segunda-feira, 29 de abril de 2019

tristeza

"Pousa o prato na mesa, depois os talheres,
o copo, o guardanapo. Bebe água,
mas podia beber vinho. Tudo nele
é uma regra. Cada gesto um esforço,
o espaço que abre entre o conjunto dos
movimentos e a luz com que os executa.
Fluorescente, trémula, quase verde
áspera, como a morte. Não que a energia,
a vidência dos movimentos às escuras,
lhe impeça o sabor. No fim, lava tudo,
a louça, as mãos, a dor."
 
Carlos Bessa em "Em Partes Iguais"
"havia alguma coisa que estava mudada. prestes a mudar. por alguns dias, poderia ainda haver a percepção de que seria possível prolongar o estado anterior. decompor o tempo em partes cada vez mais pequenas, de modo a que o resultado fosse ainda um número inteiro. aquele capaz de constituir critério da sua própria permanência."
 
H.G.Cancela  em "De Re Rustica"

segunda-feira, 22 de abril de 2019

"As ruínas tornaram-se íntimas. São as ruínas da nossa intimidade. Ou a nossa intimidade só produz ruínas? O meu olhar, sem poder, vê unicamente o que o poder rejeita: um escombro criador de escombros.
Qualquer escrita: metamorfoses de uma ruína."
 
Rui Nunes  em "Suíte e Fúria"
" ... agora ando a conhecer outras espécies de amor. Gosto destes nocturnos, porque cada um fala de uma espécie de amor. O amor impossível, perpassado de dor, mas sublimado por uma indescritível ternura. O amor salvífico, em que a alma, pelo sofrimento, se eleva como que para as estrelas em direcção à sua perfeição. O amor que às vezes existe entre os amigos, cheio de moderação e de equilíbrio, claro e alegre como um passeio no Verão. E o amor ilícito dos que se escondem para amar, sofisticado e cortês, por um lado, mas trágico e selvagem, por outro."  

Adriana Crespo  em "Divertimento de A."

domingo, 21 de abril de 2019

" ... escrever era para ela, como para mim, o centro de todos os pensamentos, o principal, não dito mas omnipresente, o maior de todos os desejos. Várias vezes me lembrei depois, a respeito dos verdadeiros factos, da célebre advertência aos poetas: «De preferir às histórias verdadeiras mas incríveis, são as histórias falsas mas credíveis.»
Já então o papel era o pálio da solidão."
 
Adriana Crespo  em "O Inaudito, Fabuloso e Incrível nunca antes visto Divertimento de A."
"O meu corpo destrói o passado, ou melhor, tira-mo, torna-o errante, sem ninguém que o reivindique, torna-o o passado de ninguém: não reconheço a criança que brinca, nem a sombra da tília, nem o saltitar do corvo, nem a voz de minha mãe, nem esta casa desenhada numa folha transparente, através da qual passa o silêncio de outros passados desfeitos, abandonados por outros corpos, o passado é a ficção de uma pertença, mas não uma ficção minha ou de outro:
é o passado a inventar-se uma trama coesa para sobreviver,
(o passado descobre-me, não me inventa, descobre-me como uma criança encontra, sem procurar, uma concha no meio da areia, é minha: diz ela a rir, o passado é, recordar o passado é, ..."
 
Rui Nunes  em "Suíte e Fúria"

sábado, 20 de abril de 2019

É possível deixar de sofrer?


"Comecei a escrever e já não sei porquê, nem quando, estou não sei para onde, não se escreve para o futuro, mas para um passado sempre incompleto: quanto mais se escreve mais incompleto fica: eis a única coisa que aprendi."
 
Rui Nunes  em "Suíte e Fúria"

terça-feira, 16 de abril de 2019

"letra a letra, o som de uma arcaica máquina de morte. Som quase íntimo: constrói um invólucro, o vazio que há nele. Não conseguiremos emendar a sua transparência. Respiramo-la:
e as palavras surgem,
peças minúsculas, umas ao lado das outras,
coesas até à imprecação.
Numa sala qualquer, num anfiteatro, as palavras, como as moscas, continuam a apoquentar os lábios."
 
Rui Nunes  em "Suíte e Fúria"

quarta-feira, 10 de abril de 2019

"Gostava dos ecrãs dos telemóveis, da existência de sítios onde as palavras podiam ser tão facilmente destruídas como criadas. Sem deixar marcas. Sítios brilhantes, impolutos, sem riscos nem rasuras nem memórias, onde era sempre possível recomeçar."
 
Dulce Maria Cardoso  em "Eliete - A vida normal"

domingo, 7 de abril de 2019

O peculiar mundo de Gonçalo M. Tavares

 
Gonçalo M. Tavares, em entrevista à E do "Expresso" (06 de Abril de 2019)

18 de janeiro

"Encontrei mesmo há instantes, a caminho do Café, uma moeda de cem depositada num banco.
Vou gastá-la agora mesmo. Nunca se deve ficar com o que não nos pertence."
 
