sábado, 24 de setembro de 2016

"As montanhas, como deuses, bebem água directamente das nuvens. E molham-se como deuses. Mas nada interessa, ainda que à nossa volta as nuvens entreguem um abraço ao cume dos montes."

Afonso Reis Cabral  em "O Meu Irmão"

domingo, 3 de julho de 2016

Il Poeta - Harp & Hang Duo


Ítaca

"O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos
 
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos
 
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos."

Daniel Faria em "Das Madrugadas"

domingo, 15 de maio de 2016

"Banda Sonora" para a corrida de amanhã :))


O olhar descoberto

"Diz-me se
na água reconheces o rumor
adormecido nos búzios
 
Diz-me se o outono tem
a ver com as algas
com a incerteza das folhas
 
e se há um sentido oculto
no rodar das estações
 
Diz-me se
toda a imagem é engano
ou filha enjeitada
do fogo
 
Diz-me se é certo
que o tempo
é um único olhar
prolongado nos dias
 
se a vida é o avesso da vida
e se há morte"

José Tolentino Mendonça  em "Os Dias Contados"

domingo, 1 de maio de 2016

A noite abre meus olhos

"Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
 
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
 
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
 
o amor é uma noite a que se chega só."

José Tolentino Mendonça  em "Estrada Branca"

domingo, 3 de abril de 2016

Sobre um Poema

"Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
 
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
 
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
 
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne."

Herberto Hélder (1930-2015)

Da Lua e suas fases


domingo, 27 de março de 2016

Homem

"Eu estou sobre as florestas
verde e brilhante
pairando acima de todas
eu, o Homem.
Eu sou órbita no cosmos,
movimento em flor,
sustentáculo sustentado.
Eu sou sol entre os astros que giram,
eu, o Homem,
sinto-me profundamente,
perto da mais alta mónada do cosmos,
eu, o seu pensamento.
A minha cabeça tem folhagem de estrelas,
de prata é o meu rosto,
eu brilho,
eu,
como Ele,
o cosmos;
o cosmos
como eu!"

Kurt Heynicke