terça-feira, 8 de março de 2022

 
"O fotógrafo esquece (não precisa de lembrar)
que a luz satura o mundo.
Os corpos e as paisagens revelam-se-lhes expostos
e mesmo a opacidade (luminescência interna)
é feita para os olhos, num aparecer de formas,
de sombras e desejo.

Mas se a foto escreve luz, já a luz escreve sombra.
A própria fotografia é ao modo de uma sombra
sombra que se solta como folha de um outono.

Fotografar as sombras é uma arte de mistérios:
a imagem não suporta demasiada luz
e a escuridão profunda não se deixa imaginar.

O fotógrafo trabalha num recorte de penumbras
captando (capturando) espectros luminosos
silêncios fugidios, movimentos, corpos tensos
expostos numa sombra de uma sombra de uma sombra."



"Sombra Silêncio" de Carlos Poças Falcão
Opera Omnia, Outubro de 2018
Página 47
 
"É na fragilidade do teu nome que resguardas
palavras para um tempo de secura e esquecimento.
A liberdade ampara-as e o desejo pronuncia-as
até que sejam corpo do teu corpo e irradies.

Não é de muita água que precisa o dia fértil
numa concha da palavra é ouvido o mundo todo
-e a vida vai fendendo as durezas mais rugosas
não como veios de água ou aflorações do sangue
mas com uns versos frágeis e volantes, quase ditos.

Do poema é a voz pobre. Respirando a céu aberto
ele vem da escuridão, já perdido de si mesmo.
Até que ouça luz de alguma luz - e fique escrito."



"Sombra Silêncio" de Carlos Poças Falcão
Opera Omnia, Outubro de 2018
Página 37
 
"Subir uma montanha é fincar-se ainda à terra
ascender a altos cumes é ainda horizontal.
Subidas verdadeiras são as feitas sem dar passos
e a ascensão é como uma paragem que se eleva.
 
Entretanto os montes pedem mais respiração
aproximam quem caminha a um ponto de silêncio
às paisagens nuas que os humanos não dominam.

Aí nas altitudes onde o vento é sempre novo
também os corações pressentem a vertigem
de algo que se abre, realidade original.

Por isso os montanhistas, os esforços de ascensão
ao lugar dos cimos, das giestas e das águias,
lugar das fontes vivas e dos cedros quase eternos.

Porém uma montanha é apenas superfície
ninguém se eleva mais que o lugar dos próprios pés
ninguém pode ir mais longe que a moldura do seu corpo.

Só o desejo impele infinito a outra subida
uma subida a um rosto, a um corpo que se ama
- e essa é a montanha, o amor, a sarça, o Deus."



"Sombra Silêncio" de Carlos Poças Falcão
Opera Omnia, Outubro de 2018
Página 22

quarta-feira, 2 de março de 2022

Cogumelos de Setembro

 
"Voltei a sentir a sua falta este ano.
Eu estava imersa noutro lugar
quando o tempo se alterou
e caiu chuva suficiente.

À sombra das árvores, furtivamente,
irromperam através da lama arenosa
e da húmida folhagem -

um pedaço de cor, depois outro -
transportando enigmáticas notícias
do que acontece lá em baixo:
a lenta dissolução do pau-santo,
os filamentos, os pequenos nós como punhos,
montando a sua rede e névoa.

Alguns eram vermelho-vivo, outros púrpura,
alguns castanhos, alguns brancos, outros amarelo-limão.
Durante a noite acotovelavam-se,
desdobrando-se como húmidos leques, esponjas vivas,
quais pratos de radar, escutando.

O que terão ouvido do humano mundo
do assim chamado luz e ar?
Que mensagem enviaram para baixo
antes de murcharem?
Terá sido Cuidado?

Repara. O que sobra:
um globo de couro de esporos empoeirados,
uma pétrea lua mordiscada,
uma meia-esfera seca,
uma orelha escurecida."




"Afectuosamente" de Margaret Atwood
Bertrand Editora
1ª Edição, Julho de 2021
Páginas 235, 237

Suíte do Plasticeno

 
1. Objecto tipo pedra na praia

O Paleoceno o Eoceno
o Mioceno o Pleistoceno
e eis-nos agora aqui: o Plasticeno.

