segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

"Come walk with me
Along the sea
Where dusk sits on the land
And search with me
For shells are free,

And treasures hide in sand."

 
Author unknown

Tradutor de Chuvas

"Um lenço branco
apaga o céu.

A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.
 
O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão."

Mia Couto

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

sábado, 26 de setembro de 2015

Veneza

"Esta história aconteceu
Num país chamado Itália
Na cidade de Veneza
Que é sobre água construída
E noite e dia se mira
Sobre a água reflectida
 
Suas ruas são canais
Onde sempre gondoleiros
Vão guiando barcas negras
Em Veneza tudo é belo
Tudo rebrilha e cintila
 
Há quatro cavalos gregos
Sobre o frontão de S. Marcos
E a ponte de Rialto
Desenha aéreo o seu arco
Em Veneza tudo existe
Pois é senhora do mar
 
Dos quatro cantos do mundo
Os navios carregados
Desembarcam no seu cais
Sedas tapetes brocados
Pérolas rubis corais
Colares anéis e pulseiras
E perfumes orientais
 
Cidade é de mercadores
E também de apaixonados
Sempre perdidos de amores
E cada dia ali chegam
Persas judeus e romanos
Franceses e florentinos
Artistas e bailarinos
E ladrões e cavaleiros
 
Aqui só há uma sombra
As prisões da Signoria
E os esbirros do doge
Que espiam a noite e o dia
De resto em Veneza há só
Dança canções fantasia
 
Cada ano aqui se tecem
Histórias tão variadas
Que às vezes até parecem
Aventuras inventadas
 
Por isso aqui sempre digo
Que Veneza é como aquela
Cidade de Alexandria
Onde há sol à meia-noite
E há lua ao meio-dia*"

*Os últimos 3 versos são da tradição popular
 
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "O Búzio de Cós e Outros Poemas"
 

domingo, 20 de setembro de 2015

Exílio

"Exilámos os deuses e fomos
Exilados da nossa inteireza"

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "O Nome das Coisas"

Calvin Seibert ... o arquitecto da areia!













Arte Poética II

"A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida."

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Artes Poéticas"

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Peanut Oak




 
"Envie mensagens inspiradoras aos que mais gosta, dê cor à sua casa, passeie-se com uma capa para o telemóvel de fazer inveja ou faça da sua T-shirt uma peça única."

Conheça
aqui o trabalho desta criativa designer portuguesa, Patrícia Salazar Pino! :)

Ausência

"Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
 
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Mar Novo"

domingo, 13 de setembro de 2015

Mongolian Book of Astrology, 19th century


Fernando Pessoa

"Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo
 
Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas."
 
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Livro Sexto"

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

"Não me custa deitar tarde, o que me custa é não levantar cedo. Perder a manhã, desperdiçar um terço do dia, faltar ao encontro com o sol. Tem que ver com a índole, mas também com uma noção da existência que vê a vida como uma ampulheta - mas das que não se podem virar do avesso. A areia só passa uma vez."
 
Gonçalo Cadilhe em "Encontros Marcados"

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Personificações femininas da astronomia e geografia

 
Personificações femininas da astronomia e geografia, de Leonardus Valck
Amesterdão, 1706-30 (The Rijksmuseum, Amsterdam).

"Eu e a minha mulher tínhamos visitado Miss Stein e tanto ela como a amiga com quem vivia se tinham mostrado extremamente cordiais e afetuosas. Apreciáramos devidamente o grande estúdio povoado de grandes quadros. Aquilo era como estar numa das melhores salas de um dos mais belos museus, com a seguinte diferença porém: é que ali, além de desfrutarmos de uma vasta lareira que irradiava calor, proporcionando conforto, ofereciam-nos boas coisas de comer, chá e licores de destilação natural, feitos de ameixas escuras, de ameixas amarelas e de amoras silvestres. Essas bebidas, perfumadas e incolores, guardadas em garrafas de vidro lapidado, eram-nos servidas em cálices e, quer fossem de quetsche, de ameixazinhas amarelas ou de framboesas, todas elas sabiam aos frutos de que provinham, e, convertendo-se em fogo concentrado na nossa língua, aqueciam-nos e tornavam-nos comunicativos."
 
