segunda-feira, 28 de junho de 2021

 
"Eu engendro a luz, mas as trevas igualmente pertencem à minha natureza ..."


"Acreditava, como acredito, que uma sociedade muda quando as nossas vidas mudam. E estas começam a mudar em parte à medida que a escrita modifica as mentalidades que as orientam."


"Os nossos escritores preocupam-se muito com as pessoas feitas nos sistemas que as enquadram. E muito pouco com a terra; ainda mantêm o hábito de só ter olhos para o homem."


"Eterno é prolongar indefinidamente com outro destino."


"Moo a farinha, faço o pão, medito."




"Um Arco Singular - Livro de Horas II" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim, Setembro de 2010
Páginas 81, 106, 107, 162, 170 e 239
 
"Eu sou múltipla, por isso desejo também tanto estar sozinha, ou seja, com meus restantes companheiros vivos."


"Perceberemos que só na via criadora a libertação pode ter lugar?"


"Estamos no mês de Junho, mas parece Inverno; múltiplos perfumes se desprendem de meus frascos, e o tempo apresenta-se-me inacessível, pois eu necessitava de anos e de recordações, mesmo do futuro, sem fim.
(...)
Fazendo perfumes (a conservação no álcool) dou às plantas uma vida eterna."


"O elemento mais antigo e mais profundo de todas as religiões é o culto da terra divina."




"Um Arco Singular - Livro de Horas II" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim, Setembro de 2010
Páginas 37, 44, 46, 47 e 78

sábado, 19 de junho de 2021

 
" ... caminhando pelas ondas do mar: _______________
volto à praia à tarde.
O mar e o sol são, fora do reino animal, os companheiros 
da minha solidão. E as árvores _______ são o reino mutável vivo, sem
fala aparente e articulada."



" ... fui tomar a certa refeição matinal à pastelaria da Sapa. Pela
janela da sacada, pus-me a olhar para o palácio, num olhar directo,
que, pouco a pouco, nas minhas linhas, se difundia pela serra."



" Eu, Gabriela, na hora da grande decisão. Decido que não tenho
parâmetros:
sou mulher sem filhos;
sou escritora (escrevente, prefiro) sem reconhecimento;
sou trabalhadora regular e pertinaz com vida material incerta.
Sou, portanto, por nascimento e opção, uma pessoa singular
em que(m), consequentemente, a noção habitual de etapas da vida
se perde. O que se gastou no corpo, a vibração veio e o substituiu.
Não me curvo senão ao prosseguimento dessa liberdade íntima 
(exterior e interior) ..."



"O tempo não tinha passagem, mas - no entanto - ele alugou uma barca e dissimulou-se na paisagem, em cima de uma colina onde se sentou, por detrás de um pinheiro verdadeiro.
O mundo está repleto de silêncio amoroso, o orvalho é macio e solitário."




"O Sonho É Um Grande Escritor - Livro de Horas VII" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2020
Páginas 85, 103, 134 e 137

"Poemas Envelope" de Emily Dickinson

 
"O mais belo Lar que
conheci
foi construído numa Hora
Por Certos Conhecidos meus
Uma aranha e uma Flor -
Um presbitério de renda e
de Seda - Brilho - Sol"



"Há quem
seja fútil
de propósito
e
profundo
por
mero acaso."



"Assim como há
Quartos na nossa
Mente onde -
nunca entramos
sem pedir Desculpa -
Devemos também respeitar
o recato dos
outros -"




"Poemas Envelope" de Emily Dickinson
Edições do Saguão
1ª edição, Julho de 2020
Páginas 56, 80 e 93

sábado, 5 de junho de 2021

 
"A minha escrita nasce quase sempre de uma revolta"

"O coração da mulher é situado na terra, ..."

"Se todos os seres, e não apenas os humanos, me fazem tanta companhia, porquê o espanto de eu ser tão feliz na solidão?"

"Sim, o tempo tomou-me tão completamente, que tenho uma data em cada mão, um acontecimento diferente em cada dedo."

"Cuidar de um jardim, ter terra à volta da sua casa, é um privilégio; é um trabalho em que todo o corpo, a pessoa inteira, se funde, se projecta no movimento. Vejo-me respirar, dar as minhas mãos e força às plantas e à terra, e, no fim, não me distingo do dia que passa."

"A solidão é uma «destruidora» de modelos, a morada criativa das percepções."

"Nunca iremos muito longe sem a meditação e as visões que ela proporciona; aí se produz o eu - onde o mundo interdito, verdadeiramente original, pode ser fulgorizado."

" ... psicanálise ... grande rampa de lançamento."

"Há vidas cujas dificuldades tocam o assombro: são as dos pensadores. Há aí tanta invenção, reflexão, ousadia, desespero e esperança como nas viagens dos grandes navegadores."



"Uma Data Em Cada Mão - Livro de Horas I" de Maria Gabriela Llansol
Assírio & Alvim, Outubro de 2009
Páginas 31, 34, 69, 83, 102, 103, 118, 120, 171, 210 e 211

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Poiêtikê

 
"Vindo o momento, tudo aquilo que separou
ciência e poesia deixará
de existir sobre a terra.
E o mistério terá o seu quinhão
entre as coisas aceites, entre as coisas
que, parecendo sombras, mais não são
do que a graciosidade que se esquiva
àqueles que tudo querem devassar.
(...)
E ela quer saber exactamente onde está o poema,
quer tocar
no nervo do poema, sem que exista
frieza ou impiedade,
sem que exista
golpe de bisturi.
Porque é um toque de delicadeza,
a materna leveza que há nos dedos
de quem levanta uma raiz, tremendo
com tudo o que ali há de irreparável,
de precioso, de finito, como o verso,
com tudo o que ali há de
desumano,
enquanto algo de fino,
de espantoso na sua vibração,
atinge o peito
e deixa as criaturas que nós somos
sob o encantamento do que ignoram."



"Acidentes" de Hélia Correia
Relógio D'Água Editores, Novembro de 2020
Páginas 43, 44 e 45

Esmola

 
"Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.

Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema."



"Acidentes" de Hélia Correia
Relógio D´Água Editores, Novembro de 2020
Página 08