Olha, uma rocha feita de areia
e uma de cal, e uma de quartzo,
e uma de o que é isto?

É preto e listrado e escorregadio,
não exactamente uma pedra
nem uma não-pedra.

Na praia pelo menos.
Óleo petrificado, com uma veia escarlate,
parte de um balde talvez.

Quando desaparecermos e os alienígenas chegarem
para decifrar os nossos fósseis:
será isto um testemunho?

De nós: da nossa tão breve história,
da nossa inteligência, da nossa negligência,
da nossa morte repentina?



2. Débeis esperanças

Poderias transformá-lo em óleo
fervendo-o: isso já foi feito.
Primeiro terias de o apanhar.
Haveria também o cheiro.

Alguns supermercados proibiram-no.
Também as palhinhas.
Talvez venha a haver um imposto
ou outras leis.

Há micróbios que o comem -
já foram descobertos.
Mas a temperatura tem de ser alta:
não aplicável ao mar do Norte.

Podes prensá-lo a imitar madeira
mas somente alguns tipos.
E em blocos para construção, também.

Podes colhê-lo dos rios
antes que chegue ao mar.
Mas e depois? O que fazes com ele?

Com o avassalador, contínuo
infindável derramamento?



3. Folhagem

«um pedaço de plástico preto - a folhagem que define a era do petróleo»
Mark Cocker, Our Plate

Brota por todo o lado, esta folhagem.
Do alto das árvores, como visco,
ou presa nos pântanos

ou florescendo em lagoas como nenúfares,
ataviada e ostensiva,
ondulando como se estivesse viva

ou dando às praias, neo-algas
de sacos rasgados, embalagens descartadas, corda emaranhada
retalhada por rochas e marés.

Mas ao contrário da folhagem verdadeira não tem raízes
e não dá nada em troca,
uma caloria vazia sequer.

Quem a planta, esta inútil safra?
Quem a colhe?
Quem poderá dizer Basta?"




"Afectuosamente" de Margaret Atwood
Bertrand Editora
1ª Edição, Julho de 2021
Páginas 167, 169 e 171

terça-feira, 1 de março de 2022

Alma de pássaro

 
"Se os pássaros são almas humanas
Que pássaro és tu?
Um pássaro de Primavera com um canto alegre?
Um que voe alto?

És tu um pássaro nocturno?
Observando a Lua
Cantando Sozinha, Sozinha,
Cantando Morta Cedo Demais?

És uma coruja,
Predadora de penas macias?
Estás à caça, a caçar incansavelmente
A alma do teu assassino?

Sei que tu não és um pássaro,
Embora saiba que voaste
Para tão, tão longe.
Preciso que estejas em algum lugar ..."



"Afectuosamente" de Margaret Atwood
Bertrand Editora
1ª Edição, Julho de 2021
Páginas 80, 81
 
"Aproxima-te. Preciso dos teus olhos acesos para não me despenhar no vazio. Para não ter frio."


"Nunca atirei a pedra exacta para o lugar certo. E abri feridas em todas as direcções."


"Nunca cumpras todas as promessas. É um modo muito triste de morrer."


"Falar é uma morte muito violenta. Mas nos teus braços morrerei, se me escutares."


"Acordo de madrugada sem saber para onde vou. A lua entra-me nos vidros, no quarto, no sangue minguante."


"Mãe, sinto a clarividência a queimar-me, o fogo de ver como os cegos o miolo das coisas, a violência do mundo de dentro. Chama-me para fora. Só não quero morrer às escuras."


"Mãe, sinto as mãos a tremer. Ponho-as debaixo dos braços, coloco-as nos joelhos, sobre a cabeça. Não sei o que fazer. Toma-as. Esvazia-as por inteiro. Bato com elas no peito, bato com elas nas portas, bato-as uma na outra - e nunca afugento a solidão."


"Mãe: sinto o nevoeiro denso das manhãs de transumância. Abeiro-me das margens, das pontes, de todas as coisas que ligam uma nascente ao seu fim. Esmola, orvalho, pão. Tudo isso me dão. Eu só quero a luz."




"Sétimo Dia" de Daniel Faria
Assírio & Alvim
1ª Edição, Junho de 2021
Páginas 35, 56, 108, 126, 143, 144, 148 e 150