quinta-feira, 14 de junho de 2018

"O dia virá em que já não sabes
a idade das pedras caídas
na geografia difícil do rosto.
 
Há um muro que te há-de deter
onde medirás a distância da viagem
como de cada vez que se morre
 
o cabelo tão branco que não
será só assim branco
o olhar a dizer o que a terra sabe.
 
Porque a boca há-de calar-se
e na matriz de gelhas do rosto
será apenas mais uma ruga."

António Amaral Tavares  em "Os Nomes dos Pássaros"

quarta-feira, 30 de maio de 2018

"Estive a varrer a cozinha. Depois vi o meu reflexo no vidro da janela assim de vassoura numa sexta-feira à noite e sorri de tanta simbologia. Nem me atrevi a abrir a janela. Talvez eu voasse - quem sabe - mas os símbolos convém trazê-los à rédea curta."

Ivone Mendes da Silva  em "Dano e Virtude"
"A noite inventa aparências: as sombras,
os ruídos sem fonte, as circulações do susto.
Conheço bem os modos de ser inferior,
perto dos besouros, das formigas,
onde nos chegam abafados o amor e o júbilo.
É disso que me alimento,
curvado sobre a minha própria dor de bicho.
 
A noite é terna, uma pausa nos trabalhos diurnos.
Sôfrego, revolvo minerais buscando
um pouco de mal, para afastar de mim
a dureza, para acabar com as horas certas
de todos os dias. Dói-me a regra do ofício,
a jornada, os gestos da necessidade avara.
 
Apareço tarde, quando ninguém está. Sorrio, só.
Práticas milenares fazem de mim absurdo.
Tenho espinhos que lembrarão um campo de trigo,
vivo escondido para não incendiar no excesso.
 
Em areia vermelha oculto, encontro vestígios
de um mundo que nunca benquis. E porém,
há magias e poderes em tudo o que julgava saber,
nas coisas largadas fortuitamente no meu espaço.
 
Um garfo pode tornar-se arma fatal.
Um pedaço de madeira, o último reduto da vida.
O resto de uma corda, traço de equilíbrio.
Uma lata ferrugenta, a invenção de uma morada.
A precisão de uma mola de estender roupa,
bê-á-bá da teimosia. Uma moeda já sem uso,
descoberta da natureza contingente dos tesouros.
 
Escarafuncho tudo isso na minha cabeça,
quase não posso com a concretude mundana.
É esse o grande mistério, que as coisas estejam,
e, no entanto, que nenhum lugar lhes seja especialmente próprio.
Daí que me medite por vezes em surdina.
 
Questiono-me sobre a possibilidade de gerar
um sítio onde não me perdesse na profundidade saibrosa.
Mas é tão potente a luz exterior,
tão agudo o calor, tão insuportável a visão imediata
do horizonte. Encubro-me outra vez calado.
E faço da sobriedade térrea aconchego da minha dúvida."

Elisabete Marques  em "Animais de Sangue Frio"
"Afinal não estou sozinha no prédio. Lamento porque havia nisso algumas potencialidades literárias. Hoje de manhã soou um berbequim pouco passava das sete. Pensei: raios, era o que faltava agora. Depois conformei-me: cada um tem as suas obras e a paz nunca é perpétua."
 
Ivone Mendes da Silva  em "Dano e Virtude"

terça-feira, 24 de abril de 2018

Gosto do caminho da vida simples

"Gosto do caminho da vida simples
Por entre artemísias na bruma e grutas pedregosas
 
O meu sentir selvagem distende-se e acalma
Há muito companheiro das brancas nuvens ocioso
 
Não desejo o caminho do mundo
Sua paixão não me atrai
 
À noite sento-me sozinho num leito de pedras
A lua redonda sobe a Montanha Fria"
 
"O vagabundo do Dharma - 25 poemas de Han-Shan"

segunda-feira, 9 de abril de 2018

"Oh! o deslizar na água! Oh! aquele admirável deslizar, uma pessoa até hesita em voltar à tona. Mas é em vão que eu falo. Quem dentre vocês poderá alguma vez compreender a que ponto uma pessoa pode ali circular como em casa? Os verdadeiros nadadores deixam de saber que a água molha. Os horizontes da terra firme deixam-nos atónitos. E é sem cessar que voltam ao fundo da água."

