sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"O problema do indivíduo que cria, problema situado por debaixo do problema da obra, é talvez - quer o autor tenha orgulho nela ou sinta uma secreta vergonha - o do renascimento, do perpétuo nascimento, ave fénix renascendo periodicamente, espantosamente, das suas cinzas e do seu vazio."

Henri Michaux  em "O Retiro Pelo Risco"
"Como noutros tempos dispunha as cartas do Tarot (eram sempre as mesmas, o Louco, a Papisa, a Morte, a Lua) agora escrevia versos soltos no caderno branco tentando ler nas palavras obscuros sinais.
«God knows I know the faces I shall see.»
Era uma frase terrível, por vezes acordava com ela nos lábios e uma sensação de medo difícil de definir.
«I do not know what it is about you that closes and opens ...»
Esta era mais como uma canção, apetecia-lhe cantá-la baixinho quando passeava pelas ruas da cidade próxima ou pelos bosques que rodeavam a quinta.
Levantou-se da secretária e meteu o caderno na gaveta. O caderno que abria de vez em quando com a esperança de que surgisse uma história ...
Talvez não voltasse a escrever."
 
Ana Teresa Pereira em "A Coisa Que Eu Sou"

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

"É como se eu fosse duas pessoas diferentes. Uma delas é um homem culto. Já estive nas maiores bibliotecas deste país. Leio. Estou sempre a ler. Leio livros que falam sobre a mais pura das verdades. Ali, na minha mala de viagem, tenho livros de Karl Marx, de Thorstein Veblen e de outros autores parecidos. Leio-os vezes sem conta e, quanto mais estudo, mais enlouqueço. Conheço-os todos de cor. Acima de tudo, gosto das palavras. Materialismo dialético. Prevaricação jesuítica.
- Jake rolava as sílabas na boca com uma solenidade apaixonada. - Propensão teleológica."

Carson McCullers  em "O Coração é um Caçador Solitário"
"Mal me ponho a escrever, é para começar a inventar. Logo que o texto sai, ponho-me de todos os lados a apresentar-lhe gradeamentos de realidade, e uma vez obtido este novo conjunto, apresento-lhe novos conjuntos ainda mais reais, e assim, de compromisso em compromisso, chego, ora vejamos, chego àquilo que escrevo, que é invenção apanhada pelo pescoço e a quem não foi atribuída a bela existência que parecia estar-lhe destinada.
É no entanto nesta honestidade tardia, mas rigorosa e por graus, e depois mais rigorosa ainda mas sempre mais tardia, que eu encontro uma das alegrias e um dos suplícios de escrever."

"O Retiro Pelo Risco - Antologia da Poética de Henri Michaux"

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

"Por nascimento ou por conquista, o poder e a propriedade são sempre arbitrários. Encontrar causas não é reconhecer legitimidade, tal como conhecer a lei não é obedecer-lhe. Fundada na força, na memória ou na fé, a proibição não delimita mais do que o espaço da própria infracção. Condiciona o conflito, não o resolve. É o traço comum ao livro, à lei e à transgressão. Dizer que não, primeiro, por hábito ou por estratégia, continuar depois, já sem critério nem objectivo, demarcando na língua um estado negativo, o necessário apenas para impor a ordem ou prolongar as proibições, e obedecendo tanto ao propósito de modelação do mundo quanto a um desejo de ocupação do espaço e da consciência."
 
H.G. Cancela  em "Impunidade"

Xavier de Maistre - Hommage à Haydn


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

"Profano, profano, profano. Profano o tempo, profana a terra, profana a língua, profana a lei. Tempo e terra, língua e lei, sem outro tamanho que não aquele que por si próprios possam produzir. Causa e consequência, circunstância, condição, isso que a si mesmo, e contra a estrita ideia de civilização, se pesa, se mede e se diz. Contra a civilização, contra a culpa, contra a língua, contra a lei. Contra a proibição inscrita na carne como coisa congénita."

H.G. Cancela  em "Impunidade"

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Não Sejas Arrogante em Demasia

"Não sejas arrogante em demasia.
Só o quanto baste
para que te odeiem e maltratem,
te invejem e façam esperas.
 
Mas a muita modéstia também pode ferir
de morte qualquer poeta,
quanto mais a ti, poeta escasso.
 
Aceita pois os louvores que te derem.
Podem ser desleais, mas mesmo assim são sempre
um revulsivo eficaz contra os nefastos
ingurgitamentos da modéstia.
 
De resto (citando deus) uma vez por outra,
quem não gosta de ser glorificado?"


A.M. Pires Cabral  em "Cobra-D' Água"

Balanço Literário de 2017

2017 ... 94 livros num total de 19.084 páginas lidas.

Curiosidade: média de 203 páginas por livro.
 

 
E os 10 livros que mais gostei de ler em 2017 foram:

- "A Palavra do Mudo" de Julio Ramón Ribeyro
- "A Viagem Possível - Poesia (1965-1992) de Emanuel Félix
- "Alguns poemas" de Francis Ponge
- "Andam Faunos pelos Bosques" de Aquilino Ribeiro
- "Contos Carnívoros" de Bernard Quiriny
- "Folhas de Erva" de Walt Whitman
- "O Bom Aprendiz" de Iris Murdoch
- "O Mar, O Mar" de Iris Murdoch
- "Onze Histórias de Solidão" de Richard Yates
- "Poemas de Wang Wei" com tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

"Para o poeta não há factos contrários; não há mentira, não há erro. Todos os poemas são o contrário da mentira e do erro: aquilo que pode não ser explicável mas que acontece no mundo.
(...)
O facto do poema é um facto fátuo, um facto muito mais próximo da própria existência humana. Não é que a lógica seja de todo arrancada, o poema é acompanhado pela sua sombra. Pois, o verso é a sombra da palavra, um prego no coração da memória. A metafísica tenta elevar o homem a uma pura espiritualidade, a moral esforça-se por impedir o romance entre o homem e a natureza; e a poesia mostra o bem da metafísica, o mal necessário da moral e cai apaixonadamente nos braços da natureza."

Paulo José Miranda  em "Um prego no coração"

Ellen & The Escapades - Run


"Alguém descrevera Deus como um fervilhar nas trevas, o vasto fervilhar sombrio do ser que está perpetuamente a recriar-se. Algo que Keats vira também. O Cristo místico a caminhar sobre as ondas fervilhantes. Cristo no Limbo. Anjos a abraçar pecadores arrependidos num quadro de Botticelli."

Iris Murdoch  em "O Bom Aprendiz"