sexta-feira, 22 de agosto de 2014

" ... a antiga ciência dos astros não foi de maneira nenhuma - como se afirma hoje em dia - uma divinização supersticiosa dos corpos celestes e dos seus movimentos, mas sim um conhecimento desses corpos, ordenado de maneira a poder ser ao mesmo tempo uma ciência de realidades puramente espirituais e metafísicas, expressa sob uma forma simbólica."
 
Julius Evola  em "Revolta contra o Mundo Moderno"
"Deus partiu para criar o mundo e levou consigo o seu cão."

Mito cosmogónico dos índios Kato

sexta-feira, 15 de agosto de 2014


Beira-Mar

"Mitológica luz da beira-mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Há Muito

 
"Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Dual"

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O Búzio de Cós

"Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais.

Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada."

Sophia de Mello Breyner Andresen 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Liberdade

"Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Mar Novo"

Janice Wu









 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Soneto de Eurydice

"Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
 
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
 
Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
 
E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "No Tempo Dividido"

quinta-feira, 7 de agosto de 2014


Mar

"Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos amarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo.
Certa noite de bruma fria, em Antuérpia, no Zanzi-Bar, julgou ouvir o mar que perdera na voz dum jovem marinheiro grego. Mas não, o barulho que aquela voz derramava, junto à sua orelha, era de outro mar - fechado, calmo - propício aos amores inquietos e à lassidão embriagante do sol e do vinho.
Anos mais tarde, em Delos, haveria de reconhecer a voz do marinheiro no rebentar das ondas, em redor da ilha, como um eco: onde te vi despir regresso agora/para adormecer ou chorar e a noite caiu subitamente sobre ele, sobre a ilha e sobre o sonolento coração das leoas em pedra.
Uma outra vez, perto de Gibraltar, uma mulher idosa quis ler-lhe as linhas emaranhadas da mão. Já não se lembra o que lhe contou a mulher, acerca de vida e dos rumos da paixão. Recorda somente o que ela lhe disse ao separarem-se:
- Tens nos olhos a cor triste do mar que perdeste.
E passou bastante tempo antes que o homem voltasse ao seu país. Quando o fez, foi ao encontro do mar.
Largou a cidade e os amigos, a casa, o conforto, a noite, o trabalho e tudo o mais. Viajou em direcção ao sul, com a certeza de que jamais encontraria o mar perdido, em lugar incerto, a meio da sua vida.
Sabia agora que nenhum mar existia fora do seu corpo, e que tinha sido na perda irremediável de um mar que adquirira um outro onde, por noites de inquietante insónia, podia encontrar-se consigo mesmo e envelhecer sem sobressaltos, afastado da vã alegria dos homens e da pobreza do mundo.
Ao chegar junto do mar sentou-se no cimo da duna, como dantes, e esperou. Esperou que o mar guardado no fundo de si transbordasse, e fosse ao encontro daquele que perdera e se espraiava agora à sua frente.
 
Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um no outro, para sempre.
Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas."
 
 
Al Berto  em "O Anjo Mudo"

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Movimento Perpétuo

"Com os braços curvando-se no balançar
da água, adquires a mesma textura;
os teus gestos são os do mar, e a tua
fisionomia flutua sobre o corpo do mar;
os teus cabelos sobre a pele transparente
diluem-se, próximos demasiadamente
de mínimas algas negras. A tua voz
abafa-se quando me chamas, dizes:
vem sentir a matéria da água
que podes tactear em todo o corpo,
e deixa para sempre aquele olhar
que somente delineia formas."
 
Fiama Hasse Pais Brandão  em "Os Louvores"

domingo, 3 de agosto de 2014

Anna Foucher

"Soizig & Guillemette"

"Marius & Armandine"

"Gustini"

"Firmin"

"Apollon"

"Violette"

"Gaston"

"Béttina"
 
Anna Foucher é uma artista talentosa que "dá vida" a pequenos pedaços de madeira recolhidos na natureza! Através da escultura e pintura, transforma-os em personagens com histórias para contar! :)

sábado, 2 de agosto de 2014

Leituras em Novembro

"O mar bate como se o sopro
de separar das águas de novo
rasgasse a terra alcantilada.
Não o vejo, mas ao longe
oiço, no êxtase, o rumor
das ondas infinitamente.
Depois calamo-nos ouvindo
a voz interior apenas e pensamos
nos livros que consubstanciam
a separação entre a terra e a água."
 
Fiama Hasse Pais Brandão  em "Os Louvores"

sexta-feira, 1 de agosto de 2014