João Luís Barreto Guimarães  em "Lugares Comuns 1994-1995"

lifedance

"a linha que divide o cérebro e a alma
é afectada de diversas formas através da
experiência -
alguns perdem completamente a mente e tornam-se
apenas alma:
lunáticos.
alguns perdem toda a alma e tornam-se apenas mente:
intelectuais.
alguns perdem ambas e tornam-se:
aceites."

Charles Bukowski  em "Os cães ladram facas [antologia poética]"

4 de Janeiro

"O princípio da manhã. Início de um novo ano. Dobro os óculos sobre a mesa, as lentes voltadas para cima.
Toda a vez os pouso assim. Gosto de ter um olhar sempre a cuidar de mim."
 
João Luís Barreto Guimarães  em "Lugares Comuns 1994-1995"

Hungaria, Sinfonia Poema #9 por Franz Lizt

"sim, eu sei que escrevo muitos poemas mas não é
por ambição, é mais ou menos uma coisa para
fazer,
enquanto vivo a minha vida
e
se tenho de escrever cem maus poemas para conseguir
um bom
não sinto que esteja a perder o meu tempo
além do mais,
gosto do som do teclado da máquina de escrever, soa
tão profissional
mesmo quando
não está a acontecer
nada.
 
escrever é tudo o que sei fazer e
prefiro a música de grandes compositores
clássicos
por isso ouço-os sempre enquanto escrevo à máquina
(e quando por fim escrevo um bom poema
estou certo de que eles têm muito que ver com
isso).
 
estou de momento a ouvir um compositor que me está
a levar completamente
para fora deste mundo e subitamente
não quero saber se vivo ou se morro ou se pago
a conta do gás a tempo,
quero apenas ouvir,
apetece-me abraçar o rádio contra o peito de tal maneira
que possa fazer parte
da música, quero dizer,
isto ocorre-me realmente e eu queria poder captar
aquilo que estou a ouvir
e escrevê-lo
neste poema
agora
mas não consigo,
apenas consigo escutar e escrever pequenas palavras
enquanto ele faz a sua grande
e imortal
afirmação.
 
agora a música acabou e observo
as minhas mãos
e a máquina de escrever está
silenciosa
e de súbito sinto-me
simultaneamente
muito melhor
e muito pior."
 
Charles Bukowski  em "Os cães ladram facas [antologia poética]"

quinta-feira, 4 de abril de 2019

21 de Dezembro

"Abro o caderno e escrevo que estou a escrever no caderno. Por vezes a escrita dói, a tinta escorre e faz-se sangue, haver duas palavras amigas a pairar sobre o poema e ao soar da caneta só uma poder ter lugar.
Um rosto molhado aparece acenando pelo lado da chuva. Gesticula a pergunta se me encontro a escrever. Sorrio, aquiescendo. Deixa ficar um adeus e avança sobre os charcos, sem se ter apercebido de que fiquei a escrever sobre isso, sobre aquele gesto dele, no fundo a escrever sobre ele.
Não tivesse tocado no vidro, não teria entrado no poema."
 
João Luís Barreto Guimarães  em "Lugares Comuns 1994-1995"

escrever

"começas a sorrir
todo agitado
por dentro
enquanto as palavras saltam
dos teus dedos
para as teclas
e é como um
sonho de circo:
tu és o palhaço, o domador de leões,
és o tigre,
és tu próprio
enquanto
as palavras saltam
através de arcos em chamas,
e fazem triplos mortais
de trapézio em
trapézio, e
abraçam o
Homem-Elefante
enquanto
os poemas continuam a surgir,
um a um
escorregando para
o chão,
e tudo vai na esgalha e bem;
as horas passam
e logo
acabaste,
vai até ao quarto,
atira-te para cima da cama
e dorme o sono dos justos
aqui na terra,
por fim, a vida perfeita.
 
a poesia é o que acontece
quando nada mais
pode."
 
Charles Bukowski  em "Os cães ladram facas [antologia poética]"
"Nada é por acaso, tudo tem um sentido, o sentido do lugar que cada coisa no final ocupa. Mas estará predestinado esse lugar, ou será o encontro ocasional nos lugares que forma o destino? As palavras, como os objectos, também procuram o seu lugar."

Lídia Jorge  em "Estuário"

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Então queres ser escritor?