"Paris é uma Festa" de Ernest Hemingway

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Core Yoga para a corrida


Excelente sequência de Core Yoga para as corridas! :)
"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
 
A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
 
A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas."
 
Sophia de Mello Breyner  em "Poesia"

domingo, 16 de agosto de 2015

De regresso às corridas! :)))



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Portugal Night Skies


"Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses
 
tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.
 
Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo
 
dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos."
 
Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Paperholm


 
Paperholm ... projecto de Charles Young que consiste numa ideia simples: "construção" de uma estrutura de papel por dia durante um ano!
Pesquise mais
aqui!

O Jardim e a Casa

"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."
 
Sophia de Mello Breyner  em "Poesia"

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

"Book of Astrology", Nepal, 14th-16th century. (LACMA Collections)


A Criação do Mundo

"Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas - um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.
 
Abriu-as devagar e deixou cair as trevas como sementes,
para que então servissem unicamente de sombras
e prolongassem a memória das coisas por vir. Foi assim
que inventou a luz e separou um dia do seguinte.
 
Depois afastou o céu daquilo que viria a ser o mar,
como quem divide um lenço azul em dois e limpa
as lágrimas apenas a metade. No meio, deixou que
crescesse tudo quanto do chão quisesse escapar-se
para traçar a primeira geografia dos caminhos. E assim
 
descobriu a cor e encheu a sua paleta de animais
que rasgariam os céus, cruzariam os oceanos e
revolveriam as entranhas da terra na estação
das chuvas. Por fim, semeou pequenas clareiras
 
nas florestas, pedras nas vertentes das cordilheiras,
cristais de neve no contorno dos lagos, estrelas cadentes
na vizinhança do desespero e rios serpenteantes
entre as searas louras, mordidas por um sol que lhe caiu
quase sem querer dos dedos, mas lhes aproveitou o calor.
 
E, apesar da alegria que experimentou, sentiu que o seu
mundo era tão frágil que, se desviasse os olhos, tudo acabaria
por regressar ao pó, às trevas e ao verbo. Só por isso criou alguém
que também o visse e lhe dissesse todos os dias como era belo."

Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"

quarta-feira, 29 de julho de 2015

"Não voltei a esse corpo; e não sei
se aqueles que o vestiram antes e depois
de mim souberam nele o verdadeiro calor
e lhe conheceram os perigos, os labirintos,
as pequenas feridas escondidas. Não voltarei
provavelmente a sentir a respiração
palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas
rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito,
também, às vezes.
 
Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia,
o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.
E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me
recolheu,
porque os cheiros tornam os lugares parecidos, confundíveis.
 
Quando a manhã me deixar de novo sozinha no meu quarto
trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos."


Maria do Rosário Pedreira  em "A Casa e o Cheiro dos Livros"

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ilha dos Abençoados

"Ilha dos Abençoados, com cerca de 800 quilómetros de comprimento, no Oceano Atlântico. Terra de um povo que se veste de cor púrpura com belas teias de aranha.
(...)
A ilha é comprida e plana, governada por Radamantus, natural de Creta. A capital da ilha, também chamada Abençoada, foi construída em ouro com muralhas de esmeralda. Tem sete portas fabricadas a partir de uma única peça de canela, e as estradas que atravessam a cidade são de marfim. Há templos a todo o tipo de deuses, feitos de berilo e contendo altares elevados de ametista (...). Em torno da cidade corre um rio de um perfume requintado, com 15 metros de profundidade e facilmente navegável, sete rios de leite e oito de vinho, e há fontes de água, mel e perfume. Os banhos públicos da cidade são grandes edifícios de cristal, aquecidos com canela; as banheiras contêm água e orvalho quente.
Os viajantes não encontrarão na Ilha dos Abençoados a escuridão da noite ou a luz do dia a que estão habituados. A ilha está permanentemente imersa na penumbra, como se o sol ainda não tivesse nascido. Aqui é sempre Primavera e só sopra um vento, o zéfiro. O país é rico em todo o tipo de flores e todo o tipo de plantas; as videiras produzem cachos de uvas 12 vezes por ano; as macieiras, as romãzeiras e outras árvores dão frutos 13 vezes por ano, porque no mês de Minossa produzem duas vezes. O trigo produz não só feixes já prontos, mas também belíssimos pães, que crescem nas extremidades da planta como cogumelos."

