quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"Roga a Deus, Sancho, que assim seja, porque do dizer ao fazer muito há que correr."
Página 687

" ... o sangue herda-se e a virtude adquire-se, e a virtude vale por si só o que não vale o sangue."
Página 726

" ... porque pensar que o duque meu senhor me há-de fazer justiça é pedir pão à pedra ..."
Página 785

" ... mostrarei meus castos desejos, pois não ando a buscar pão amassado em casas alheias."
Página 872

"Pois a verdade é que está a cana velha para flauta."
Página 900



"Dom Quixote de la Mancha" de Miguel de Cervantes
Publicações Dom Quixote
1ª edição, Abril de 2015

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"O que é do mar se os rios se recusam?"


Stig Dagerman  em "A Nossa Necessidade De Consolo É Impossível De Satisfazer"
Fenda, 3ª edição (1995)
Página 23

domingo, 12 de janeiro de 2020

"Pressinto que tenhas chegado a um ponto em que olhas para esta dor como se a tivesses diante de ti, três pés à tua frente, deitada dentro de uma caixa, uma caixa aberta, algures numa janela. É dura e fria, como uma barra de metal. Tu limitas-te a olhar para ela e dizes: Está bem, fico com ela, vou comprá-la. É assim. Porque sabes tudo acerca do que te espera ainda antes de te meteres lá dentro. Sabes que a dor faz parte de todas as coisas. E não é que possas dizer mais tarde que o prazer foi maior do que a dor e que é por isso que voltarias a fazer o que fizeste. Não tem nada a ver com isso. Não podes medir as coisas assim, porque a dor vem depois e dura mais tempo. Por isso a pergunta é na realidade: Porque é que a dor não te faz dizer: não volto a fazê-lo? Quando a dor te dói tanto que terias de o dizer, mas não dizes."


"Contos Completos" de Lydia Davis
Relógio D' Água Editores, Julho de 2012
Página 32

sábado, 11 de janeiro de 2020

"A ciência é um processo que pretende compreender o modo de funcionamento da natureza.
(...)
A ciência é muitas vezes incorrectamente caracterizada como a reunião e a organização de dados e como um conjunto de factos sobre os quais os cientistas concordam. A ciência é correctamente caracterizada como um processo no qual continuamos a explorar novas ideias e a mudar a compreensão do mundo, para encontrar novas representações do mundo que expliquem melhor o que se observa. Parte da ciência consiste em realizar cálculos e fazer previsões, enquanto uma outra parte da ciência consiste em fazer perguntas profundas sobre como funciona a natureza.
«Cientificamente comprovado» é uma contradição de termos: a ciência não prova nada. Os cientistas têm uma visão da realidade que é a melhor que encontraram até à altura, sendo possível existir uma discordância substancial entre cada um dos cientistas. A ciência funciona muito bem quando existe mais do que uma hipótese para explicar algo de facto, a discordância estimula o progresso científico por meio de tensão criativa e esforços para solucionar a discordância. A ciência é impulsionada pela incerteza, discordância e ignorância: os melhores cientistas cultivam activamente a dúvida. Os cientistas não se concentram no que sabem, mas antes no que não sabem. A ciência é um processo contínuo de revisão que pode ser gradual, ocorrer de forma intermitente ou por meio de uma descoberta inesperada."



Judith A. Curry  em "Alterações Climáticas - o que sabemos, o que não sabemos"
Guerra e Paz
1ª edição, Outubro de 2019
Páginas 17 e 18

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

" ... só existe uma consolação verdadeiramente real: a que me diz que sou um homem livre, um indivíduo inviolável, ser soberano no interior dos seus limites.
Mas a liberdade começa na escravidão e a soberania na dependência. O sinal mais vivo da servidão é o medo de viver. O definitivo sinal da liberdade é o facto de o medo deixar espaço ao gozo tranquilo da independência.
Dir-se-á que preciso de ser dependente para conhecer o gozo de ser livre! É certamente verdade. À luz dos meus actos, percebo que toda a minha vida parece não ter tido por objectivo senão construir o seu próprio infortúnio: sempre me escravizou o que devia tornar-me livre."


Stig Dagerman  em "A Nossa Necessidade De Consolo É Impossível De Satisfazer"
Fenda, 3ª edição (1995)
Páginas 19 e 20

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Revolta

"Tenho pena de todos aqueles
que não podem sair do mesmo lugar,
São como eu. Mas como em mim viverá neles
o desejo louco de avançar?

Imóvel, quero viver o vento do caminho
os crepúsculos que inebriam, as livres noites de luar,
a vida sem limites, sozinho
ou com quem, por instantes, me quiser acompanhar.

Ó ânsia sempre nova de explorar o mundo!
P'ra te obedecer entrei assim
na minha alma e não lhe encontrei fundo ...

Dizem que o Universo é curvo e lá tem fim.
O meu não tem; ou então é profundo ...
Curiosidade maldita! Perdido seja eu que mergulhei em mim!"


Jorge de Sena  em "Post-Scriptum II - 1º volume"
Imprensa Nacional - Casa da Moeda
Página 60

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

"Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança. Pergunto-me então o que vem a ser o tempo, e descubro que não passa do consolo que nos resta por não durarmos sempre."