"se não rebentar de dentro de ti
a despeito de tudo,
não o faças.
a não ser que venha espontaneamente
do teu coração e da tua mente e da tua boca
e das tuas entranhas,
não o faças.
se tens de te sentar durante horas
a olhar para o ecrã do teu computador
ou dobrado sobre a
máquina de escrever
à procura de palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou pela
fama,
não o faças.
se o fazes porque queres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens de te sentar aí e
rescrever tudo outra e outra vez,
não o faças.
se o simples acto de pensar em fazê-lo te custa,
não o faças.
se estás a tentar escrever como outra pessoa
qualquer,
esquece.
se tens de esperar que te saia
como um rugido,
então espera pacientemente.
se o rugido nunca te sair,
então faz outra coisa.
se primeiro tens de o ler à tua mulher
ou à tua namorada ou ao teu namorado
ou aos teus pais ou a quem quer que seja,
não estás pronto.
 
não sejas como tantos escritores,
não sejas como tantos milhares de
pessoas que se intitulam escritoras,
não sejas pesado e chato e
pretensioso, não te consumas com
autoestima.
as bibliotecas do mundo inteiro
bocejaram até adormecer
com gente do teu tipo.
não aumentes esse número.
não o faças.
a não ser que te saia
da alma como um foguetão,
a não ser que ficar parado
te leve à loucura
ou ao suicídio ou ao homicídio,
não o faças.
a não ser que o sol dentro de ti
te queime as entranhas,
não o faças.
 
quando a hora chegar verdadeiramente,
e caso tenhas sido escolhido,
acontecerá por si
e continuará a acontecer
até que morras ou que morra
em ti.
não há outra forma.
 
nem nunca houve."
 
Charles Bukowski  em "Os cães ladram facas [antologia poética]

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Japamala Olho Tigre


 
O meu primeiro Japamala 💗

a palavra

"a palavra não tem pernas nem olhos,
não tem boca, não tem braços,
não tem intestinos e
amiúde não tem coração, ou muito
pouco.
 
não podes pedir à palavra
que te acenda o cigarro
embora te ajude a
apreciar o vinho.
 
e não podes forçar a palavra
a fazer nada que
não queira fazer.
não a podes sobrecarregar.
e não podes acordá-la
quando esta decide
dormir.
 
de vez em quando
a palavra tratar-te-á bem,
dependendo daquilo
que lhe peças para
fazer.
outras vezes, tratar-te-á
mal
independentemente
do que lhe peças para
fazer.
 
a palavra vai e
vem.
às vezes tens de
esperar muito tempo
por ela.
às vezes nunca mais
volta.
 
às vezes os escritores
matam-se
quando a palavra
desaparece.
outros escritores
fingem que ela ainda
lá está
apesar de a palavra
estar morta e
enterrada.
 
muitos escritores famosos
fazem isto.
e muitos menos famosos
que só se autodenominam
escritores.
 
a palavra não é para
todos.
e para a maioria,
está lá por
muito pouco
tempo.
 
a palavra é um
dos mais
poderosos milagres
da
existência,
pode iluminar ou
destruir
mentes,
nações,
culturas.
 
a palavra é perigosa
e bela.
 
se vier por ti,
sabê-lo-ás
e serás o mais
afortunado dos
humanos.
nada mais
importará
e tudo o resto
importará.
 
serás
o centro do
sol,
rir-te-ás
séculos afora,
tê-la-ás,
os teus dedos
as tuas entranhas
tê-la-ão,
e serás
enquanto durar
um sacana de um
escritor
fazendo o possível
impossível,
a escrevê-la,
a escrevê-la,
a escrevê-la.

Charles Bukowski  em "Os cães ladram facas [antologia poética]"
"Há pessoas que se ajudam a si próprias, ajudando os outros e isso alegra-os porque se trata de um exercício de poder."
 
Iris Murdoch  em "A Máquina Do Amor Sagrado e Profano"

Monstros através dos tempos

"Van Gogh a escrever ao irmão a pedir tintas
Hemingway a testar a caçadeira
Céline falido como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser considerado ladrão
Faulkner bêbedo nas sarjetas da sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs a matar a mulher com uma arma
Mailer a esfaquear a sua
a impossibilidade de ser humano
Maupassant a enlouquecer num barco a remos
Dostoiévski encostado a uma parede para ser fuzilado
Crane borda fora da popa de um barco e directo
à hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como uma batata assada
Harry Crosby a dar o salto para o Sol Negro
Lorca assassinado na estrada pelas tropas espanholas
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de manicómio
Chatterton a beber veneno para ratos
Shakespeare um plagiador
Beethoven com um corno enfiado na cabeça para
se defender da surdez
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche completamente enlouquecido
a impossibilidade de ser humano
demasiado humana
esta respiração
dentro e fora
fora e dentro
estes porcos
estes cobardes
estes campeões
estes cães danados da glória
movendo esta réstia de luz na nossa
direcção
impossivelmente."

Charles Bukowski  em "Os cães ladram facas [antologia poética]"