terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"Ao luar de inverno
o vento no rio
afia as pedras."

Chora

"Isto filhos, a poesia e a cozinha são irmãs" (V)

 
Caril de legumes com basmati de lima, especiarias e frutos secos.
Topping de manga e coentrada. Rúcula e paprika. 😋💗💗😋

Crepúsculo outonal na montanha

"Depois da chuva, na montanha vazia,
a frescura do entardecer anunciando o Outono.
Os pinheiros filtrando raios de luar,
um arroio de cristal brincando sobre as pedras. *
Os bambus sussurrando, as lavadeiras regressando,
os lótus ondulando, a barca do pescador oscilando.
Pouco a pouco esvai-se o perfume da Primavera.
Sim, como conservá-lo?"

Wang Wei


* Os pinheiros, verdes todo o ano, as pedras, imutáveis, evocam a permanência, a longevidade, enquanto o luar e as águas a correr simbolizam a imaterialidade das coisas. Em Wang Wei tudo se entrelaça.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Uma vez quiseram-me louca, a arder

"Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre
 
Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha
 
Sempre me recusei a arder como os outros
 
Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!
 
Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio
 
E no fim são todos cinza."

Cláudia R. Sampaio  em "Ver no Escuro"

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

"O poema surge do interior do poeta, da sua própria vida, e ainda assim deve falar daqueles subtilíssimos sentimentos que não lhe pertencem a ele apenas, pois nesse caso seria um mau poema, na exacta medida em que não poderia interessar a ninguém mais do que a si mesmo. Os poemas devem construir-se a partir de algo que, constituindo parte da vida do poeta, pertença igualmente à dos demais. Este foi o meu propósito: que aquele ou aquela que leia o que escrevo possa de algum modo reconhecer-se nisso que lê. Que sinta a força que nos faz reconhecer que este - ou esta - sou eu, esse reconhecimento que travamos quando lemos um bom poema."
 
Joan Margarit em "Misteriosamente Feliz"

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Nick Cave - To be by your side


"Isto filhos, a poesia e a cozinha são irmãs" (IV)


 
Trilogia de tornedós sobre cebola roxa confitada com creme balsâmico.
Miga de batata doce e grelos salteados em cama de hummus de tomate seco com queijo creme vegano e endro.
Coulis de frutos vermelhos e gengibre.
Almoço de hoje.
💗😋😋💗

Infância

"Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha da melancolia."

Carlos de Oliveira em "Cantata"

domingo, 19 de fevereiro de 2017

"Isto filhos, a poesia e a cozinha são irmãs" (III)

 
Maafe de legumes assados com manteiga de amendoim.
Risotto de cevada com pêra rocha, funcho, cebola roxa e tâmaras, perfumado com lima e salsa.
Chapati de brócolos e couve com caril. 😋💗💗😋

Uma flauta em noite de Primavera

"Chegam voando as notas de uma flauta
tocando algures
num lugar escondido.
Serenamente, o vento da Primavera *
sopra a música por sobre a cidade.
É a melodia da Canção dos Salgueiros.
Como não pensar
num amor para sempre perdido?"

* O vento da Primavera evoca o sucesso, o prazer, o amor

"Poemas de Li Bai" com tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Uma horta flutuante no Hudson



Floating Food Forest. 🍓🍄🍅🍆
É assim que Mary Mattingly, o artista por detrás desta iniciativa descreve o
Swale, projecto de arte e agricultura sustentável no Hudson (Nova Iorque).
 
Dentro de uma estrutura de 25 metros de comprimento há ervas aromáticas, árvores de fruto e todo o tipo de legumes. Assim que o Swale atraca nas margens da cidade qualquer pessoa é bem-vinda para escolher os produtos. Sem pagar nada. A ideia, diz Mattingly, é propor uma nova realidade em que a comida saudável é disponibilizada gratuitamente, como um direito dos cidadãos.

Para quando algo assim em Portugal?
💗

Ardente

"Há um esforço que eu faço
e não me calo
 
Distancio-me daqueles que me querem
regida por leis que contrariam
o sonho a poesia e a quimera
 
Há um esforço que faço
e não me torno
submetida à força o tempo todo
 
Dou um nó no coração e parto
permanecendo aquela
onde me encontro."

