segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Alguns gostam de poesia

"Alguns -
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil haverá duas.
 
Gostam -
mas gosta-se também de sopa de esparguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.
 
De poesia -
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva."
 
Wislawa Szymborska  em "Paisagem com Grão de Areia"

domingo, 20 de agosto de 2017

Red House Painters - Sundays and Holidays


Cogumelos ao cubo

 
Portobellos recheados no forno com creme makhani masala de cogumelos, em cama de Enoki e caril doce. Pó de Shiitake a perfumar. 🍄🍄🍄
Lauto repasto de fim-de-semana. Viciada em cogumelos, ora pois.
Agora há que compensar nas corridas da próxima semana. Longas, terão de ser um pouco mais longas. 😄🏃🏃🏃😄
"Pela tarde sentávamo-nos os dois na sombra fresca das parras a olhar à nossa volta; não havia muito a dizer, a não ser suscitar as memórias dela cada vez mais difíceis de verbalizar. Recordava, então, de como em rapariga, acompanhada de outras meninas, subia a montanha até à pedra da cruz e ali recolhia rosmaninho e zimbro que trazia para casa, secando-o e colocando-o na água de lavar as roupas para as tornar puras - seria um ritual de purificação perdido nos tempos. Dizia-me que as plantas eram batidas por um vento santo e que de noite se humedeciam num orvalho de água benta que escorria da base do cruzeiro e estiolava ao nascer da manhã quando o sol as doirava com a sua luz. Ar, água, terra e fogo, pensava eu, todos os elementos se conjugavam de uma forma sagrada.

António Tavares  em "Todos os Dias Morrem Deuses"

sábado, 19 de agosto de 2017

Por entre as dunas, o mar, a serra e a Peninha 💗

Conversa com a pedra

"Bato à porta da pedra.
- Abre. Sou eu.
Quero entrar dentro de ti,
olhar tudo ao meu redor,
respirar-te.
 
- Vai-te embora - diz a pedra.
Estou hermeticamente fechada.
Mesmo feita em pedaços
estamos hermeticamente fechadas.
Mesmo em areia desfeitas
não abrimos a ninguém.
 
Bato à porta da pedra
- Abre. Sou eu.
Venho por pura curiosidade.
A vida é a única ocasião para a satisfazer.
Tencionava passar pelo teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota de água.
Não tenho muito tempo para isto tudo.
O meu ser mortal devia comover-te.
 
- Sou de pedra - diz a pedra -
impossível perturbar a minha seriedade.
Vai-te daqui.
Faltam-me os músculos do riso.
 
Bato à porta da pedra
- Abre. Sou eu.
Ouvi dizer que há em ti grandes salas vazias,
nunca vistas, belas em vão,
mudas, sem o eco dos passos de ninguém.
Reconhece que tu própria pouco sabes disso.
 
- Grandes salas e vazias - diz a pedra -
só que lá não há lugar.
Belas, talvez, mas de beleza inacessível
aos teus pobres sentidos.
Poderás reconhecer-me, mas nunca me conhecerás.
Em toda a superfície me volto para ti,
mas o meu interior volta-te as costas.
 
Bato à porta da pedra.
- Abre. Sou eu.
Não procuro em ti eterno asilo.
Não me sinto infeliz.
Não sou um sem-abrigo.
O meu mundo é digno de regresso.
Hei-de entrar e sair de mãos vazias.
E como prova real de ter estado,
não apresentarei senão palavras
a que ninguém dará crédito.
 
- Não entras - diz a pedra.
Falta-te sentido de participação.
E nenhum outro sentido pode substituí-lo.
Nem um olhar omnividente
te servirá de nada sem esse sentido.
Não entras. Em ti esse sentido é vaga intenção.
Vago o seu germe, a sua concepção.
 
Bato à porta da pedra.
- Abre. Sou eu.
Não posso esperar dois mil séculos
para me recolher ao teu telhado.
- Se não acreditas em mim - diz a pedra -
vai ter com a folha, dir-te-á o mesmo.
Com a gota de água e o mesmo te dirá.
Pergunta por fim a um cabelo da tua própria cabeça.
Estou prestes a rir às gargalhadas
de rir como a minha natureza me impede de rir.
 
Bato à porta da pedra.
- Abre. Sou eu.
 
- Não tenho porta - diz a pedra."


Wislawa Szymborska  em "Paisagem com Grão de Areia"

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

The Strypes - You Can't Judge a Book by the Cover


"Dizes-me que tombou mais uma pedra ao moinho e que agora parece um castelo abandonado depois de atacado por sarracenos; recordo como cantava o moinho, em sons tão variados: o roçar das pedras aconchegadas no grão, o verter da água nas pás, o gemer da roda, triste e magoado. Lembro-me da passar a mão na maciez da farinha e de sentir o cheiro do milho moído a invadir-me as narinas, doce, seco e novo.
Espreitar a farinha amassada na bacia de barro e vê-la crescer era acreditar num milagre. O odor acre do fermento enchia a cozinha e o lume crepitava pela porta aberta do forno como se chamasse o pão. As tuas mãos tendiam a massa e os teus seios, de onde bebi a vida que tenho, baloiçavam ternamente sob a blusa fina como se estivessem vivos; depois a pá levava o pão muito para dentro quando já tinhas recolhido as brasas a um canto. Esperávamos; tu sentada num pequeno banco tecido a palha de bunho, eu sobre os teus joelhos, ambos impacientes. Lá dentro, dizias, soprava um ar quente e forte sobre a massa, fazendo-a lembrar-se do tempo em que tinha sido milheiro altivo ao vento, que crescia enquanto se ia esquecendo desse passado de planta verde e raízes húmidas.
Tiravas os pães um a um, encrostados, levemente castanhos, quentes, a fazerem-nos crer que o milagre se tinha dado, todo o milagre da vida nesse instante tranquilo de um pão cozido; partias dois que fumegavam como se estivessem vivos e até parecia que a massa se mexia, aconchegando-se ao ar cá de fora. Nunca os meus olhos viram tanto, mesmo depois de ter aprendido a juntar as letras, a desenhá-las, mesmo depois de ter visto a cidade e o rio, de ter pressentido o mundo e percebido o amor."

António Tavares  em "Todos os Dias Morrem Deuses"

domingo, 13 de agosto de 2017

Feliz é quem diz 💗












 
Porque se existem projectos que adoro e com os quais identifico-me, este, é sem dúvida, um deles!
Descubram
aqui qual é e ... sejam felizes! 😍💗😍

domingo, 6 de agosto de 2017

"Não se pode falar do deserto como de uma paisagem, porque, apesar da sua variedade, ele é ausência de paisagem.
Essa ausência lhe atribui a sua realidade.
Não se pode falar do deserto como de um lugar; porque ele é, também, um não-lugar; o não-lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar.
(...)
Não se pode pretender que o deserto seja o vazio, o nada. Nem se pode pretender que seja o termo, porque ele é igualmente o começo."

Edmond Jabés  em "A Obscura Palavra do Deserto"

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

"Acendeu o candeeiro ao lado e olhou a água-marinha brilhando na sua mão. Como se a pedra tivesse atravessado o mar para vir ter com ela, num movimento inevitável, muito mais seguro e rigoroso do que qualquer acto humano.
Voltara aonde pertencia, ao lugar de onde nunca teria partido, se os humanos não fossem loucos, erráticos e aleatórios, como folhas levadas pelo vento."
 
Teolinda Gersão  em "Prantos, amores e outros desvarios"