nos fica
na palma da mão."



"Ao Rubro" de Luís Filipe Sarmento
Poética Edições, Julho de 2020
Página 112

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

LOT

 
"Ninguém conhece melhor a tristeza
do que eu. Não uma melancolia
branda de algodão doce,
nem a chamada no sangue
de uma janela, mas as veias
com o mar inteiro lá dentro
e os ossos ainda tão fundo.

A tristeza como uma crosta
de mármore colada à pele.
E sobre as pálpebras
o cinzel dos passos
que não quiseram esquecer,
que já não me seguem,
batendo sempre."



"Cerveja & Neve" de Inês Dias
Edições Averno, Setembro de 2020
Página 38

Pequenos Crimes Entre Amigos

 
"Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo -
com cuidado, por favor -
quando estiver mais frio;
ou enterrar os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto."



"Cerveja & Neve" de Inês Dias
Edições Averno, Setembro de 2020
Página 37

Lei Sálica

 
"As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.

Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infância alheias.

Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.

Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar."



"Cerveja & Neve" de Inês Dias
Edições Averno, Setembro de 2020
Página 18