Stig Dagerman  em "A Nossa Necessidade De Consolo É Impossível De Satisfazer"
Fenda, 3ª edição (1995)
Página 15

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Divagações Amargas

Cogito, ergo sum - Descartes


"Tenho em mim dúvidas imensas
manchadas todas de aflições intensas ...
Cá dentro, alternadamente morro e ressuscito
sendo, como sou, em mim mesmo um proscrito!
Penso mas não me compreendo.
A interrogação que sou, não respondo, não a entendo.
Nem mesmo penso, creio eu.
Que espírito este! que destino o meu ...

Sou, somatório de dúvidas, dúvida lancinante.
Sinto-me em passeio interior um cavaleiro andante
arrastando-se, já cansado, no pó de cada estrada,
estranho a si próprio, confuso, quase nada ...
Tanta dúvida, tanto sentimento,
tanta percepção difusa, embrião de pensamento,
Não vem só duma alma com certeza;
Uma só não fazia tal tristeza,
não entrecruzava mil perguntas,
- que eu sinto voarem todas juntas -,
não vozeava assim; é porque não é só uma.
Serão muitas? Serão mil almas? Talvez nenhuma.
Meu pobre íntimo que doloroso é pensar!
Quão infeliz o que vive a duvidar ...
Diz-me! Não há mais calma dentro dum rochedo?
Numa flor, numa folha, em todo o arvoredo?
Crês tu que o Sol brilharia incendiado,
tão belo e radioso, se duvidasse, se fosse desgraçado?"


Jorge de Sena  em "Post-Scriptum II - 1º volume"
Imprensa Nacional - Casa da Moeda
Página 59

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

"A vida não é um problema que possa resolver-se dividindo a luz pela escuridão ou os dias pelas noites, mas sim uma viagem imprevisível entre lugares que não existem."


Stig Dagerman  em "A Nossa Necessidade De Consolo É Impossível De Satisfazer"
Fenda, 3ª edição (1995)
Páginas 14 e 15

domingo, 5 de janeiro de 2020


" ... a verdade era que eu não podia dizer fosse o que fosse do que sentia porque era uma coisa demasiado forte, as palavras não podiam transmiti-lo, e fazer amor só tornava a situação pior porque a seguir eu precisava desesperadamente das palavras mas elas de nada serviam, não serviam de nada, ..."

"Contos Completos" de Lydia Davis


sábado, 4 de janeiro de 2020

Mensagem Às Estátuas

"Vocês, pedras
violentamente deformadas,
destruídas
pelo exacto golpe do cinzel,
hão-de exibir ainda por muitos séculos
o último perfil que em vós deixaram:
seios imperturbáveis por um suspiro,
firmes
pernas que ignoram o cansaço,
músculos
tensos
no seu esforço inútil,
cabeleiras que o vento
não despenteia,
olhos abertos que repelem a luz.
Porém,
a vossa arrogância
imóvel, a vossa fria
beleza,
a desdenhosa fé do imutável
gesto, hão-de morrer
um dia.
O tempo é mais tenaz.
A terra também
espera por vós.
Nela hão-de cair ao vosso peso,
hão-de ser,
se não cinzas,
ruínas,
pó, e a vossa
sonhada eternidade será o nada.
À pedra tornarão sendo pedra,
indiferente mineral, afundado
escombro,
depois de viverem o duro, ilustre,
solene, vitorioso, equestre sonho
de uma glória erigida à memória
de algo disperso também em esquecimento."


"Para Que Eu Me Chame Ángel González - Uma antologia"
Língua Morta, Outubro de 2018
Páginas 69 e 70

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Espumas Perdidas (apontamentos)

"Minha alma é um grande mar
que geme e ondula sem cessar,
que se alegra em marés de lindas cores
quando vive e sonha seus amores,
que grita em furor descompassado
na saudade dum sonho abandonado ...

E de todos esses temporais,
dessas bonanças risonhas, isentas de ais,
ficam boiando espumas gemebundas,
na distância de mim mesmo imagens moribundas,
que são os versos meus ...
espumas perdidas sem um triste adeus ..."


Jorge de Sena  em "Post-Scriptum II - 1º volume"
Imprensa Nacional - Casa da Moeda
Página 55

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

"Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer."


Stig Dagerman  em "A Nossa Necessidade De Consolo É Impossível De Satisfazer"
Fenda, 3ª edição (1995)
Páginas 9 e 10

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O que mais gostei de ler em 2019

Ficção:

- "A Máquina do Amor Sagrado e Profano" de Iris Murdoch
- "De Re Rustica" de H.G. Cancela
- "Eliete" de Dulce Maria Cardoso
- "Gente melancolicamente louca" de Teresa Veiga
- Que sinos dobram por aqueles que morrem como gado?" de Rui Nunes



Não Ficção:

- "A Alegria de Viver" de Yongey Mingyur Rinpoche
- "Comportamento: A Biologia Humana no Nosso Melhor e Pior" de Robert Sapolsky
- "Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas" de Melanie Joy
- "The Emotionally Absent Mother" de Jasmin Lee Cori



Poesia:

- "A Mão ao Assinar Este Papel" de Dylan Thomas
- "A Poesia como Arte Insurgente" de Lawrence Ferlinghetti
- "Mil e Outras Noites - Uma Antologia" de Eduardo Guerra Carneiro
- "O Eremita Viajante [haikus - obra completa]" de Matsuo Bashö
- "Oblívio" de Daniel Jonas
- "Poemas e Canções - Volume 1" de Leonard Cohen
- "Poemas Escolhidos" de William Wordsworth
- "Poemas Escolhidos" de T.S. Eliot