quarta-feira, 30 de novembro de 2016


"Nas praias, em Portugal, mesmo quando o mar está manso, ouve-se por vezes gente aflita gritar, a quem se aproxima da água, para que tenha cautela com a sétima onda.
Mais alta que as outras, mais lenta, ela espalha suavemente a espuma, para de súbito, traiçoeira, escavar na areia um abismo e engolir os corpos que nunca devolve.
Diz-se que os espíritos das vítimas ficam presos na rebentação, condenados à pena eterna de rever sete vezes o passado a cada sétima onda."

domingo, 27 de novembro de 2016


Busca

"Durante anos os procurei,
um amor, um lugar,
um sonho de casas eternas,
um cais de outrora quando se acendiam as
lâmpadas,
durante anos te procurei,
caminhantes das estrelas solitárias, das
estrelas sem nome,
brilhando sobre as ilhas, sabe-se lá onde,
em que oceanos que levaste contigo,
no grande eclipse desta vida."

José Agostinho Baptista  em "Agora e na Hora da Nossa Morte"

terça-feira, 22 de novembro de 2016

" ... a lua, o astro do orvalho, o astro do pranto, começava a surgir de entre as nuvens e a mostrar o seu pálido rosto."
 
Gustave Flaubert  em "Novembro"

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Saudade

"Há,
em todas as canções do vento,
um refrão que diz que nunca mais encontrarei
a grande porta do teu amor.
Quando aí batia,
com três pancadas secas que já não se ouviam
um pouco além,
eram outros os anos,
outros os cristais de comovida arte,
contemplados por Deus.

Há,
em todas as canções do vento,
um grito,
um lamento de anjos que partiram para sempre,
deixando amargas liras e a saudade de te ver
ainda,
num século de doces tardes."

José Agostinho Baptista  em "Agora e na Hora da Nossa Morte"

quarta-feira, 16 de novembro de 2016


"Há poetas que têm a alma repleta de perfumes e de flores, que olham a vida como uma aurora do céu; outros não têm mais que sombras, mais do que amargura e cólera; há pintores que vêem tudo azul, outros vêem tudo amarelo ou negro. Cada um de nós tem um prisma através do qual vê o mundo ..."

Gustave Flaubert  em "Novembro"

sábado, 12 de novembro de 2016


"Se vivi momentos de entusiasmo, devo-os à arte; e no entanto, que vaidade é a arte! querer pintar o homem num bloco de pedra ou a alma em palavras, os sentimentos em sons e a natureza numa tela envernizada ..."

Gustave Flaubert  em "Novembro"

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

"Nunca gostei de horas fixas, de uma existência de relógio, onde tudo é organizado de antemão, durante séculos e gerações. Essa regularidade pode decerto convir à maioria, mas para a pobre criança que se alimenta de poesia, de sonhos e de quimeras, é despertá-la constantemente desse sonho sublime, é não lhe conceder um momento de repouso, é asfixia-la na nossa atmosfera de materialismo e de bom senso, que a horroriza e lhe repugna."

Gustave Flaubert  em "Novembro"