Luciano de Samósata, História Verdadeira, séc II

sábado, 25 de julho de 2015

Nómada

"Sentou-se no porto e abriu aos que o escutavam
o seu livro de viagens.

Conhecera as montanhas geladas do norte e atravessara de noite
brancas e densas florestas, acossado pelos ursos. Cruzara
cidades luminosas onde as mulheres tinham cabelos louros,
mas ninguém falava a sua língua; e deixara-se arrastar
pelos ventos até às praias quentes do sul onde ganhou
pele morena e olhos verdes. Depois
 
instalou-se provisoriamente nas ruínas de um continente velho
onde foi monge, amante, homem letrado, e ensinou às raparigas
de um claustro branco os rudimentos da leitura. E, por fim,
partiu para um dos derradeiros lugares do mundo,
onde o tomaram pelo último marinheiro e o perseguiram.
 
Perdera deus no seu caminho e voltara atrás.
 
Havia, enquanto recordava, uma pequena ferida na sua voz:
em nenhum lugar achara ainda o nome da sua casa."


Maria do Rosário Pedreira  em "A Casa e o Cheiro dos Livros"

domingo, 19 de julho de 2015

"Nenhum homem tem o privilégio de entender o futuro, a não ser que esteja preparado para o criar."
 
Henry Lovell

sábado, 18 de julho de 2015

Heaven is closer than you think







 
 
"Heaven is closer than you think" ... uma selecção de fotografias tiradas por Amy Harrity na sua mais recente viagem à Grécia!
"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe.
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única central realidade que não está em nenhum e está em todos.
Como o panteísta se sente onda e astro e flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, individuado por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

Fernando Pessoa em "Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal"

sexta-feira, 3 de julho de 2015

"Por que é que hás-de pensar que a beleza, que é a coisa mais preciosa do mundo, está por aí, como um seixo na praia, placidamente à espera que algum passante descuidado a apanhe? A beleza é algo de maravilhoso e estranho que o artista molda a partir do caos universal com a sua alma atormentada. E, quando a cria, nem a todos é dado conhecê-la. Para a reconhecermos é preciso repetir a aventura do artista. É uma melodia que ele nos entoa, e, para a ouvirmos outra vez no nosso coração, são precisos conhecimentos, sensibilidade e imaginação."

Somerset Maugham  em "A Lua e Cinco Tostões"

domingo, 21 de junho de 2015

Sukhavati Raw Desserts Plant









 
Stephen McCarty é um chef americano especialista na transformação de ingredientes orgânicos em verdadeiras obras de arte veganas, decoradas com as mais belas mandalas.
A ideia surgiu após ter começado a praticar meditação, sendo que o conceito dos seus bolos tem como intuito levar-nos a reflectir sobre a beleza e impermanência da vida.
Com o aperfeiçoamento dos bolos e das mandalas criou o negócio Sukhavati Raw Desserts Plant.
As cores utilizadas por McCarty são feitas a partir de extractos vegetais e frutas naturais. Com simetria perfeita, encontramos sabores como chocolate branco com frutas silvestres, morango com rosas e cacau ou limão com lavanda e mirtilo.
"O conceito de impermanência não é inerentemente positivo ou negativo, mas simplesmente uma parte do processo de composição das coisas. Habitualmente apreciamos apenas metade do ciclo da impermanência. Podemos aceitar o nascimento mas não a morte, o ganho mas não a perda ou o fim dos exames mas não o início. A verdadeira libertação vem de apreciarmos todo o ciclo e não nos agarrarmos àquelas coisas que achamos agradáveis. Recordando a mutabilidade e impermanência de causas e condições, quer positivas quer negativas, podemos usá-las para nosso proveito. Riqueza, saúde, paz e fama são exactamente tão temporárias como os seus opostos."