Maria Teresa Horta  em "Inquietude"

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

The Last Shadow Puppets - Calm like you


Fragilidade

"Da lágrima onde habita essa ausência
tua, o vento do norte íntimo tem
lembrança até ao mar e, com violência,
vira as mesas do bar já sem ninguém.

Fica a angústia como uma presença:
sete anos sem ti, só nestas paragens
de sempre, de ti compuseram épica
de dor pura, sozinha personagem.
 
Uma dor pura com a qual, sorrindo,
um dia hei-de eu até morrer de pena.
Muito tempo tentei imaginar
 
que estavas só longe. Volto a tentar.
Tomo um café, e vou polindo o sonho
como o vento o enorme azul do mar."

Joan Margarit  em "Misteriosament Feliç" (2008)

"Não pretendo mais do que o limite,
que para além do limite
já se entrega
 
Eu cumpro os meus
limites,
não cumprindo as regras."

Maria Teresa Horta em "Destino"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

The Smiths - Please, please, please let me get what I want


Tantas cidades a que devíamos ter ido

"O nosso sonho é feito de cidades cultas,
com música e cafés familiares,
a majestade de um porto e estações
de ferro e de vidro com comboios brunidos pela noite
e pela chuva, a mesma chuva
que nos acompanha num pequeno hotel
ou nas janelas de um museu.
Há recantos ao abrigo de grandes árvores,
gente calada, educada e bem vestida
e as silenciosas livrarias
onde os olhos vagueiam enquanto cai a tarde.
 
Tantas cidades a que devíamos ter ido, meu amor.
A lua emerge para lá daquelas pontes de ferro
dos anos que mudaram a nossa lei.
Desde então o tempo é uma chuva
que nos inunda como inunda os telhados.
Mas na luz do pátio vemos os templos
de mármore branco e dourado travertino.
Encontramos, nas ruas de pequenas aldeias,
faustosos estuques cor de terra
esgrafiados pelo vento. Esta casa
da varanda e do pátio tem uma luz
de conversas e conforto. De nós,
aquele que ficar terá por companhia
a memória do cipreste e das heras
até nos reencontrarmos nas cidades do sonho."

Joan Margarit  em "L'Ordre Del Temps" (1975-1986)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017


Almoço No Los Pinos

"Quanta alegria, ao domingo, ao acordar
com a luz que era uma irmã mais velha
e os teus braços, a cruz do meu desejo.
Foram manhãs que não deixaram nunca
de entrar pela janela. Barcelona,
quando era pobre, humilde, acolhedora
como são as cidades que estiveram sozinhas,
sorria através dos vidros.
Ficávamos na cama até tarde
e íamos comer àquele restaurante
do pinhal, ao pé do Tibidabo.
Então ainda não precisávamos
de dar um nome ao que fazíamos.
Quando dormíamos juntos, amor, sexo e dor
eram apenas uma coisa: o que éramos.
 
O tempo uiva, mas em silêncio,
como um lobo com cancro na garganta.
Nada me pertence. De súbito,
nesta cidade desconhecida,
posso defender apenas o quarto onde agora,
misteriosamente feliz, escuto o som
do saxofone paciente de Ben Webster.
Embrulhada num jornal velho,
ainda guardo a rosa de há tantos anos:
aquela Barcelona mais difícil
onde procurava o seu lugar a minha vida."

Joan Margarit  em "Misteriosamente Feliç" (2008)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Nick Drake - Place to be


Fulgores

Ninguém é a pátria.
J.L. Borges

 
"Nada nem ninguém é a poesia.
Nem a personagem solitária numa rocha
vendo como investe o mar. Nem o mar, que é o único
sobrevivente da mitologia.
Poesia não és tu. Nem os crepúsculos,
nem o velho prestígio inútil da rosa,
nem escrever o verso mais triste esta noite.
Nada nem ninguém é a poesia.
Nem cinza nem mármore, acumulados pelos clássicos,
nem os cais de madrugada, nem as folhas mortas,
nem escutar a canção Les Feuilles mortes.
Nada nem ninguém é a poesia.
Nem as cartas de Rilke, nem Veneza,
nem a bala na têmpora de Maiakóvski,
nem a luz do farol por entre a névoa
onde sempre esperará Lili Marlene.
Nada nem ninguém é a poesia,
mas é ela quem me salva deste monstro
que está à espreita num lugar dentro de mim,
a minha besta de companhia.

Joan Margarit  em "De Aiguaforts (1998)"