segunda-feira, 31 de julho de 2023

"Camponeses" de Gabriela Mistral

 "E ainda, ainda e sempre
esta queixa dou ao vento:
os que semeiam e regam
e fazem podas e enxertos,
os que cortam e carregam
debaixo de um sol de fogo
a melancia rosada,
o melão que cheira a céu,
ainda e sempre, todavia,
não têm "canto de chão".

Se o tivessem, não vagueavam
como a lanugem ao vento,
e se eu também o tivesse
não erraria como eles,
porque nasci, ouve bem,
pró amor, para o prazer
de semear milho que canta,
de espreitar os medronheiros
ou de ferver cada tarde
compotas sabendo a céu.

Mas foi em vão que em menina
descasquei a fruta ao sol
e em vão empilhei cachos
nas suas pequenas caixas,
e em vão espreitei as courelas
de medronheiros com dono,
porque os meus pais não tiveram
a terra dos seus avós,
e não fui feliz, ó corça,
e choro mesmo sem corpo,
sem ver as doze montanhas
que me velavam o sono,
ao dormir e acordar
com a fala de cem hortos
e com a sílaba imensa
do rio dentro do meu sonho."



Gabriela Mistral em "Antologia Poética"
Editorial Teorema, 2002
Páginas 104 e 105

"Montanhas Minhas" de Gabriela Mistral

 "Em montanhas me criei,
mais de três dúzias se erguiam.
Parece que nunca, nunca,
embora escute os meus passos,
as perdi, nem quando é dia,
nem quando é noite estrelada,
e embora veja nas fontes
a cabeleira nevada,
não fugi nem me deixaram
como filha mal lembrada.

E embora sempre me chamem
uma ausente e renegada,
possuí-as e ainda as tenho,
persegue-me o seu olhar
ao longo da minha estrada."



Gabriela Mistral em "Antologia Poética"
Editorial Teorema, 2002
Página 97

"Dois Anjos" de Gabriela Mistral

 "Não tenho só um anjo
com asa estremecida:
embalam-me, tal como
ao mar as duas margens,
o Anjo que dá o gozo
e o que dá a agonia;
o de asas vacilantes
e o das asas fixas.

Eu sei, quando amanhece,
qual vai guiar-me o dia,
se o que tem cor de chama
ou o da cor da cinza
e entrego-me como alga
às ondas, resignada.

Só uma vez voaram
com as asas unidas;
no dia do amor,
no da Epifania.

untaram-se só numa
as asas inimigas
e ataram o nó
entre a morte e a vida!"



Gabriela Mistral em "Antologia Poética"
Editorial Teorema, 2002
Página 51

quarta-feira, 19 de julho de 2023

"Árvores" de António Ramos Rosa

 
"O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1176

"O Encontro" de António Ramos Rosa

 "Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1128

"Obra Poética I" de António Ramos Rosa (III)

 
"Folha após folha
no fulgor do vento
sigo o trânsito da luz
através das sombras
do teu corpo."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1122

"Escrevo-te Com O Fogo E A Água" de António Ramos Rosa

 
"Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 1052

"Não Dissemos As Palavras Mais Simples" de António Ramos Rosa

 "Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra          uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical"



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 913

"Obra Poética I" de António Ramos Rosa (II)

 "Estamos à sombra de uma grande folha verde.
Uma grande folha de água.
Sem vertigens, mergulhamos na materna espessura de um paraíso vegetal. Toda a densidade do obscuro mundo animal se resolveu na paciência forte e suave de uma terna e acolhedora superfície arborescente que nos envolve na sensual flexuosidade dos seus ramos robustos, linhas determinadas, completas e compactas na sua generosa amplitude de promessa que em folhas, frutos, flores, mantém a integridade da energia única que as compõe e as conduz ao seu termo último.
É a metamorfose de uma flora abolindo a fronteira entre o terrestre e o aquático, é o mar e a floresta, é a amorosa e firme direcção do desejo incandescente que encontra o limite da forma terminal e se manifesta na pujante plenitude do compacto, a energia viva visível em toda a sua extensão, como se todo o impulso criador se configurasse no limite máximo da fixação, da imobilidade.
Uma flora iridiscente mas cálida, paciente e impetuosa.

como o rio do pulso que a rasga
como a seiva das veias harmoniosas
árvore marinha
liberta em volutas e espirais
com ramos densos como lâmpadas,
delicadeza vegetal, aquática,
dança navegada.