Dzongsar Jamyang Khyentse  em "O que não faz de ti um budista"

quarta-feira, 17 de junho de 2015

sábado, 13 de junho de 2015

Via Láctea na Primavera


 (Clique na imagem para ampliar)
 
“Com a chegada da Primavera, a Via Láctea começa a ser visível nos céus de Portugal de madrugada, nesta imagem, captada em Monsaraz, na Reserva Dark Sky Alqueva, é possível observá-la em pleno, graças a este mosaico de 21 imagens que permite um grande campo de visão, revelando este “braço” da nossa galáxia acima do Convento da Orada (datado de 1670). Logo ao centro e à direita das palmeiras, a Lua brilha intensamente, não interferindo no gigante arco da Via Láctea onde é possível distinguir constelações como a Ursa Menor, com a estrela polar à esquerda da imagem, até ao Cisne, com a sua nebulosa Norte da América NGC7000 bem visível, descendo mais à direita, encontramos ainda as constelações de sagitário e escorpião, com a brilhante estrelas super gigante, Antares.”

Texto e fotografias de Miguel Claro

sábado, 6 de junho de 2015

A Luta pela Terra

"Retrato de criança no assentamento de Barra do Onça,
próximo ao município de São Francisco de Canidé. Aí, 102
famílias conseguiram há alguns anos suas parcelas individuais
de terra e possuem em comum 850 vacas leiteiras, cuja produção
diária ultrapassa os 5 mil litros. É a maior unidade do sector
em Sergipe e a única em que se fazem duas ordenhas por dia.
Sergipe, 1996."
 
"Existem dezenas de milhares de famílias brasileiras que vivem em acampamentos à beira das estradas em vários pontos do país. São famílias de sem-terra que aos poucos vão-se juntando e formando verdadeiras cidades, às vezes com uma população de mais de 10 mil habitantes.
As condições de vida são as mais rudimentares; falta tudo: água, alimentação, instalações sanitárias, escola para as crianças, assistência médica, etc. Além disso, essas pessoas vivem em grande insegurança, sujeitas às provocações e violências por parte dos jagunços e outras forças de repressão organizadas pelos latifundiários, que temem a ocupação de suas propriedades improdutivas. A situação nessas "cidades" é de facto pior que a dos campos de refugiados na África, pois os sem-terra não contam com a protecção das autoridades, não recebem assistência institucional e nenhuma organização humanitária ou a Organização das Nações Unidas lhes presta socorro.
Seja como for, os deserdados da terra alimentam a esperança de melhores dias. E uma coisa é certa: não querem mais fugir para as cidades, que já não podem absorvê-los, dar-lhes trabalho e condições dignas de vida. Preferem, pois, resguardando-se das ameaças da delinquência e da prostituição dos grandes centros urbanos, permanecer nos acampamentos à margem das estradas e esperar pela oportunidade de ocupar a terra tão sonhada, mesmo correndo risco de vida. Seus projectos são idênticos: lavrar um pedaço de terra finalmente seu, construir uma casa para a família, assegurar o sustento desta e, por meio da cooperativa a ser criada, comercializar os excedentes de sua produção agrícola, garantindo a manutenção de escola para os filhos. É esse, em síntese, o sonho comum dos sem-terra."

"Terra" de Sebastião Salgado