 
"O Retiro Pelo Risco" - Antologia da Poética de Henri Michaux
"E o poeta demora-se olhando as pedras e
interroga-se
existem acaso
entre estas linhas estragadas as arestas os gumes
os côncavos e as curvas
existem acaso
aqui onde se encontra a passagem da chuva do vento
e do desgaste
existem o movimento do rosto o traçado do carinho
daqueles que diminuíram tão estranhamente dentro da nossa vida
desses que ficaram sombras de vagas e reflexões com
a imensidade do mar
ou porventura não nada fica a não ser apenas o peso
a saudade do peso duma existência viva
aí onde agora sem substância ficamos vergando
como hastes do salgueiro abominável amontoadas dentro
da duração do desespero
enquanto lenta a amarela torrente arrasta para baixo dentro da lama
juncaria arrancada
imagem de rosto que se tornou mármore na decisão de uma
amargura para sempre.
O poeta um vazio."
 
"Poemas Escolhidos" de Yorgos Seferis

quinta-feira, 5 de abril de 2018

"Ele inventava histórias passadas na neve, cabanas perdidas em paisagens brancas, e ela pensava ver os flocos a cair, e o desenho de flores nas vidraças embaciadas, flores estranhas que se pareciam com labirintos e mandalas, com mensagens muito antigas, ele era sempre capaz de recriar o mundo para ela, de começar a criação do mundo, no primeiro dia a noite e as estrelas, no segundo o mar, os pássaros e os peixes, no terceiro a luz e a neve."
 
Ana Teresa Pereira  em "A Linguagem dos Pássaros"
" E aprenderá a nadar muito cedo, descerei com cuidado o caminho nas rochas e ele aprenderá a gostar do mar, a senti-lo, e depois a mover-se nele como se fosse o seu elemento natural, e o seu corpo terá o bronze quase dourado do meu corpo e do de Miguel, e os seus cabelos terão madeixas mais claras do sol, e os seus olhos serão profundos e limpos como os das pessoas que passam muito tempo a olhar para o mar. Também o ensinarei a conhecer as plantas, os pássaros e os astros, os seus nomes, os seus movimentos ao longo do ano, ..."

Ana Teresa Pereira  em "A Linguagem dos Pássaros"

quarta-feira, 28 de março de 2018

Villeneuve - Words are Meaningless


"No solstício de Inverno (um dia estranho em que havia qualquer coisa no ar, uma proximidade, não sei) ele deu-me uma teia de apanhar sonhos. Era um objecto bonito, uma teia circular com uma abertura no centro, feita em fio muito resistente, e da qual pendiam plumas de pássaros, de um azul fortíssimo, artisticamente intercaladas com missangas.
Disse-me que a lenda se relacionava com os índios oneida, nos Estados Unidos. Na verdade, os índios em geral acreditavam nos sonhos, tudo o que era visto, sonhado ou captado nas visões era igualmente real.
Uma teia de sonhos numa casa, apanhava os que flutuavam no ar da noite. Os pesadelos ficavam presos nos fios como insectos e desfaziam-se de manhã com a luz do sol.
Mas os sonhos bons escapavam pela abertura no centro da teia e tornavam-se reais."

Ana Teresa Pereira em "O Rosto de Deus"

Barzin - Past all Concerns


"A sombra recorta-se no chão e as folhas dançam lentas como facas na mão de Deus."

"Briosa está deitada em cima do telhado do curral das ovelhas.
Gosta de ali ficar a ver as estrelas como brincos de prata que Deus já não usa."

Carla Pais  em "Mea Culpa"

Tarkovski