A grande folha verde olha-nos liberta das suas profundezas."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 699

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Fotografando Palavras (VII)


Para onde vão as vidas que vivemos?
Vão para a pele, para os olhos e para o coração.
Vão para os melhores e para os piores pensamentos.
Vão para o remoinho dos tempos.
Vão para os panos de cozinha já usados, vão para a receita do bolo de uma avó longínqua que já esquecemos.
As vidas vão para o pó das estrelas e para as fábricas de todas as coisas.
Vão para as lágrimas que não choramos, as palavras que não dizemos e os silêncios que tão pouco entendemos.
As vidas que vivemos vão para o puzzle que todos trazemos.
Nele se encaixam.
Nele fazem sentido.




Texto: Ana Miguel Socorro
Fotografia: Paula Abreu Silva

Do projecto de Paulo Kellerman, fotografar palavras, aqui 😊

"A Face Do Ar" de António Ramos Rosa

 
"O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar,
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 369

"Obra Poética I" de António Ramos Rosa (I)

 
"Aconteceram hoje palavras como folhas
na tua nuca de silêncio.
Como pássaros que ainda mais dizem o céu,
como pedras que ainda mais dizem a terra,
aconteceram hoje palavras que disseram
o nosso encontro em fuga."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 216

"Árvore" de António Ramos Rosa

 
"Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa."



António Ramos Rosa em "Obra Poética I"
Assírio & Alvim
1ª edição, Setembro de 2018
Página 182

quarta-feira, 12 de julho de 2023

"Canção Derruída" de Mar Becker (IV)

 
"os vivos morrem logo
são os mortos que morrem devagar
são os mortos que seguem morrendo depois que os velamos, que
os enterramos

passam-se dias, e ainda há fios de cabelo espalhados pela casa
passam-se meses, e ainda vemos o livro
o marcador guardando o fogo da última página lida
passam-se anos, e descobrimos na gaveta as palavras escritas, os
papéis

são lentos, os mortos
são lentos
como é lento o amor
como é lento reconhecer uma letra, que nos faz pensar nas mãos
como é lento imaginar as mãos, que lembram o pulso
como é lento pressentir o pulso, que nos atravessa
como sangue

em uma hora de hemorragia intensa os vivos perdem todo o
sangue dos seus corpos
os mortos no entanto se demoram, habitam a casa pelo meio
no mênstruo das mulheres, no silêncio partilhado entre mãe e 
filha
entre duas irmãs

e topamos com seus rostos através de outros rostos
não só os da família, mas também daqueles que cruzam por nós
na rua
e que não conhecemos

sempre acabamos encontrando nossos mortos por aí
eles acham jeito de voltar
de permanecer
eles acham jeito de surgir num sorriso
na cor que certos olhos assumem em tardes mais luminosas
num gesto breve
qualquer

os mortos, os mortos
tão vivos"



Mar Becker em "Canção Derruída"
Assírio & Alvim
1ª edição, Janeiro de 2023
Páginas 193 e 194

"Canção Derruída" de Mar Becker (III)

 
"tornar o amor uma casa
erguê-lo como se ergue um lugar, abrigar-se nele
entrar dentro do amor
refugiar-se em suas trincheiras como
os que vêm feridos de morte
os que de súbito entendem que viver é breve -
mas amar é longo
torná-lo tua mão que alcança a minha
a volta a um primeiro ato
de misericórdia
o sangue marcando as ombreiras de nossas portas
tornar o amor um esconderijo de infância
uma fresta na madeira
uma luz tênue
uma ave
tornar o amor uma casa; torná-lo
uma asa
que seja casa, o amor
ainda que amar desabrigue"



