terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Máscara

"Um homem com uma máscara de gás na cara.
O rosto disforme. Como se fosse um monstro.
Ele faz depois os gestos de um chimpanzé. Põe as
mãos curvadas e simula os pequenos saltos e
movimentos do chimpanzé.
O plano abre-se. Vemos para quem ele está
a fazer aquilo. É para uma mulher. Uma mulher
muito velha. Moribunda; ligada a várias máquinas
e com soro a entrar no braço. Mesmo assim,
a velha mulher sorri, primeiro; depois ri, ri muito,
não consegue parar de rir. Só a vemos a rir, como
se tivesse perdido o controlo."
 
Gonçalo M. Tavares  em "Short Movies"

sábado, 14 de outubro de 2017

Proema

"Às vezes, a poesia é a vertigem dos corpos e a
vertigem da sorte e a vertigem da morte;
o passeio, de olhos cerrados, à borda do
despenhadeiro
e a verbena nos jardins submarinos;
o riso que incendeia preceitos e santos
mandamentos;
a descida das palavras paraquedadas sobre os
areais da página;
o desespero que embarca num barco de papel e
atravessa,
durante quarenta noites e quarenta dias, o mar da
angústia nocturna e o pedregal da angústia diurna;
a idolatria do eu e a execração do eu e a
dissipação do eu;
o degolar dos epítetos, o enterro dos espelhos;
a compilação dos pronomes acabados de cortar no
jardim de Epicuro e no de Netzahualcoyotl;
o solo da flauta no terraço da memória e o baile
de chamas na cave do pensamento;
as migrações de miríades de verbos, asas e garras,
sementes e mãos;
os substantivos ósseos e cheios de raízes, plantados
nas ondulações da linguagem;
o amor do nunca visto e o amor do nunca ouvido
e o amor do nunca dito: o amor do amor.
 
Sílabas sementes"
Octavio Paz  em "Árvore Adentro"

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Três Sonhos

"Vi-me num sonho de folhas caindo,
De lagos escuros num bosque perdido,
De tristes palavras ecoando -
Mas não sabia entender-lhes o sentido.
 
Vi-me num sonho de estrelas caindo,
De preces chorosas num olhar ferido,
De um sorriso que vinha ecoando -
Mas não sabia entender-lhes o sentido.
 
Como estrela caindo, folha tombando,
Assim me via num vai-vem perdido,
Eternamente esse sonho ecoando -
Mas não sabia entender-lhe o sentido."

Georg Trakl  em "Outono Transfigurado"

domingo, 8 de outubro de 2017

Liberdade

"A minha estranha forma de ser livre!
Sei que o sou, por direito e vocação,
E sinto-me por vezes algemada
Apenas por ter alma e coração."
 
Soledade Summavielle  em "Movimento de Asas"

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

As maçãs

 
"Dantes as macieiras davam maçãs,
que eram guardadas em toalhas de linho.
E só haviam umas que eram melhores,
que eram as do quintal do vizinho!
 
Agora só há maçãs «golding» ou «starking»,
agora só há maçãs «normalizadas».
E eu não me admiro que, em vez de redondas,
um dia destes passem a ser quadradas!"

Jorge Sousa Braga  em "Herbário"

domingo, 1 de outubro de 2017

"Isto filhos, a poesia e a cozinha são irmãs" (XVI)

 
Cesto grego de estufado de feijoca e coentros a perfumar. Batata parisiense assada com ervas em cama de couve roxa. Caviar de beringelas, cogumelos e alho-francês. 💗😋😋💗

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Mãe e Filho

"O poeta
bebe a água do Tigre e do Eufrates,
passa a noite sem dormir e às vezes tem caspa.
e nos salões tem reservado o seu lugar
e os raposos lambem-lhe a mão antes de fugir espantados
pelo áspero som do seu verso.
De puas, de facas, é a pele do poeta.
Com o despertar da luz sangra a pele do poeta.
Às vezes, desasado, silencioso,
deserto dos pés à cabeça,
anoitece de bruços na sua cama.
A inveja do poeta é amarela,
o seu sonho é azul como um céu sem guardas.
Por vezes devora-se a si mesmo, corta-se aos pedaços, reparte-se,
olha-se ao espelho, cospe, chora
sobre o mosaico da infância.
O poeta envelhece, engorda, arrota,
e ocasionalmente o poeta morre.
A poesia, que é imortal, olha-o de cima,
cega de luz e alheia como uma estrela antiga."