Mar Becker em "Derruição"
Assírio & Alvim
1ª edição, Janeiro de 2023
Páginas 125 e 126

"Canção Derruída" de Mar Becker (II)

 "as meninas da casa se inclinam sobre as janelas, nos parapeitos
e dormem

quem vê da rua, pensa que são as próprias janelas que estão
sonhando

e que sonhar é algo como o transbordamento
dos cabelos"



Mar Becker em "Canção Derruída"
Assírio & Alvim
1ª edição, Janeiro de 2023
Página 73

"Canção Derruída" de Mar Becker (I)

 "poderia dizer que amo teu nome à boca
poderia falar das vezes em que chega a manhã
e eu o procuro
e faço dele a primeira palavra tocada
mas não. o que digo é que no amor tudo nasce frágil
que há manhãs em que me vejo à beira do teu nome
e não sou capaz de feri-lo
com a voz"



Mar Becker em "Canção Derruída"
Assírio & Alvim
1ª edição, Janeiro de 2023
Página 14

terça-feira, 11 de julho de 2023

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (V)

 
"Irrompendo pelo lodaçal onde forrageiam as garças e a lama se mistura com os
excrementos das reses, ei-las que regressam, as chuvas.

Lavando o míldio das vides, a ferrugem das rosas, o caruncho das azinheiras,
ei-las que regressam, as chuvas.

Arrastando entulho, alagando celeiros, amotinando currais, ei-las que 
regressam, as chuvas.

Exacerbando fibromas, intumescendo gangrenas, sedimentando artroses, ei-las
que regressam, as chuvas.

Exortando suicidas, tolhendo convalescentes, segredando a agonizantes, ei-las
que regressam na cúspide do ano."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Página 80

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (IV)

 "Vem.

Anunciam-no as regueiras
pelas estradas friáveis,
o rumor brando da chuva,
o negrume de um céu
de amoras pisadas.

O vento passa
com a circunspecção
de um homem dobrado
sobre o seu cajado,
e, como ele, levanta
por um instante
a cabeça
para encher de luz
a vista cansada.

Vem.
Há muito que é esperado.

Nos lugares onde se detém,
já tudo se consumou, 
já tudo se reduziu
à sua opacidade.

Os pássaros vêm beber
nas poças abertas
pelos seus passos.

Vem.
Já ouço ao longe
a revoada.

Quando chegar,
já nada denunciará
a traição
que o aguardava."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Páginas 69 e 70

domingo, 9 de julho de 2023

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (III)

 "Um meio-dia translúcido
e sem peso
na quietude ondulada
da lezíria.

Um silêncio povoado,
um frenesim imperceptível,
a vibrante azáfama
da vida
na imobilidade da hora.

Também eu
participo do silêncio,
deixo alastrar o veneno."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Página 68

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (II)

 "Insectos levedam
no ventre das rãs.
Alfaiates fervem
as águas letárgicas.
Rescende a putrefacção.

Despenha-se,
flácida,
a última luz,
devorada
pela bocarra
negra
da terra,
de onde emana
um hálito
mórbido
e sulfuroso.

Além,
os campos agonizam.

Paralisadas
em pleno voo
pelo dardo álgido
do sol,
as aves planam
fusiformes.

Ominoso halo
do crepúsculo,
dança macabra
das traças,
inspirado jejum
da inacção.

Sabe-me a boca
a morte.
O júbilo azeda-me
o sangue.

Escuto ao longe
a tua missa:

o vento afia
as suas facas
nos meus ouvidos."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Páginas 52 e 53

"Que túmulo em que talhão" de João Moita (I)

 
"Escreve-te.

Molda
à martelada
a forma crua
do teu crânio,

remove
com a picareta
as nuvens
dos teus sonhos,

extrai
com o estilete
a necrose
dos sentimentos,

sufoca
na garganta
o gorgolejo
do teu canto,

e, sobretudo,
não esperes nada
do que amas."



João Moita em "Que túmulo em que talhão"
Guerra e Paz Editores
1ª edição, Abril de 2022
Página 11