Poema de Piedad Bonnett (1951)
Da Antologia "Um País Que Sonha - cem anos de poesia colombiana"

domingo, 24 de setembro de 2017

Ninho das Águias

"Já eras misteriosa desde então
e nos mapas antigos chamavam-te Lissabona.
À distância contava as tuas sete colinas
como a Roma dos Césares, e repetia-me
as histórias de navegadores e as tuas lendas de conquista.
Apesar de nos separar a imensidade
do mar Atlântico, desde a minha carteira de colégio
acariciava a curvatura do globo terráqueo,
jurando que um dia chegaria às tuas margens.
 
Tantas vezes cortejada e celeste
apareceste aos meus olhos num dia de verão
de 1984, quando te vi do quarto
do Ninho das Águias,
um hotel estreito e suicida
que se persigna no monte de S. Jorge
de cada vez que Lisboa amanhece.
 
Um mapa durante dois anos dobrado e desdobrado
ardeu de véspera e de espera
sobre milhares de degraus, ardeu sobre as praças,
sobre a constante inclinação
das suas ruas, sobre o seu soçobrar marinho,
e atiramo-lo de uma ponte
para que seja o acaso a única bússola a orientar-nos.
 
Tento olhar os dias desde então
como se estivesse a uma janela do quarto
do hotel do Ninho das Águias,
vendo pela primeira vez como amanhece
a fragrante, a profunda, a ondulada
cidade de Lisboa."

Poema de Ramon Cote Baraibar (1963)
Da Antologia "Um País Que Sonha - cem anos de poesia colombiana"

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Conto

"Pergunto-me: porque escrevo poesia?
E desde algum lugar do misterioso bosque
(de outro conto que em vão estou tratando de escrever neste poema)
responde o lobo
movendo socrático a peluda cauda:
- Para melhor te conhecer"
 
Poema de Rómulo Bustos Aguirre (1954)
Da Antologia "Um País Que Sonha - cem anos de poesia colombiana"

domingo, 17 de setembro de 2017

O Homem Morto de Brooklyn

"Por trás do inverno de Nova Iorque
Que traz para os vidros
Um branco da Lapónia,
Alguns solitários
São encontrados mortos
Em frente de um televisor aceso.
Enquanto o homem se ajeita
Ao grande recinto da morte,
A voz de um modelo
Anuncia um cruzeiro pelas águas do Caribe
Ou o estado das estradas no Nebrasca.
Ao inspector,
Ao serralheiro,
À porteira do edifício,
Aos encarregados da autópsia,
Não deixa de os encher de melancolia
O televisor aceso
E a voz áspera
Que anuncia o fim da emissão."
 
Poema de Juan Manuel Roca (1946)
Da antologia "Um País Que Sonha - cem anos de poesia colombiana"

sábado, 16 de setembro de 2017

Deus e Tu

"No princípio eram a noite e o caos.
Veio Deus e criou os céus e a terra
e a luz e o dia e o homem.
Depois deteve-se, pensou um instante:
fez-te a ti.
E olhou-te fixamente, fixamente ...
teve medo e disse para consigo:
«Eram mais seguros a noite e o caos»
 
Poema de Jorge Valencia Jaramillo
Da antologia "Um País Que Sonha - cem anos de poesia colombiana"
 

Hindi Zahra - Silence